Parashat Beshalach - Êxodo 13:17-15:26 (Calendário Trienal)
- Mayra Luanna

- há 6 dias
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Entre o Mar e a Memória: Beshalach, Shoá e a Responsabilidade de Lembrar
Na Parashat Beshalach, observamos que o coração do faraó endureceu mais uma vez após a libertação dos hebreus. Com o seu orgulho ferido e o medo de perder o controle, o líder egípcio muda de ideia e, novamente, decide resgatar a sua “coroa” através da opressão.
Essa mudança não acontece no vazio, mas nasce de uma lógica perigosa: quando a liberdade do próximo é vista como ameaça. O que nos lembra que ao longo da história, nós estudamos sobre líderes que governavam - e ainda governam - como o Faraó, utilizando esse tipo de pensamento para justificar a sua violência.
Nesse ano, a parashah ganha um peso ainda maior em sua interpretação, pois coincidiu com a semana que acolhe o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (27 de Janeiro).
Assim como no Egito, o Holocausto não começou com campos de extermínio. A opressão começou quando os corações se endureceram, com a normalização do ódio e com a decisão ativa e silenciosa de perseguir um povo que só queria existir. Esse padrão de comportamento retira o que há de mais precioso: a nossa humanidade, o nosso senso de empatia.
O faraó e seus seguidores encarnam a incapacidade de lidar com limites morais quando o orgulho e o poder são confrontados. Nessa perspectiva, o mal no século XX não foi obra apenas das suas lideranças, monstros isolados, mas também de sistemas organizados e sustentados por pessoas comuns que simplesmente escolheram obedecer, calar ou lucrar com a morte de 6 milhões de judeus.
Quando essas correntes finalmente se quebram, nós percebemos que a luta ainda não terminou. A história nos mostra que o momento mais perigoso vem depois da derrota do opressor. Na Shoá, quando os nazistas já haviam perdido a guerra, quando a queda era inevitável, eles não escolheram libertar. Eles escolheram destruir.
Os assassinatos se intensificaram, os campos se tornaram fábricas de morte ainda mais apressadas, numa tentativa desesperada de garantir que nada sobrevivesse. Nem corpos, nem testemunhas e nem memória.
Assim como o faraó que corre atrás do povo ao perceber que perdeu o controle, o regime nazista mostrou que há sistemas que preferem o extermínio à aceitação da liberdade do outro.
É nesse ponto que Beshalach nos coloca entre o medo e a esperança. O povo está livre, mas encurralado. O passado ameaça puxá-los de volta, e o futuro ainda é desconhecido. O medo paralisa, faz olhar para trás; a esperança exige movimento, mesmo sem garantias. A travessia do mar só acontece porque alguém ousa dar o primeiro passo. A Torá nos ensina que a redenção não nasce da ausência do medo, mas da decisão de não se submeter a ele.
A Torá nos questiona:
Você está endurecendo o seu coração?
Você está aceitando narrativas que retiram a dignidade do outro?
O seu silêncio o torna cumplicidade de uma crueldade?
A memória das vítimas da Shoá nos convoca à reflexão os seguintes pontos: não repetir o padrão do faraó, não normalizar a perseguição e não permitir que o ódio volte a governar sobre os povos.
E é aqui que a educação se torna um ato de libertação. Quebrar correntes não é apenas romper grilhões físicos, mas impedir que a lógica do opressor continue viva. A educação preserva nomes, histórias e contextos; a memória resgata a nossa humanidade. Ensinar, lembrar e transmitir são formas de resistência. Cada geração que aprende é um elo que não se rompe. Cada memória preservada é um “mar” que se abre novamente, impedindo que o esquecimento volte a nos aprisionar.
Que a memória não seja apenas um gesto simbólico, mas um compromisso ético contínuo. A Torá nos ensina que a omissão nunca é neutra; ela sempre acaba favorecendo a injustiça.
Lembrar é resistir.
Mayra Pereira (Rivkah bat Emanuel veMiriam)







"A Torá nos ensina que a omissão nunca é neutra; ela sempre acaba favorecendo a injustiça" 👏👏👏
Am Ysrael Chai 🙏
"a esperança exige movimento, mesmo sem garantias". 👏👏👏
Am Ysrael Chai 🙏