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Sexo e Judaísmo — Parte II

Sob a Chuppah: aliança, fragilidade e o que o desejo não pode esquecer


Há um momento, em todo casamento judaico, em que o tempo parece desacelerar. O casal está sob a Chuppah. Não há paredes, não há portas, não há fechamento. Apenas um teto sustentado, aberto aos lados, exposto. Aquilo que está sendo criado ali não se esconde do mundo. E isso não é acidental. É ensinamento.


A Chuppah não simboliza apenas um casamento. Ela simboliza uma ideia de casa. Uma casa que nasce aberta, vulnerável, atravessada pela comunidade, pela história e pela memória. Antes mesmo de se falar em sexo, intimidade ou desejo, o judaísmo apresenta uma moldura: o vínculo não é privado no sentido de isolado. Ele é responsável. Ele acontece diante de outros e em continuidade com outros.


Essa é uma das intuições mais profundas da tradição judaica: não existe desejo completamente fechado em si. Todo desejo acontece dentro de uma rede de relações, expectativas, feridas herdadas e promessas futuras. A arquitetura ritual da Chuppah já ensina isso sem palavras. O lar que se inicia ali não é um refúgio narcísico. É uma tenda exposta ao vento.


Logo depois, ou ainda sob esse mesmo espaço simbólico, vêm as Sheva Brachot, as sete bênçãos. Elas não falam apenas do casal. Falam da criação do mundo, da alegria humana, da continuidade da vida, da reconstrução da comunidade. O amor entre duas pessoas é deliberadamente inserido num horizonte maior do que elas mesmas. O número sete não resolve nada magicamente. Ele aponta para um ciclo, para algo que se constrói no tempo, com repetição, com falhas, com retorno.


Aqui, a sexualidade já começa a ganhar contornos éticos muito claros. Ela não é apresentada como um evento isolado, íntimo no sentido de fechado. Ela é atravessada por linguagem, bênção, memória e expectativa. O corpo que deseja não está solto no mundo. Ele é situado.


E então vem o gesto que mais desconcerta quem observa de fora. No ápice da alegria, um copo é quebrado. O som do vidro estilhaçando interrompe a celebração. Alguns riem, outros se emocionam. Mas o significado é sério. Mesmo no momento mais pleno, o judaísmo insiste em lembrar que o mundo não está inteiro. A destruição do Templo é evocada. A história não é apagada. A fratura não é negada.


Esse gesto é decisivo para pensar sexo e vínculo. O casamento começa com a lembrança de que aquilo que se constrói é frágil. Que a alegria não é garantida. Que o pacto exige cuidado constante. O vidro quebrado não é pessimismo. É lucidez. É a recusa da fantasia de que o amor — ou o sexo — resolve tudo.


Quando se pensa a sexualidade a partir desse ritual, algo muda profundamente. O sexo deixa de ser promessa de fusão ou de cura absoluta. Ele se torna parte de um trabalho. Um trabalho de atenção, de responsabilidade, de presença. Ele pode aprofundar o vínculo ou agravá-lo. Pode reparar ou ferir. Nunca é neutro.


É impossível não perceber como essa simbologia dialoga com tudo o que foi visto na primeira parte desta série. A Torah começa com a solidão. O Talmud introduz a responsabilidade. A Chuppah coloca o desejo sob um teto aberto. As Sheva Brachot inserem o amor no tempo da criação. O vidro quebrado lembra que toda relação acontece num mundo estilhaçado.


Nada aqui é decorativo. O judaísmo não confia no desejo quando ele se apresenta como solução fácil. Por isso o ritual não acelera. Ele demora. Ele carrega tensão. Ele mistura alegria e memória. Ele não entrega respostas prontas. Ele educa o olhar.


Talvez seja por isso que essa tradição soe tão estranha hoje. Vivemos num tempo que promete prazer sem memória, intimidade sem responsabilidade, sexo sem consequências. O casamento judaico vai na direção oposta. Ele afirma, desde o início, que o vínculo humano nasce atravessado por história, limite e fragilidade.


Mas ainda não chegamos ao ponto mais delicado. Até aqui, falamos de símbolos públicos, rituais visíveis, linguagem compartilhada. Ainda não entramos no espaço onde tudo isso se interioriza. Onde o desejo encontra intenção. Onde o vínculo encontra reparação. Onde a presença deixa de ser apenas social e se torna existencial.


É ali que entram conceitos como Kavanah, Tikkun e Shechinah. Não como misticismo ornamental, mas como categorias exigentes para pensar o que acontece quando dois corpos se encontram num mundo quebrado.


Isso fica para o próximo texto.


Esta é apenas a Parte II.

Muito ainda está por vir nesta série.




 
 
 

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