Comentário da Parashat Mishpatim com o Rabino Jacques Cukierkorn
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 15 horas
- 4 min de leitura

A parashá Mishpatim começa de uma forma quase desconcertante. Na semana passada, na parashá Yitrô, estávamos aos pés do Monte Sinai, entre trovões e relâmpagos. Ouvimos os Dez Mandamentos, a voz majestosa de Deus ecoando pela montanha. E, de repente, Mishpatim não se inicia com poesia nem com revelação, mas com leis. “Ve’eleh hamishpatim asher tasim lifneihem — Estas são as normas que colocarás diante deles” (Êxodo 21:1). Direito civil. Danos.
Responsabilidade. O que acontece quando alguém é ferido. O que acontece quando o poder é abusado.
A Torá parece nos dizer algo essencial: uma revelação que não se traduz em justiça está incompleta. Uma sociedade que fala de Deus, mas ignora a dignidade humana, perdeu completamente o rumo.
Esta parashá insiste que a santidade não se encontra apenas na oração, mas na forma como uma sociedade organiza o poder, a responsabilidade e os limites morais. Ela fala de proteger os vulneráveis, de conter a violência e de impor limites até mesmo àqueles que acreditam estar acima de tudo. “Uma mesma lei haverá para o cidadão e para o estrangeiro” (Êxodo 23:9). A justiça não é seletiva. Não é tribal. Não é suspensa porque se torna incômoda.
Essa mensagem ressoa de maneira dolorosa e urgente quando observamos o mundo ao nosso redor hoje, especialmente a situação no Irã. O Irã é uma nação rica em cultura, história, poesia e genialidade humana. E, no entanto, também é um lugar onde o poder tem sido exercido com demasiada frequência sem responsabilidade, onde a dissidência é punida e onde mulheres, minorias e opositores políticos têm pago um preço terrível. Esta não é uma história nova. A Torá conhece muito bem essa história.
Em Mishpatim, Deus adverte contra sistemas que protegem os poderosos às custas dos vulneráveis. “Não perverterás o direito do pobre em sua causa” (Êxodo 23:6). A Mekhilta comenta que este versículo não se aplica apenas aos juízes, mas a sociedades inteiras que normalizam a injustiça. Quando a crueldade se torna política e o medo se transforma em instrumento de governo, a Torá diz que algo deu profundamente errado.
O rabino Samson Raphael Hirsch ensinou que as leis de Mishpatim existem para impedir que o poder se torne absoluto. Até o mais forte, o mais rico, até mesmo o governante, está submetido à lei. Essa ideia foi revolucionária em sua época e continua sendo revolucionária hoje. A tirania prospera quando líderes acreditam estar acima das consequências. A Torá insiste que ninguém jamais está.
Mas Mishpatim não se limita a condenar a injustiça. Ela também fala de responsabilidade. Repetidas vezes, a Torá pergunta: quem é responsável quando ocorre um dano? Quem deve reparar aquilo que foi quebrado? “Quando alguém abre uma cova e não a cobre, e nela cai um boi ou um jumento, o dono da cova deverá indenizar” (Êxodo 21:33–34). Os sábios ampliam essa ideia de forma notável. No Talmud, tratado Bava Kamma, ensina-se que a responsabilidade moral inclui não apenas o que fazemos, mas também o que permitimos que aconteça por negligência ou por silêncio.
Este é um dos ensinamentos mais desafiadores da nossa tradição. Ele nos convida a olhar com honestidade para nós mesmos e para o nosso mundo. Onde há covas que deixamos abertas? Onde a indiferença se tornou uma forma de cumplicidade? O profeta Isaías adverte: “Ai dos que chamam o mal de bem e o bem de mal” (Isaías 5:20). A confusão moral não é neutra; ela é perigosa.
E, no entanto, Mishpatim também oferece esperança. Após receber todas essas leis, o povo responde com uma das frases mais célebres da Torá: “Naassê venishmá — faremos e ouviremos” (Êxodo 24:7). Os sábios se maravilham com essas palavras. Como é possível agir antes de compreender plenamente? Os mestres chassídicos ensinam que esse é o valor da ação moral. Às vezes, a justiça não pode esperar por uma clareza perfeita. Às vezes, fazer o que é correto é, por si só, aquilo que abre nossos ouvidos e nossos corações.
Essa lição é profundamente relevante hoje. Ao olharmos para o Irã, ou para qualquer lugar onde o medo e a força dominam, é fácil sentir-se impotente. A Torá não nos pede que resolvamos sozinhos os problemas do mundo. Mas ela nos pede que não abandonemos nossa voz moral. O Midrash ensina que, quando a injustiça reina, o silêncio é interpretado como consentimento.
Ao mesmo tempo, Mishpatim nos lembra de nunca perder de vista a dignidade humana. A Torá insiste repetidamente na compaixão, até mesmo em relação àqueles com quem estamos em conflito. “Não oprimirás o estrangeiro, pois conheceis a alma do estrangeiro” (Êxodo 23:9). Nossa tradição exige que distingamos entre regimes e povos, entre sistemas de poder e os seres humanos que vivem sob eles. Justiça sem compaixão se transforma em crueldade.
Compaixão sem justiça se transforma em fraqueza. A Torá insiste em ambas.
Em última análise, Mishpatim ensina que o verdadeiro teste de uma sociedade não são seus slogans, seus exércitos ou sua ideologia, mas suas leis e a maneira como são aplicadas. Elas servem para proteger a vida ou para controlá-la? São instrumentos de reparação ou ferramentas de medo?
Que esta parashá nos desafie a abrir os olhos, fortalecer nossa clareza moral e aprofundar nosso senso de responsabilidade. Que aprendamos a fechar as covas que colocam outros em perigo, a falar quando o silêncio é tentador e a agir mesmo quando o caminho não está totalmente claro. E que nunca nos esqueçamos de que o Deus que falou no Sinai continua falando hoje, de forma silenciosa, mas insistente, por meio da exigência eterna de justiça, dignidade e paz.
Shabat shalom.







Comentários