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Parashat Mishpatim: Onde Começa a Responsabilidade? Lições Antigas para um Mundo Moderno


A cada semana, a Torá nos presenteia com uma nova porção, e esta semana não é diferente. Chegamos à Parashat Mishpatim, cujo próprio nome – "Leis" – já nos dá uma pista do seu conteúdo. Esta parashat mergulha em uma intrincada tapeçaria de regulamentos civis e éticos que, à primeira vista, podem parecer distantes da nossa realidade moderna. No entanto, ao examinarmos mais de perto, descobrimos princípios espirituais atemporais sobre a santidade da vida, a responsabilidade individual e coletiva, e a crucial importância da prevenção e da reparação.


Hoje, focaremos em um trecho específico e intrigante: Êxodo 21:28-32, a lei do "boi chifrador" – um animal que, infelizmente, causa a morte de uma pessoa. O que esta antiga legislação pode nos ensinar sobre a vida contemporânea?


A Santidade da Vida e a Repercussão de Nossas Ações


O texto começa com uma cena chocante: um boi mata um ser humano. A resposta da Torá é imediata e severa: o boi deve ser apedrejado até a morte, e sua carne não pode ser comida. Mas a lei não para por aí. Se o dono do boi foi avisado anteriormente de que seu animal era perigoso e não tomou as devidas precauções, ele também é considerado culpado. Em algumas interpretações, ele mesmo poderia ser condenado à morte ou pagar uma multa altíssima (o "resgate de sua vida"), refletindo o valor incomensurável de uma vida humana.


Esta é uma lição fundamental sobre a santidade absoluta da vida humana. A Torá não trata a morte, mesmo que acidental e causada por um animal, como um mero incidente. Ela exige uma resposta séria da comunidade e do proprietário, sublinhando o valor infinito de cada vida.


Espiritualmente, somos chamados à introspecção: como valorizamos a vida? Não apenas a nossa, mas a de cada indivíduo ao nosso redor? Cada palavra que proferimos, cada ação que realizamos, tem o potencial de ferir ou de edificar. Em uma metáfora poderosa, nossas "ações" e suas consequências podem ser comparadas aos nossos "bois". Estamos cuidando para que nossos "bois" – nossas palavras, atitudes, decisões, projetos – não causem danos inadvertidamente aos outros?


Negligência e Consciência no Mundo Moderno

 

A distinção crucial que a Torá faz entre o boi que mata pela primeira vez e o "boi chifrador de outrora" que já era conhecido por ser perigoso, é o cerne desta parashat para os nossos dias. O ponto central é o conhecimento e a negligência. Se o dono sabia do perigo e falhou em agir para prevenir, sua culpa se agrava exponencialmente. A ignorância não é desculpa quando há um aviso prévio.

 

Como podemos traduzir essa sabedoria milenar para o nosso século XXI?

 

A distinção que a Torá faz entre o acidente e a negligência consciente é, talvez, sua lição mais poderosa para nós hoje, especialmente quando olhamos para nossa responsabilidade coletiva. No palco global, não podemos mais alegar ignorância. Somos constantemente informados sobre as consequências do consumo excessivo, da poluição ambiental e das injustiças sociais. Quando sabemos que certas práticas causam danos profundos – seja ao meio ambiente, à saúde pública ou à dignidade humana – e mesmo assim escolhemos ignorar esses avisos, assumimos o pesado manto da negligência que a Torá tanto condena.


Essa mesma lógica se transporta com uma força imensa para o universo digital, onde palavras e informações viajam com velocidade e alcance inimagináveis. A imprudência de compartilhar desinformação, a crueldade do cyberbullying ou a disseminação de discursos de ódio não são atos triviais. São falhas graves em nosso dever de zelar pela integridade do espaço comum, com consequências que podem ser psicologicamente e socialmente devastadoras. Cada um de nós tem a responsabilidade de usar essas ferramentas com sabedoria e empatia, compreendendo que nossas interações online têm impacto real na vida das pessoas.


Por fim, e talvez de forma ainda mais sutil, essa ética do cuidado se manifesta no espaço íntimo de nossas relações pessoais. Aqui, a negligência pode não ser um ato grandioso, mas a ausência dele: a falta de atenção às necessidades emocionais do próximo, a palavra descuidada, o gesto de indiferença. Um comentário impensado ou uma atitude desrespeitosa podem ferir silenciosamente a dignidade e a saúde mental de alguém. Como indivíduos e como comunidade, somos chamados a cultivar ativamente ambientes de segurança e acolhimento, "guardando" nossas interações para que se tornem fontes de fortalecimento, e não de dor.


Um Momento de Responsabilidade Renovada

 

Durante o nosso Shacharit, enquanto recitamos nossas orações e nos conectamos com a Fonte de toda a vida, a Parashat Mishpatim nos convida a uma reflexão profunda e a um chamado à responsabilidade ativa. Não se trata apenas de cumprir leis, mas de incorporar os princípios éticos em cada fibra do nosso ser.

O primeiro passo é o da autoconsciência: estamos verdadeiramente cientes das forças em nossas vidas – sejam nossas tendências, nossos hábitos, as tecnologias que usamos ou mesmo nossa simples falta de atenção – que podem, inadvertidamente, causar dano a outros? Este é um convite para olhar para dentro e identificar com coragem as áreas onde nossa negligência pode estar ferindo o mundo ao nosso redor.


Mas a consciência, por si só, não é suficiente. A Torá nos chama à ação. A segunda questão, então, é sobre nosso compromisso proativo: estamos sendo diligentes para evitar as consequências negativas de nossas ações? Estamos tomando medidas concretas para mitigar riscos, para proteger os mais vulneráveis em nossa sociedade e para sermos guardiões ativos da segurança e do bem-estar coletivo, em vez de sermos meros espectadores?


É aqui que nossa prática espiritual encontra seu propósito mais elevado. Nossas orações, longe de serem uma fé passiva ou um refúgio do mundo, devem nos impulsionar para fora. Elas nos fortalecem para traduzir a espiritualidade em ações éticas e conscientes no dia a dia. Que os momentos de oração sejam, então, uma renovação diária do nosso compromisso de construir um mundo onde a vida, em todas as suas formas, seja sempre protegida e valorizada acima de tudo.


Que possamos ser parceiros de D'us na construção de uma sociedade mais justa e compassiva, onde cada "boi" é guardado e cada vida é santificada.

1 comentário


"Cada palavra que proferimos, cada ação que realizamos, tem o potencial de ferir ou de edificar. " Que nossas palavras sejam para abençoar.🙏

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