Parashat Yitrô
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 2 horas
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A parashá Yitrô é uma daquelas porções que se recusam a passar despercebidas. Há trovões e relâmpagos, fumaça, toques de shofar, uma montanha que treme e um povo inteiro reunido aos pés do Sinai tentando entender se este é o momento mais inspirador da história humana… ou o mais assustador. E, no meio de todo esse drama, a Torá nos apresenta algo inesperado: um consultor de liderança.
Antes dos Dez Mandamentos, antes do trovão e da revelação, aparece Yitrô, sogro de Moisés. Ele não é israelita. Não faz parte do povo da aliança. E, ainda assim, ele enxerga algo que o próprio Moisés não consegue ver. Ao observar Moisés sentado o dia inteiro julgando o povo, Yitrô lhe diz: “Lo tov ha-davar asher ata oseh — Não é bom o que você está fazendo” (Êxodo 18:17). Esta talvez seja uma das frases mais amorosas e, ao mesmo tempo, mais corajosas de toda a Torá. Imaginem dizer a Moisés, o maior profeta que já existiu: “Assim não está funcionando”.
Yitrô nos ensina a primeira grande lição de vida desta parashá: a sabedoria não vem apenas de dentro. Às vezes, a verdade mais importante vem de fora, de alguém que nos ama o suficiente para ser honesto. O Talmud (Zevachim 116a) discute por que esta parashá aparece neste ponto da Torá: alguns sábios dizem que Yitrô chegou antes do Sinai, outros depois. Mas mais importante do que o momento é a mensagem: a própria revelação é moldada pela capacidade de escutar. Antes que Deus fale, Moisés precisa aprender a escutar — a delegar, a confiar nos outros e a abandonar a ilusão de que liderar significa fazer tudo sozinho.
O conselho de Yitrô é simples e revolucionário: compartilhar o peso, nomear pessoas capazes, construir um sistema, não se esgotar. A Torá parece nos dizer que o esgotamento não é uma invenção moderna. Até Moisés precisou ser lembrado de que a santidade não exige exaustão. Na verdade, o cansaço muitas vezes se torna um obstáculo à santidade.
Então chega o Sinai. A montanha treme, o povo estremece e Deus proclama o Aseret HaDibrot, os Dez Mandamentos. Mas há um detalhe sutil e belo: a revelação é dada no plural. “Anochi Adonai Elohecha — Eu sou o Eterno teu Deus”, dito a todo um povo ao mesmo tempo. O Midrash ensina que cada pessoa ouviu a voz de Deus de acordo com a sua própria capacidade (Shemot Rabá 5:9). Uma única revelação, muitas interpretações. Um único momento, infinitos significados.
Esta é a segunda grande lição de vida: o judaísmo não é um caminho solitário. A Torá é revelada em comunidade, sustentada em comunidade e debatida em comunidade. O Talmud (Shabat 88a) imagina Deus segurando o Monte Sinai sobre o povo como um barril e dizendo: “Se aceitarem a Torá, tudo bem; se não, aqui será o lugar do sepultamento de vocês”. É uma imagem dramática, mas os mestres chassídicos a suavizam. O Sefat Emet explica que a montanha não era uma ameaça, mas um amor tão avassalador que o povo se sentiu envolvido por ele. Às vezes, o compromisso parece pesado não porque nos esmaga, mas porque é significativo.
E como começam os Dez Mandamentos? Não com uma regra, mas com um relacionamento. “Eu sou o Eterno teu Deus que te tirei da terra do Egito”. Antes da obrigação, vem a gratidão. Antes da lei, vem a memória. Deus não diz: “Eu sou o Eterno que criou o céu e a terra”. Diz: “Eu sou aquele que te libertou”. Nossa vida ética não começa com o medo, mas com a liberdade.
O Baal Shem Tov ensinava que a revelação não terminou no Sinai. Todos os dias, se estivermos atentos, a Torá é dada novamente. Não com trovões e relâmpagos, mas nos pequenos momentos: na maneira como falamos uns com os outros, em como honramos nossos pais, em como nos recusamos a transformar seres humanos em ídolos de poder, dinheiro ou certezas absolutas. Os mandamentos não vieram para restringir nossas vidas, mas para ampliá-las.
E talvez a lição mais alegre da parashá Yitrô seja esta: Deus escolhe pessoas imperfeitas para um momento perfeito. Os israelitas acabaram de sair da escravidão, ainda reclamam, ainda sentem medo. Moisés ainda está aprendendo a liderar. E, mesmo assim, este é o momento que Deus escolhe para falar. A revelação não espera que estejamos prontos; ela nos encontra exatamente como somos.
Assim, ao nos colocarmos mais uma vez aos pés do Sinai, que nos lembremos de escutar: vozes diferentes das nossas, a sabedoria que nos cerca e o chamado silencioso da Torá em nossa vida diária. Que saibamos compartilhar o peso, sustentar uns aos outros e ouvir a voz de Deus não apenas no trovão, mas também nas conversas humanas simples que moldam nossos dias.
E que saiamos deste momento sagrado lembrando que a Torá não é apenas algo que aconteceu uma vez, há muito tempo, sobre uma montanha distante, mas algo que acontece sempre que uma comunidade se levanta junta e diz, mais uma vez:
“Naassê venishmá. Faremos e ouviremos”.







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