Sexo e Judaísmo -- Parte I
- Reginaldo Eugenio Ramos Teodoro
- há 12 minutos
- 3 min de leitura

Há perguntas que o judaísmo se recusa a responder de imediato.
E talvez essa recusa seja a sua forma mais honesta de sabedoria.
Quando se pergunta o que o judaísmo “diz” sobre sexo, espera-se algo direto: normas, permissões, proibições, talvez uma moral clara e classificável. Mas a tradição judaica não começa respondendo. Ela começa deslocando a pergunta. Antes de falar de desejo, fala de solidão. Antes de legislar sobre o corpo, descreve uma fratura.
Logo no início da Torah, quando ainda não há mandamentos, nem pacto do Sinai, nem sistema jurídico, aparece uma afirmação desconcertante:
“Não é bom que o humano esteja só” (Bereshit / Gênesis 2:18).
Não se fala aqui de pecado, nem de libido, nem de transgressão. Fala-se de uma condição estrutural: o humano é um ser em falta de relação. O sexo surge nesse contexto: não como resposta técnica a um impulso biológico, mas como tentativa de habitar essa falta. A Torah não explica o sexo; ela o coloca em cena antes mesmo que a pergunta moral exista.
Esse atraso da resposta é intencional. A tradição judaica não oferece o sexo como solução. Ela o apresenta como problema ético em aberto.
Talvez seja por isso que Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos) permaneça um escândalo silencioso até hoje. Um poema explicitamente erótico, sem referências diretas à Lei, à culpa ou à proibição, preservado no centro do cânone. Nele, o desejo não é disfarçado nem domesticado. Ele fala em primeira pessoa. Ele busca. Ele chama.
“Beije-me ele com os beijos de sua boca” (Shir HaShirim / Cântico dos Cânticos 1:2).
“Minha amada é para mim, e eu sou para ela” (6:3).
A tradição rabínica nunca eliminou esse erotismo. Preferiu interpretá-lo, tensioná-lo, multiplicar seus sentidos. Deus? Amor humano? Ambos? A ambiguidade permanece. E isso não é uma falha hermenêutica: é um posicionamento. O judaísmo parece dizer: há dimensões do desejo que não sobrevivem quando totalmente explicadas.
O Talmud continua esse movimento de adiamento, mas muda o eixo. Em vez de teorizar o prazer, ele se concentra na responsabilidade. Quando formula a mitzvah de Onah, não está perguntando “quem pode desejar quem?”, mas algo muito mais desconfortável: o que se deve ao outro quando se deseja? A obrigação conjugal não é apresentada como direito de posse, mas como dever de cuidado, atenção e responsividade. O desejo, por si só, não legitima o uso do corpo do outro. Mesmo no espaço mais íntimo, a tradição se recusa a suspender a ética.
Essa preocupação aparece de forma clara quando o Talmud afirma que o marido não pode reduzir a esposa a objeto de satisfação mecânica, e que a intimidade exige presença, tempo e consideração. O prazer não é negado: mas ele é situado. O corpo nunca é neutro.
É nesse ponto que o casamento judaico revela seu caráter profundamente não-romântico. Kiddushin não é fusão; é Brit, aliança. E aliança não elimina o desencontro: ela o reconhece. Dois sujeitos entram num pacto não porque se completam, mas porque aceitam sustentar um vínculo apesar da incompletude. O sexo, nesse contexto, deixa de ser promessa de resolução e passa a ser tarefa contínua que engloba, inclusive, aceitar limites, idiossincrasias, pequenos defeitos que nos fazem mais... humanos?!
Aqui, a noção de Kedushah começa a ganhar contornos mais precisos. Santidade, no judaísmo, não é ascetismo nem negação do corpo. É limite. É borda. É aquilo que impede que o desejo, ao buscar intensidade, atravesse o outro como se ele fosse coisa. Onde não há limite, o prazer desliza facilmente para o consumo. Onde há limite, o desejo permanece humano: precisamente porque não se fecha sobre si mesmo.
Uma leitura judaica reformista não suaviza esse desconforto. Ela o assume. Não abandona a tradição, mas se recusa a transformá-la em código morto. Em vez de perguntar apenas “isso é permitido?”, ela recoloca a questão num nível mais exigente: que tipo de relação isso produz? Que tipo de humano emerge desse encontro? Que feridas são cuidadas e quais são aprofundadas?
Talvez por isso essa tradição soe estranha no presente. Vivemos em uma cultura que acelera o desejo, promete satisfação imediata e dispensa responsabilidade. O judaísmo, ao contrário, desacelera. Complica. Introduz linguagem onde se esperava impulso. Introduz obrigação onde se esperava liberdade absoluta. E, ao fazer isso, sugere algo profundamente contracultural: que o problema nunca foi o sexo, mas a tentativa de resolvê-lo rápido demais.
Nada disso encerra a discussão. Pelo contrário. Até aqui, falamos de Torah, Talmud, aliança e limite. Mas ainda não tocamos no ponto em que essa ética se torna mais arriscada e mais profunda: a Kabbalah. Tikkun. Kavanah. Shechinah. Conceitos que não vêm para harmonizar o desejo, mas para expor o quanto ele nunca é neutro — e o quanto ele pode tanto reparar quanto ferir.
Este texto não entrega respostas finais. Ele prepara o terreno.
É apenas a Parte I.







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