Parashat Tetzavê com Rabino Jacques Cukierkorn
- Rabino Jacques Cukierkorn

- 27 de fev.
- 4 min de leitura

Nesta semana, ao lermos a Parashá Tetzavê e nos aproximarmos da alegria de Purim, encontramos um espaço espiritual fascinante: um espaço onde Deus está presente, mas não é nomeado; poderoso, mas oculto; essencial, mas fácil de não perceber.
A Parashá Tetzavê é única entre as porções da Torá porque, pela primeira vez desde o início do livro do Êxodo, o nome de Moisés não aparece em absoluto. A Torá descreve com grande detalhe as vestimentas do Sumo Sacerdote, o óleo que deve arder continuamente, o serviço sagrado — mas Moisés, o maior dos profetas, está ausente pelo nome. Nossa tradição percebeu isso imediatamente. O Baal HaTurim ensina que essa ausência não é acidental. É intencional. Mesmo quando o líder dá um passo atrás, mesmo quando o nome não aparece, a missão continua. A presença nem sempre exige visibilidade.
E isso nos conduz diretamente ao mundo de Purim.
O Livro de Ester é o único de todo o Tanach em que o nome de Deus não aparece explicitamente. Nenhum mar se abre. Nenhum fogo desce do céu. Nenhuma voz fala do alto. E, no entanto, ao final da história, temos absoluta certeza de que Deus esteve presente o tempo todo. A salvação surge por meio do que parecem ser coincidências: Ester torna-se rainha, o rei não consegue dormir, um ato esquecido de lealdade é subitamente lembrado. O Talmud, em Chulin 139b, chega a perguntar:
“Onde Ester está insinuada na Torá?”
E responde com um versículo de Deuteronômio:
“Veanochi haster astir panai” — “Certamente ocultarei o Meu rosto”.
O próprio nome Ester vem da raiz hebraica que significa “ocultar”.
Purim nos ensina algo radical e profundamente relevante: Deus não é encontrado apenas no extraordinário, mas também no ordinário. Não apenas em milagres que rompem a natureza, mas em momentos que se alinham silenciosamente. Em um mundo onde Deus não grita, a fé consiste em aprender a escutar com mais atenção.
Essa ideia ressoa com força no pensamento judaico sobre o futuro. Maimônides, o Rambam, ensina em seu Mishnê Torá que, na era messiânica, todas as festas eventualmente perderão sua distinção — exceto Purim. É uma afirmação surpreendente. Por que Purim? Porque Purim não depende de milagres abertos. Ele nos treina a reconhecer significado mesmo quando nada sobrenatural parece estar acontecendo. Em um mundo futuro cheio de clareza, Purim permanece relevante porque nos ensina a ver Deus já agora, em um mundo cheio de ambiguidades.
Purim é também a primeira grande celebração judaica vivida inteiramente no exílio. O povo judeu não tem terra, nem Templo, nem soberania. Está politicamente vulnerável e existencialmente ameaçado. O decreto de Hamã não é apenas mais um desafio; é uma tentativa de aniquilação total. E, ainda assim, o povo sobrevive. Não por meio do poder, nem de exércitos, mas através da coragem, da solidariedade e da clareza moral. A Meguilá torna-se o arquétipo da sobrevivência judaica em um mundo hostil. Ela nos lembra que o exílio, por mais longo que seja, não é eterno — e que a própria esperança é um ato sagrado.
O versículo que define Purim diz tudo: é o dia em que o luto se transformou em alegria, e a tristeza em celebração. Nossos sábios ensinam que, na era messiânica, até mesmo o sofrimento será reinterpretado — não apagado, mas transformado. O significado emergirá da dor. A alegria não negará o luto; ela crescerá a partir dele.
O grande místico Isaac Luria vai ainda mais longe ao brincar simultaneamente com a linguagem e a teologia. Ele ensina que Yom HaKipurim pode ser lido como “Yom ke-Purim” — “um dia como Purim”. Pensemos nisso por um momento. Yom Kipur é o dia mais sagrado do ano, marcado pelo jejum, pelas vestes brancas, pelas orações solenes e pelo silêncio. Purim, ao contrário, é barulhento, alegre, corporal, cheio de comida, risadas, fantasias e vinho. E, no entanto, Luria sugere que Purim atinge a mesma altura espiritual, mas por meio da alegria em vez da negação, por meio da celebração em vez da aflição. A proximidade com Deus que buscamos em Yom Kipur por meio da auto-restrição, em Purim saboreamos ao abraçar plenamente a vida.
E aqui, mais uma vez, retorna a Parashá Tetzavê. As vestimentas sacerdotais não são detalhes secundários. A Torá nos diz que elas são “para honra e para beleza”. A santidade, insiste a Torá, não diz respeito apenas ao que acreditamos, mas a como vivemos, a como revestimos nossos valores, a como levamos dignidade e beleza ao mundo. A chama eterna do Mishkan não é acesa por milagres; ela é mantida dia após dia por mãos humanas. Até mesmo o santuário de Deus depende da responsabilidade humana.
A lição para a vida é clara e profundamente alinhada com o espírito do Judaísmo Reformista. Não esperamos que Deus seja evidente para agir com integridade. Não esperamos certeza para escolher a coragem. Não esperamos milagres para trazer luz. A fé, em nossa tradição, não é uma crença passiva; é uma consciência ativa. É aprender a ver significado onde outros veem coincidência, responsabilidade onde outros veem acaso, esperança onde outros percebem apenas risco.
Purim nos lembra que o riso pode ser sagrado, que a alegria pode ser profunda e que, mesmo quando Deus parece distante, nunca estamos sozinhos. A Parashá Tetzavê nos lembra que liderança não exige reconhecimento, que a santidade muitas vezes acontece nos bastidores e que a luz da nossa tradição só arde quando nós mesmos cuidamos dela.
Que aprendamos, nesta época de milagres ocultos, a reconhecer a presença silenciosa do Divino em nossas próprias vidas. Que tenhamos a coragem de Ester, a humildade de Moisés e a alegria de um povo que sabe que, mesmo no exílio, mesmo na incerteza, nossa história continua. E que saibamos sempre transformar o medo em fé, o silêncio em significado e o oculto em luz.
Chag Purim Sameach.




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