top of page

Sermão para Parashat Beshalach


Parashat Beshalach narra uma história de movimento: um povo que finalmente deixa para trás a escravidão e começa a caminhar rumo ao desconhecido. Os israelitas saem apressadamente do Egito, o exército do faraó os persegue, o mar ainda se encontra diante deles e o medo paira no ar. E, no entanto, em meio a essa fuga dramática, a Torá faz uma pausa para nos contar algo silencioso e profundamente intencional: “E Moisés levou consigo os ossos de José, pois José havia feito os filhos de Israel jurarem, dizendo: ‘Certamente Deus vos visitará, e fareis subir daqui os meus ossos convosco’”.


Este versículo parece quase fora de lugar. O povo foge para salvar a própria vida. Não é o momento em que se esperaria que a Torá se detivesse para falar de restos mortais. E, ainda assim, a Torá insiste que prestemos atenção a esse detalhe, pois ele nos ensina algo essencial sobre a liberdade e sobre quem somos como povo.


A liberdade, sugere a Torá, não diz respeito apenas ao que deixamos para trás. Ela também diz respeito ao que — e a quem — nos recusamos a abandonar. Moisés compreende que o Êxodo estará incompleto se José permanecer enterrado em terra estrangeira. Uma libertação que se esquece dos mortos ainda não é redenção.


Nesta semana, ao recebermos os restos mortais do último refém de Gaza, este versículo nos fala com uma clareza dolorosa. O retorno não apaga o luto nem desfaz a perda. Mas afirma algo sagrado: essa pessoa não foi esquecida, não foi abandonada, não foi apagada. Mesmo na morte, ela retorna para casa.


Nossa tradição conta que Moisés se envolveu pessoalmente na recuperação dos restos de José, enquanto outros se ocupavam em reunir o ouro e a prata do Egito. O Midrash ensina que alguns perseguem riquezas, enquanto outros perseguem mitzvot. Moisés escolheu aquilo que nossos sábios chamam de chesed shel emet, um ato de bondade verdadeira — a bondade feita àqueles que jamais poderão retribuir. Honrar os mortos, cuidar de sua dignidade e assegurar seu retorno é um dos atos morais mais elevados do judaísmo.


O Talmud nos recorda que o local onde José estava enterrado havia sido esquecido ao longo das gerações. Ninguém sabia onde ele se encontrava. Apenas uma pessoa se lembrava: Serach, filha de Asher. Segundo o Midrash, ela viveu o suficiente para atravessar gerações, carregando a memória silenciosamente dentro de si. Quando Moisés procurou os restos de José, foi Serach quem se apresentou e disse: “Eu me lembro”.


Serach nos ensina que a própria memória é sagrada. Quando o tempo, o trauma e a distância ameaçam apagar nomes e rostos, o judaísmo nos chama a lembrar. Cada geração precisa de pessoas que se recusem a permitir que os desaparecidos se percam no silêncio. Cada geração precisa de guardiões da memória que insistam que toda vida importa, mesmo muito depois que o barulho se dissipa.


O retorno de restos mortais não é um ato político. É um ato de aliança, de pacto. Ele declara que o pertencimento não termina com a morte e que a dignidade nunca é condicional. É a nossa maneira de dizer: você ainda é um dos nossos.


Mais adiante nesta parashá, depois que o mar se abre e o povo atravessa em segurança, Moisés e Miriam conduzem os israelitas em cântico. É um dos momentos mais alegres da Torá. E, no entanto, nossos sábios ensinam que, quando os anjos quiseram cantar também, Deus os impediu, dizendo: “Minhas criaturas estão se afogando no mar, e vocês querem cantar?”. O judaísmo não exige uma alegria que esqueça o sofrimento. Ele permite que a celebração e a dor coexistam.


Assim também nós nos encontramos hoje com o coração dividido. Podemos afirmar a esperança e a resiliência e, ao mesmo tempo, abrir espaço para as lágrimas. Podemos acreditar na vida e na dignidade enquanto honramos o peso da perda.


Moisés nos ensina que, às vezes, a santidade pesa. Ele carrega os ossos de José não porque seja fácil, mas porque é o certo. E também nós somos chamados a carregar aquilo que é sagrado em nossas próprias vidas: carregar a memória, a responsabilidade, a compaixão e uns aos outros, mesmo quando o caminho é longo.


Que este momento nos lembre que ninguém é descartável, que a memória é uma forma de amor e que, mesmo nas passagens mais incertas da história, escolhemos a humanidade em vez da indiferença. E que nós, como Moisés e como Serach bat Asher, sejamos um povo que lembra, que carrega e que nunca abandona os seus.


Chazak, chazak, venitchazek.

Comentários


© 2021 Brit Bracha Brasil | Integrando Judeus e Não judeus de Norte a Sul do País

Filiada ao Movimento Judaico Reformista Internacional

Brit Braja Worldwide Jewish Outreach - BBWJO

BRIT BRACHA BRASIL
CNPJ: 19.121.806/0001-66

  • Cinza ícone do YouTube
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Facebook Icon
bottom of page