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Sexo e Judaísmo — Parte IV


Teshuvah, limite e o que fazer quando o vínculo falha


Há um momento em que a linguagem da intenção já não basta.


Kavanah pode ter existido. A Shechinah pode ter se aproximado. Ainda assim, algo quebrou. Não no plano simbólico, mas no concreto. Palavras feriram. Gestos atravessaram limites. O desejo, que deveria cuidar, passou a exigir. O vínculo, que sustentava, tornou-se pesado.


É aqui que muitas tradições tropeçam. Ou absolutizam a continuidade a qualquer custo, ou descartam o laço como se nada tivesse sido construído. O judaísmo segue outro caminho. Mais lento. Mais desconfortável. Mais humano.


A palavra-chave é Teshuvah. Costuma ser traduzida como “arrependimento”, mas isso empobrece seu alcance. Teshuvah significa retorno. Não retorno ao que era antes, porque o antes já não existe. Retorno à responsabilidade. Retorno à verdade do que foi feito. Retorno à pergunta que não pode mais ser evitada: o que eu causei no outro?


Teshuvah não começa no sentimento, mas no reconhecimento. A tradição é dura nesse ponto. Não basta sentir culpa. Não basta sofrer. Não basta explicar. É preciso nomear a quebra sem embelezá-la. Onde houve uso, dizer uso. Onde houve silêncio covarde, dizer silêncio. Onde houve violência, dizer violência. A linguagem volta a ser central, não para salvar a relação, mas para impedir a mentira.


E aqui surge algo decisivo. Teshuvah não é garantia de reconciliação. Esse ponto é raramente dito com clareza, mas ele atravessa a tradição. A responsabilidade ética não obriga o outro a permanecer. O pedido de retorno não cria direito à continuidade. O judaísmo não sacraliza relações que se tornaram destrutivas. Ele sacraliza o limite.


Isso é fundamental para pensar sexo e intimidade sem romantização. Nem todo vínculo precisa ser restaurado. Algumas relações precisam terminar para que a dignidade sobreviva. Em certos casos, o verdadeiro Tikkun não é reconectar, mas separar com verdade, cuidado e responsabilidade. A tradição sabe disso. E não chama isso de fracasso moral.


Ao mesmo tempo, quando a reparação é possível, ela nunca é rápida. Teshuvah exige tempo. Exige mudança concreta. Exige aceitar que o outro pode não confiar mais. Que o desejo precisará reaprender a esperar. Que a presença não se reconstrói por promessa, mas por consistência.


Nesse ponto, algo importante se revela. O judaísmo não acredita em desejo inocente. Ele acredita em desejo educável. Um desejo que pode ser interrogado, contido, redirecionado. Não para ser negado, mas para não se tornar destrutivo. O erro não é desejar. O erro é desejar sem escutar o efeito do desejo no outro.


Talvez por isso o pensamento judaico nunca tenha glorificado a intensidade pela intensidade. O excesso, quando não passa pela responsabilidade, é sempre suspeito. O prazer que atropela não é bênção. A intimidade que exige silêncio não é sagrada. O sexo que pede que o outro desapareça para que eu me satisfaça já perdeu o caminho.


É aqui que o tema do limite retorna, agora com mais peso. Kedushah, neste estágio, não é apenas borda protetora do desejo. É fronteira ética que impede a repetição da ferida. O limite não aparece para punir, mas para preservar o que ainda pode ser preservado. Às vezes, preservar significa continuar. Às vezes, significa interromper.


Tudo isso deixa uma pergunta em aberto. Se o desejo é interrogável, se o vínculo é frágil, se a reparação nem sempre leva à continuidade, o que sustenta uma relação ao longo do tempo? O que faz com que a intimidade não se desgaste até virar hábito vazio ou campo de batalha?


A tradição judaica sugere uma resposta desconcertante: tempo compartilhado e palavra renovada. Não como técnica, mas como compromisso contínuo. O vínculo não se sustenta apenas no desejo inicial, mas na capacidade de voltar a falar quando o silêncio se torna perigoso.


É exatamente aqui que a discussão precisa avançar mais um passo. Porque ainda não falamos do desgaste. Da rotina. Do cansaço. Do desejo que não desaparece, mas muda de forma. Da intimidade que já não é intensa, mas profunda. Ou, às vezes, apenas cansada.


Na Parte V, entraremos nesse território difícil e pouco romantizado. Falaremos do tempo, da repetição, da erosão do desejo e da diferença entre fidelidade viva e permanência morta. Falaremos do que sustenta uma relação quando o novo já passou.


Porque, no judaísmo, a pergunta nunca foi apenas como começar.

Sempre foi como permanecer sem se perder.


Esta foi a Parte IV.

A série continua.

 
 
 

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