A Fé em Movimento: Lições da Parash Beshalach
- Dr. Luiz Antônio Araújo de Souza

- há 5 dias
- 4 min de leitura

A euforia da liberdade é, muitas vezes, fugaz. Para os Filhos de Israel, recém-saídos de séculos de escravidão no Egito, essa verdade se manifestou de forma aterrorizante. A celebração da libertação deu lugar ao pânico absoluto. À sua frente, as águas intransponíveis do Mar Vermelho; atrás, o rugido implacável do exército do Faraó, uma lembrança visceral de que o passado nem sempre nos deixa ir facilmente. Encurralados, fizeram o que parecia ser a única coisa possível: clamaram em desespero.
Com suas costas contra a parede, os Filhos de Israel se viram em uma situação aparentemente sem saída. No entanto, ao invés de sucumbir ao desespero, sua fé os guiou para além do impossível, abrindo caminho para a redenção e a salvação. Com um ato de coragem e confiança, Moshe estendeu sua mão sobre o mar, que se abriu diante deles, revelando um caminho seguro. Os Filhos de Israel atravessaram as águas divididas, testemunhando um milagre que os libertou do medo e os conduziu à esperança. Com a fé como sua bússola, eles seguiram em frente, confiantes de que o impossível poderia se tornar realidade. Atravessando o mar aberto, os Filhos de Israel encontraram não apenas libertação física, mas também uma renovação espiritual que os fortaleceu para os desafios que estavam por vir.
A resposta divina, encontrada na Parashat Beshalach, é uma das mais surpreendentes e pedagogicamente ricas de toda a Torah. Ela não oferece consolo passivo, mas sim um comando radical que ecoa através dos milênios: "Por que clamas a mim? Diga aos filhos de Israel que marchem!" (Êxodo 14:15). Esta passagem não é apenas o relato de um milagre antigo; é um manual atemporal sobre como enfrentar os momentos em que nos sentimos paralisados entre o medo do futuro e os traumas do passado.
A Oração que Impulsiona, Não que Paralisa
Em um momento de crise existencial, a oração é um instinto humano e espiritual profundo. É o reconhecimento de nossa vulnerabilidade e nossa dependência de uma força maior. No entanto, a pergunta de D'us a Moshe nos força a reavaliar o propósito da prece. Ela não deve ser um substituto para a ação, mas sim o combustível para ela.
Quando nos vemos diante de nossos próprios "mares" — uma crise financeira, uma doença, um conflito de relacionamento — a tendência pode ser cair no abismo da paralisia, esperando por uma intervenção externa que resolva tudo. A Torah, aqui, nos ensina que a fé autêntica (emuná) não é passiva. É uma fé ativa, uma confiança que se manifesta no movimento. O milagre da travessia não ocorreu para um povo estático; ele começou no momento em que a primeira pessoa, movida pela fé, ousou dar o primeiro passo em direção às águas.
A Liberdade de Escolha Segundo Maimônides (Rambam)
Este chamado divino à ação encontra um profundo eco filosófico nos escritos do grande médico, filósofo e legislador judeu do século XII, Maimônides, conhecido como Rambam. Em sua obra monumental, o Mishneh Torá, Rambam estabelece a liberdade de escolha (bechirah chofshit) como um pilar fundamental da condição humana e da relação com D'us.
Ele ensina:
"A permissão é dada a cada ser humano: se ele deseja se inclinar para o bom caminho e ser justo, a permissão está em suas mãos; e se ele deseja se inclinar para o mau caminho e ser perverso, a permissão está em suas mãos."
(Mishneh Torá, Leis do Arrependimento 5:1).
Para Rambam, D'us nos criou com a capacidade inerente de agir, escolher e moldar nosso próprio destino espiritual e prático. A ordem "Marche!" não é uma negação do poder divino, mas a mais sublime afirmação da agência humana que o próprio D'us nos concedeu. É como se D'us estivesse dizendo: "Eu lhes dei pernas para andar, mentes para decidir e a coragem para iniciar. Use a liberdade que lhes dei. Façam a sua parte."
Visto sob a ótica de Maimônides, o clamor a D'us sem a disposição para agir é uma negação do próprio presente da liberdade. Esperar que D'us faça o que está ao nosso alcance é subestimar a parceria para a qual fomos convidados. O milagre não anula a responsabilidade humana; ele a completa.
A Parceria Simbólica e a Dupla Perspectiva
A instrução a Moshe para "levantar o cajado e estender a mão" (Êxodo 14:16) reforça essa ideia de parceria. O ato humano, por si só simbólico, torna-se o canal para a manifestação do poder divino. Nós devemos "estender a mão" — seja para fazer uma ligação, buscar ajuda, iniciar um projeto ou oferecer um perdão — e confiar que essa ação abrirá o caminho.
Finalmente, a imagem da coluna de nuvem e fogo nos oferece uma lição sobre perspectiva. A mesma presença divina que era luz e guia para Israel, era escuridão e confusão para os egípcios (Êxodo 14:20). Muitas vezes, os desafios que nos parecem "nuvens escuras" são, na verdade, a proteção divina nos separando de um perigo maior. Uma demissão pode ser a nuvem que nos protege de uma carreira sem alma. O fim de um relacionamento pode ser a escuridão que nos impede de seguir um caminho destrutivo. A pergunta é sempre sobre nosso foco: estamos paralisados pela escuridão da nuvem ou nos movendo em direção à luz que ela projeta para nós?
Conclusão: A Marcha Continua
A Parashat Beshalach nos ensina que a redenção não é um evento passivo. É um processo dinâmico que exige fé, coragem e, acima de tudo, movimento. A mensagem, reforçada pela filosofia de Rambam, é clara: somos coautores de nossos milagres. Diante dos mares que nos intimidam e dos exércitos que nos perseguem, a resposta espiritual mais profunda não é apenas clamar, mas ouvir a voz eterna que nos comanda, com amor e urgência, a manifestar nossa liberdade através da ação. Portanto, devemos nos perguntar: estamos paralisados pela escuridão da nuvem ou nos movendo em direção à luz que ela projeta para nós? A marcha continua, e cabe a cada um de nós decidir se vamos permanecer estagnados ou avançar em direção à redenção. Nossas escolhas e ações determinam o rumo de nossas vidas e a manifestação de milagres ao nosso redor. É importante lembrar que, mesmo diante das adversidades, temos o poder de transformar nossa realidade através da nossa liberdade de escolha. Devemos sempre buscar evoluir e crescer, mesmo que o caminho seja árduo e desafiador.







Comentários