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Sexo e Judaísmo — Parte III



Há um ponto em que o ritual já não basta.


A Chuppah ficou para trás, as bênçãos foram ditas, o vidro foi quebrado. A comunidade se dispersa. O que resta agora não é mais símbolo público, mas vida. É nesse espaço silencioso, longe do olhar coletivo, que o judaísmo começa a falar de algo ainda mais exigente.


Porque o problema nunca foi apenas o que fazemos, mas como estamos quando fazemos.


A tradição judaica sempre desconfiou do gesto automático. Da ação que acontece sem presença. Da repetição que anestesia. É por isso que, mesmo nos atos mais simples, ela insiste em algo que parece pequeno, mas não é: Kavanah. Intenção. Direção interior. Atenção ao que se faz e ao que se provoca no outro.


Sem Kavanah, o ato pode ser correto e, ainda assim, vazio. Pode ser permitido e, ainda assim, ferir.


Essa lógica aparece de forma explícita na prática religiosa. Uma bênção dita sem Kavanah é considerada incompleta. Uma oração recitada sem presença corre o risco de não passar de ruído. O mesmo princípio atravessa a intimidade. O sexo, no judaísmo, nunca foi pensado como tecnicamente suficiente. Ele exige consciência. Exige escuta. Exige tempo.


Não por acaso, a Torah afirma que o humano conhece o outro. O verbo usado, yada, não descreve posse nem uso. Ele descreve conhecimento relacional. Encontro que transforma quem conhece e quem é conhecido. Bereshit não diz que o humano toma, consome ou satisfaz. Diz que conhece.


É nesse ponto que a Kabbalah entra, não como exotismo, mas como radicalização ética. Quando fala de Shechinah, a tradição mística não está falando de uma entidade mística flutuante. Está falando de presença. De algo que habita ou se retira conforme a qualidade do vínculo. A Shechinah não aparece onde há uso, violência ou indiferença. Ela aparece onde há cuidado, atenção e limite.


Por isso, na literatura cabalística, o leito conjugal pode ser descrito como altar. Não porque o sexo seja sagrado em si, mas porque ele pode se tornar lugar de presença ou de ausência. Lugar de reparação ou de aprofundamento da fratura.


Aqui surge o conceito mais delicado de todos: Tikkun. Reparar não significa consertar algo quebrado como quem devolve um objeto ao estado original. Significa agir com responsabilidade dentro de um mundo que já nasce fraturado. O desejo não cria a quebra. Mas ele pode escolher o que fazer com ela.


O sexo vivido sem Kavanah tende a repetir a quebra. Ele transforma o outro em meio. Ele tenta usar o corpo para silenciar angústias que não se deixam silenciar. Já o sexo vivido com intenção não resolve a falta, mas cuida dela. Ele reconhece o limite. Ele aceita que o encontro não fecha tudo. E, justamente por isso, não exige do outro o impossível.


Talvez aqui fique mais claro por que o judaísmo nunca prometeu fusão. Onde outras tradições buscaram dissolução do eu, o pensamento judaico insistiu na relação entre dois. Dois que permanecem dois. Dois que se encontram sem desaparecer. Dois que carregam história, falha, memória.


É nesse espaço que a Shechinah pode habitar. Não como milagre, mas como consequência ética. A presença emerge quando ninguém é reduzido a objeto. Quando o desejo não atropela a linguagem. Quando o prazer não é arrancado, mas recebido.


Tudo isso se torna ainda mais urgente no mundo contemporâneo. Vivemos cercados por estímulos que nos treinam para desejar sem presença. Para tocar sem escutar. Para consumir sem vínculo. O sexo se torna rápido, eficiente, abundante e, paradoxalmente, vazio. A tradição judaica oferece aqui uma resistência silenciosa. Ela insiste que o desejo não deve ser acelerado. Que o corpo não deve ser instrumentalizado. Que a intimidade não sobrevive sem intenção.


Nada disso é confortável. Kavanah exige trabalho. Tikkun exige responsabilidade. Shechinah não se deixa invocar por técnica. Ela aparece ou não aparece. E essa incerteza é parte da ética.


Este texto não encerra o caminho. Ele apenas aprofunda a pergunta. Se o desejo exige intenção, e se a relação nunca se resolve por completo, o que fazemos quando o vínculo falha? Quando a quebra deixa de ser simbólica e se torna dor real? Quando a intimidade já não abriga presença, mas distância?


É aí que a tradição dá mais um passo.


Na Parte IV, entraremos no território do erro, da fratura explícita e da possibilidade de retorno. Falaremos de teshuvah, de reparação após a quebra, de limites que precisam ser reerguidos e de relações que não podem ou não devem ser restauradas.


Porque, no judaísmo, nem todo vínculo precisa continuar. Mas todo desejo precisa ser interrogado.


Esta foi a Parte III.

A série continua.




 
 
 

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