Parashat Yitro (Êx 18:1–27) - Quando liderança aprende a respirar
- Charton Baggio Scheneider
- há 7 horas
- 3 min de leitura

Antes do Sinai, antes dos trovões e da revelação pública, a Torá faz algo curioso: interrompe a narrativa épica para nos mostrar um sogro observando o genro trabalhar. Não há milagres aqui. Só gente cansada, filas longas e um líder à beira do colapso. É nesse cenário simples que Parashat Yitro nos ensina uma das lições mais práticas e profundas da tradição judaica: liderança que não se organiza adoece, e liderança que não escuta não dura.
Moshê está fazendo tudo sozinho. Julga o povo do amanhecer ao anoitecer. Resolve conflitos, dúvidas, tensões. O povo depende dele para tudo. E ele aceita isso como se fosse virtude.
Yitro olha e diz, com uma clareza desconcertante: “Isso não é bom”.
O olhar de fora que salva
Ibn Ezra chama atenção para algo essencial: Yitro é um estrangeiro. Ele não saiu do Egito, não atravessou o mar, não viveu o deserto. Justamente por isso, ele enxerga o que quem está dentro do sistema já não vê. Às vezes, a salvação vem de quem não está emocionalmente preso à estrutura.
Rashbam aprofunda esse ponto ao destacar a literalidade do texto: Yitro vê o que Moshê faz “para o povo”, não “com o povo”. A liderança virou um fluxo de mão única. Tudo passa por Moshê. Nada retorna organizado.
Rav Hirsch observa que a Torá não está apenas contando uma história administrativa. Está educando. Antes de revelar a Lei, Deus ensina como uma sociedade saudável deve funcionar. Sem isso, até a Torá pode virar peso insuportável.
O erro de Moshê não é moral, é estrutural
Sforno é direto: Moshê não erra por arrogância, mas por excesso de zelo. Ele quer servir bem, ser responsável, não delegar algo tão sagrado quanto a justiça. O problema é que boas intenções não sustentam sistemas ruins.
Chizkuni acrescenta um detalhe precioso: o desgaste não é só de Moshê, mas do povo. Esperar o dia inteiro para resolver um conflito gera frustração, ressentimento e perda de confiança. Liderança centralizadora adoece ambos os lados.
Malbim, sempre atento às camadas do texto, mostra que Yitro não propõe apenas delegar tarefas, mas criar níveis de julgamento. Não é sobre dividir trabalho aleatoriamente, é sobre estruturar a realidade. Há problemas simples, médios e complexos. Misturar tudo em um único funil é negar a própria diversidade humana.
Delegar não é perder autoridade
Talvez o ponto mais delicado esteja aqui. Muitos líderes têm medo de delegar porque confundem autoridade com controle absoluto. Rav Hirsch desmonta isso com elegância: autoridade verdadeira não se mede por quanto passa por você, mas por quanto continua funcionando sem você.
Quando Moshê aceita o conselho, algo silencioso acontece. Ele não diminui. Ele se torna sustentável. Ele passa a fazer apenas o que só ele pode fazer. Isso não é fraqueza. É maturidade.
Ibn Ezra observa que o texto faz questão de dizer que Moshê ouviu, aceitou e executou. Três verbos. Ouvir sem aceitar é vaidade. Aceitar sem executar é ilusão. A Torá mostra o ciclo completo.
Antes da revelação, organização
Nada disso é acidental. A Torá posiciona esse episódio antes de Sinai por um motivo claro. Sem estrutura, a revelação vira caos. Sem limites, até o sagrado esgota. Antes de leis, Deus ensina processos. Antes de mandamentos, ensina governança.
Yitro não traz uma nova fé. Ele traz lucidez. E a Torá registra seu conselho para todas as gerações porque líderes religiosos, comunitários e espirituais tendem a cair no mesmo erro: achar que carregar tudo sozinho é sinal de compromisso.
Não é.
Parashat Yitro nos lembra que espiritualidade não se mede pelo quanto você aguenta, mas pelo quanto você constrói que continua de pé. Liderar não é ser o centro de tudo. É criar centros saudáveis ao seu redor.
E, às vezes, tudo o que precisamos é alguém de fora, olhando com honestidade, dizendo com simplicidade: “Isso não é bom”.







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