Parashat Terumá com o Rabino Jacques Cukierkorn
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 6 horas
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A parashá Terumá começa com uma instrução surpreendente. Antes que exista um edifício, antes que haja paredes, medidas ou plantas arquitetônicas, Deus diz a Moshé:
“Fala aos filhos de Israel e que tomem para Mim uma terumá, uma oferta sagrada, de toda pessoa cujo coração a impulsione”
(Êxodo 25:2).
Não é um imposto. Não é uma taxa obrigatória. Nem sequer é uma exigência. É simplesmente generosidade que nasce do coração.
Isso soa um pouco contraintuitivo. Normalmente pensamos que primeiro se constrói algo e depois as pessoas chegam. Terumá inverte completamente essa lógica. Primeiro vêm as pessoas, sua disposição, seus dons, seu fogo interior — e só depois o Mishkán surge.
Nesta semana, enquanto o mundo acompanha os Jogos Olímpicos de Inverno, não consigo deixar de ouvir a parashá Terumá sussurrando para nós por trás dos montes de neve e dos saltos de esqui. Porque os Jogos Olímpicos também falam sobre construir algo sagrado: não um santuário de madeira e ouro, mas um santuário da possibilidade humana.
E neste ano aconteceu algo verdadeiramente extraordinário. Brasil conquistou a sua primeira medalha olímpica de inverno em toda a sua história. O Brasil, um país que associamos ao sol, às praias, ao futebol e ao samba, subiu pela primeira vez a um pódio feito de gelo e neve. Isso não é apenas uma notícia esportiva; é uma profunda lição de Terumá. Porque ninguém disse ao Brasil: “Isso não é para vocês”. Ninguém fechou as portas do Mishkán dizendo: “Aqui só entram países frios”. Houve pessoas cujo coração foi movido, que decidiram oferecer sua terumá, mesmo quando o cenário parecia improvável.
Pensemos nos atletas que vemos deslizando sobre o gelo ou voando de colinas cobertas de neve. Vemos a performance impecável, a cerimônia de medalhas, a música triunfante ao fundo. O que não vemos é a terumá que veio antes de tudo isso: as incontáveis madrugadas, os músculos doloridos, as quedas, os fracassos, a decisão silenciosa de se entregar antes que houvesse aplausos. Ninguém os obrigou. Seus corações os impulsionaram.
Rashi, ao comentar a expressão “nediv lev”, generosidade do coração, explica que o verdadeiro ato de doar não se mede pela quantidade, mas pela intenção. Não importa quanto ouro se traz, mas quanto de si mesmo se está disposto a oferecer. Isso é verdade no Mishkán e também em uma pista olímpica. Uma medalha de ouro — ou uma primeira medalha histórica — não surge apenas por talento. Ela surge porque alguém decidiu, dia após dia: “Hoje vou dar um pouco mais de mim”.
Em seguida, a Torá nos diz algo ainda mais surpreendente. Deus declara:
“E farão para Mim um santuário, e Eu habitarei entre eles”
(Êxodo 25:8).
Os comentaristas observam que não está escrito “habitarei nele”, mas “habitarei entre eles”. O Mishkán não é a casa de Deus; as pessoas é que são.
Os Jogos Olímpicos de Inverno nos lembram dessa verdade. A magia não está realmente nos estádios, nem nas máquinas de neve, nem nas bandeiras tremulando nas arquibancadas. A magia está nas pessoas: atletas de diferentes nações, idiomas e culturas, reunidos com disciplina e esperança. Por um breve momento, o mundo se transforma em uma espécie de Mishkán, um espaço compartilhado onde o esforço humano e o espírito humano se revelam em sua plenitude.
O Midrash Tanchumá ensina que Deus não precisa de uma morada física; o Mishkán existe para nós, para nos lembrar de que a santidade é construída por meio da ação humana. Os Jogos Olímpicos refletem essa ideia. O gelo é apenas água congelada. Os esquis são apenas madeira ou fibra de carbono. O que os transforma em algo extraordinário é o que os seres humanos colocam neles: compromisso, coragem e perseverança.
E a perseverança talvez seja a maior lição de vida de todas. Todo atleta olímpico cai. Todos. A diferença entre aqueles que desistem cedo e aqueles que sobem ao pódio — ou que fazem história pela primeira vez — não é a perfeição, mas a constância. O Talmud nos ensina em Pirkei Avot:
“Não cabe a você completar a obra, mas também não é livre para desistir dela”.
Você não precisa ganhar o ouro. Às vezes, a verdadeira vitória é chegar aonde ninguém esperava que fosse possível chegar.
Terumá também nos ensina que toda contribuição importa. Alguns trouxeram ouro, outros prata, outros madeira de acácia ou tecidos. Nem todos trouxeram a mesma coisa, mas todos trouxeram algo. O Mishkán não poderia se sustentar sem cada uma dessas contribuições. Os Jogos Olímpicos funcionam da mesma maneira. Nem todos ganham uma medalha. Mas quando alguém rompe uma barreira — como fez o Brasil — todos ganham um pouco mais de esperança.
O mestre hassídico Sefat Emet ensina que o Mishkán é reconstruído em cada geração por meio de nossas ações. Cada ato de generosidade, disciplina ou coragem acrescenta uma viga, uma cortina, uma centelha a mais de luz. Quando vemos atletas ultrapassarem limites que julgavam impossíveis, lembramos que o próprio espírito humano pode se tornar uma morada para o divino.
Assim, a parashá Terumá nos faz uma pergunta suave, porém poderosa: qual é a sua terumá? O que você está disposto a oferecer, não porque é obrigado, mas porque o seu coração o impulsiona? Talvez seja tempo, talvez paciência, talvez coragem, ou talvez simplesmente a ousadia de tentar algo que nunca foi feito antes.
Não são necessários muros revestidos de ouro nem medalhas olímpicas para construir algo sagrado. Basta um coração disposto. E quando damos a partir desse lugar, até mesmo em territórios inesperados, ajudamos a criar um Mishkán onde a santidade pode realmente habitar — bem entre nós.
Shabat shalom.







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