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Comentário da Parashat Mishpatim com o Rabino Jacques Cukierkorn


A parashá Mishpatim começa de uma forma quase desconcertante. Na semana passada, na parashá Yitrô, estávamos aos pés do Monte Sinai, entre trovões e relâmpagos. Ouvimos os Dez Mandamentos, a voz majestosa de Deus ecoando pela montanha. E, de repente, Mishpatim não se inicia com poesia nem com revelação, mas com leis. “Ve’eleh hamishpatim asher tasim lifneihem Estas são as normas que colocarás diante deles” (Êxodo 21:1). Direito civil. Danos.

Responsabilidade. O que acontece quando alguém é ferido. O que acontece quando o poder é abusado.


A Torá parece nos dizer algo essencial: uma revelação que não se traduz em justiça está incompleta. Uma sociedade que fala de Deus, mas ignora a dignidade humana, perdeu completamente o rumo.


Esta parashá insiste que a santidade não se encontra apenas na oração, mas na forma como uma sociedade organiza o poder, a responsabilidade e os limites morais. Ela fala de proteger os vulneráveis, de conter a violência e de impor limites até mesmo àqueles que acreditam estar acima de tudo. “Uma mesma lei haverá para o cidadão e para o estrangeiro” (Êxodo 23:9). A justiça não é seletiva. Não é tribal. Não é suspensa porque se torna incômoda.


Essa mensagem ressoa de maneira dolorosa e urgente quando observamos o mundo ao nosso redor hoje, especialmente a situação no Irã. O Irã é uma nação rica em cultura, história, poesia e genialidade humana. E, no entanto, também é um lugar onde o poder tem sido exercido com demasiada frequência sem responsabilidade, onde a dissidência é punida e onde mulheres, minorias e opositores políticos têm pago um preço terrível. Esta não é uma história nova. A Torá conhece muito bem essa história.


Em Mishpatim, Deus adverte contra sistemas que protegem os poderosos às custas dos vulneráveis. “Não perverterás o direito do pobre em sua causa” (Êxodo 23:6). A Mekhilta comenta que este versículo não se aplica apenas aos juízes, mas a sociedades inteiras que normalizam a injustiça. Quando a crueldade se torna política e o medo se transforma em instrumento de governo, a Torá diz que algo deu profundamente errado.


O rabino Samson Raphael Hirsch ensinou que as leis de Mishpatim existem para impedir que o poder se torne absoluto. Até o mais forte, o mais rico, até mesmo o governante, está submetido à lei. Essa ideia foi revolucionária em sua época e continua sendo revolucionária hoje. A tirania prospera quando líderes acreditam estar acima das consequências. A Torá insiste que ninguém jamais está.


Mas Mishpatim não se limita a condenar a injustiça. Ela também fala de responsabilidade. Repetidas vezes, a Torá pergunta: quem é responsável quando ocorre um dano? Quem deve reparar aquilo que foi quebrado? “Quando alguém abre uma cova e não a cobre, e nela cai um boi ou um jumento, o dono da cova deverá indenizar” (Êxodo 21:33–34). Os sábios ampliam essa ideia de forma notável. No Talmud, tratado Bava Kamma, ensina-se que a responsabilidade moral inclui não apenas o que fazemos, mas também o que permitimos que aconteça por negligência ou por silêncio.


Este é um dos ensinamentos mais desafiadores da nossa tradição. Ele nos convida a olhar com honestidade para nós mesmos e para o nosso mundo. Onde há covas que deixamos abertas? Onde a indiferença se tornou uma forma de cumplicidade? O profeta Isaías adverte: “Ai dos que chamam o mal de bem e o bem de mal” (Isaías 5:20). A confusão moral não é neutra; ela é perigosa.

E, no entanto, Mishpatim também oferece esperança. Após receber todas essas leis, o povo responde com uma das frases mais célebres da Torá: “Naassê venishmá — faremos e ouviremos” (Êxodo 24:7). Os sábios se maravilham com essas palavras. Como é possível agir antes de compreender plenamente? Os mestres chassídicos ensinam que esse é o valor da ação moral. Às vezes, a justiça não pode esperar por uma clareza perfeita. Às vezes, fazer o que é correto é, por si só, aquilo que abre nossos ouvidos e nossos corações.


Essa lição é profundamente relevante hoje. Ao olharmos para o Irã, ou para qualquer lugar onde o medo e a força dominam, é fácil sentir-se impotente. A Torá não nos pede que resolvamos sozinhos os problemas do mundo. Mas ela nos pede que não abandonemos nossa voz moral. O Midrash ensina que, quando a injustiça reina, o silêncio é interpretado como consentimento.


Ao mesmo tempo, Mishpatim nos lembra de nunca perder de vista a dignidade humana. A Torá insiste repetidamente na compaixão, até mesmo em relação àqueles com quem estamos em conflito. “Não oprimirás o estrangeiro, pois conheceis a alma do estrangeiro” (Êxodo 23:9). Nossa tradição exige que distingamos entre regimes e povos, entre sistemas de poder e os seres humanos que vivem sob eles. Justiça sem compaixão se transforma em crueldade.


Compaixão sem justiça se transforma em fraqueza. A Torá insiste em ambas.

Em última análise, Mishpatim ensina que o verdadeiro teste de uma sociedade não são seus slogans, seus exércitos ou sua ideologia, mas suas leis e a maneira como são aplicadas. Elas servem para proteger a vida ou para controlá-la? São instrumentos de reparação ou ferramentas de medo?


Que esta parashá nos desafie a abrir os olhos, fortalecer nossa clareza moral e aprofundar nosso senso de responsabilidade. Que aprendamos a fechar as covas que colocam outros em perigo, a falar quando o silêncio é tentador e a agir mesmo quando o caminho não está totalmente claro. E que nunca nos esqueçamos de que o Deus que falou no Sinai continua falando hoje, de forma silenciosa, mas insistente, por meio da exigência eterna de justiça, dignidade e paz.


Shabat shalom.

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