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Parashat Vaera: Os Barcos que Deus nos Envia



Neste shabat passado, terminamos a leitura da Parashat Shemot (שְׁמוֹת) com um gosto amargo na boca. Mosheh (מֹשֶׁה), nosso maior líder, estava quebrado. Ele tinha feito tudo o que Deus pediu, foi ao Faraó, pediu liberdade, e o resultado? O trabalho aumentou. A escravidão piorou. Ele volta para Deus e pergunta, quase gritando: "Lamah areotah la'am hazeh?" (לָמָה הֲרֵעֹתָה לָעָם הַזֶּה) — "Por que fizeste mal a este povo?".


Eu sei que muitos de vocês sentiram isso essa semana. Ao abrir o Instagram, ao ver as notícias, ao ouvir relatos de amigos na universidade ou no trabalho. A pergunta de Mosheh é a nossa pergunta: "Estamos tentando ser bons cidadãos, buscamos Tikkun Olam (תִּיקּוּן עוֹלָם), justiça social... por que tanto ódio? Por que o mundo parece estar virando as costas para nós?".


É aqui que entra a Parashat desta semana, Vaera (וָאֵרָא). Deus responde a Mosheh: "Eu apareci". Mas Ele não aparece com mágica instantânea. Ele aparece com um processo. E esse processo envolve enfrentar a realidade, não fugir dela.


Hoje, quero traduzir as pragas que lemos na Torah (תּוֹרָה) para o que estamos vivendo nas ruas de São Paulo, do Rio, ou aqui mesmo na nossa vizinhança, e falar sério sobre como vamos nos proteger.


As Pragas de Hoje: O Que o Egito nos Ensina


Os sábios clássicos dizem que cada praga veio desmontar uma falsa segurança do Egito.


Vamos olhar para isso com nossos olhos de hoje:


Sangue (דָּם - Dam): A fonte de vida do Egito, o Nilo, virou sangue. Hoje, vemos a verdade virar sangue. É o "libelo de sangue" moderno nas redes sociais. A mentira que corre solta, acusando Israel e os judeus de crimes que não cometemos, invertendo vítima e agressor. É a poluição da informação.


Rãs (צְפַרְדֵּעַ - Tzfardea): O Midrash diz que o pior das rãs não era a sujeira, mas o barulho. Elas coaxavam dentro das casas, não deixavam ninguém dormir. O que é isso senão as notificações do seu celular? O ataque constante de haters, os comentários de ódio que invadem nossa paz mental, nosso quarto de dormir. O barulho ensurdecedor da propaganda antissemita que tenta nos deixar exaustos.


Piolhos (כִּנִּים - Kinim): Pequenos, quase invisíveis, mas irritantes. São as microagressões. Aquele comentário no escritório, o "olhar torto" na faculdade, a piada de mau gosto sobre dinheiro ou nariz. Você tenta relevar, mas coça. Incomoda. Faz você querer se esconder.

Animais Selvagens (עָרוֹב - Arov): A palavra significa "mistura". Uma mistura de feras. Hoje, vemos uma mistura bizarra de inimigos: gente de extrema-esquerda se abraçando com fundamentalistas religiosos radicais, unidos apenas pelo ódio ao judeu. É uma "fera" híbrida e perigosa que está solta nas ruas.


Granizo (בָּרָד - Barad): A Torah diz que havia fogo dentro do gelo. Um milagre da natureza. Hoje, vemos o fogo do ódio protegido pelo gelo da indiferença. Instituições que deveriam nos proteger (ONU, Direitos Humanos) permanecem gélidas, indiferentes à nossa dor, enquanto o fogo do antissemitismo queima dentro delas.


A Parábola do Afogamento: Não Espere Mágica


Diante disso, qual é a nossa reação? Rezar? Claro. Ter fé (Emunah - אֱמוּנָה)? Sempre. Mas fé sem ação, no judaísmo, é negligência. Emunah tem mais a ver com Persistência que com saltar no vazio do obscuro simplesmente por negligência.


Vocês conhecem a história do homem que estava se afogando na enchente? A água subiu e ele subiu no telhado. Passou um vizinho de canoa: "Entra aí!". Ele disse: "Não, tenho fé, Deus vai me salvar". Passou um barco dos bombeiros: "Pule, é sua chance!". Ele recusou: "Deus proverá". A água chegou no pescoço. Veio um helicóptero, jogou a escada. Ele gritou: "Eu confio no milagre!". O helicóptero foi embora. O homem morreu afogado.


Chegando no Céu, ele foi reclamar com Deus: "Eu tive tanta fé, por que o Senhor não me salvou?". E Deus respondeu: "Eu te enviei uma canoa, um barco e um helicóptero. O que mais você queria?"


Meus amigos, o Brasil não é mais aquele país cordial que imaginávamos. Dados recentes da CONIB mostram que o antissemitismo cresceu quase 1000% em certos períodos do último ano. O Brasil se tornou refúgio e palco para grupos que não nos querem bem. Há células ativas, há discurso de ódio sendo financiado.


Minha avó dizia que "cautela e chá de cidreira não fazem mal a ninguém". Precisamos dessa sabedoria agora. Cidreira para manter a calma (não queremos pânico, pois o pânico paralisa), e Cautela para nos mantermos vivos.


Aqui está o que precisamos fazer, na prática, a partir de hoje:


Não fique se exibindo: Eu sei que gostamos de socializar. Mas sair e ficar se exibindo é dar sopa para o azar. O "Schmooze" (a fofoca, o papo) acontece dentro do portão (da casa, do que nos é familiar), onde estamos seguros. Na rua, é atenção total. Não fique se exibindo de kippah ou de Talit.


A "Mezuzah" Digital: Cuidado com o que vocês postam. Não exponham a rotina dos seus filhos, o uniforme da escola, fotos que podem denunciar, por exemplo, que você está de viagem, logo, sua casa está vazia; ou, ainda pior, a localização em tempo real em mídias abertas. Evite plataformas que abertamente são antissemitas. Os "piolhos" e as "rãs" estão na internet procurando alvos para doxxing (vazar dados), dentre outros métodos. Se você sofrer ataque online, não responda. Bloqueie, denuncie à plataforma e reporte às autoridades competentes. Não alimente a fera.


A Porta de Casa: Instruam seus porteiros e familiares. Entregador de aplicativo ou loja não sobe ou não entra na propriedade. Nunca. Não importa se está chovendo canivete. A regra é clara: desça para pegar. Muitos assaltos e invasões começam assim. Essa é uma medida básica de segurança urbana que, para nós, judeus, é duplamente vital. Se possível, tenha câmeras de vigilância. Use verificação em duas etapas para login. Confira endereços dos e-mails. Atenção com ligações dizendo que são de operadoras de telefone ou de bancos. Se você é uma pessoa com exposição pública, mais cuidado ainda. Use da inteligência que o Eterno te deu. Vai usar Uber ou 99? Confira a bendita da placa e código-chave. Use um gerenciador de senhas. Use senhas seguras. Engenharia social não é apenas um nome bonito. Mantenha seu sistema operacional e softwares de segurança atualizados. Estabeleça limites restritos para transações em aplicativos bancários. Nunca repita senhas.


Orgulho com Inteligência: Usar Kippah (כִּיפָּה) ou Magen David (מָגֵן דָּוִד) é nosso orgulho. Mas Pikuach Nefesh (פִּקּוּחַ נֶפֶשׁ) — salvar a vida — vem antes. Se você vai andar em uma área que não conhece, ou pegar transporte público sozinho à noite, não há vergonha em usar um boné ou colocar o colar para dentro da camisa. Deus quer você vivo e seguro. Além disso, kippah não é mitzvah. É algo que foi importado de costumes cristãos na idade média. Eu mesmo não uso kippah além dos momentos de oração.


Conclusão: A Mão Forte


Em Vaera, Deus promete tirar o povo com uma "Mão Forte" (Yad Chazakah - יָד חֲזָקָה). Nossa "mão forte" hoje é a nossa união e a nossa inteligência.


Não vamos deixar o medo nos paralisar — isso seria a vitória do "Faraó". Vamos continuar comemorando, vamos continuar celebrando nossos Shabatot, vamos continuar orgulhosos de quem somos. Mas faremos isso de olhos abertos.


Aceitem o barco. Aceitem o helicóptero. Façam a sua parte na segurança (Hishtadlut - הִשְׁתַּדְּלוּת). Cuidem-se.


Ah, não fique comentando em posts de haters. Isso só faz o algoritmo aumentar engajamento e você se torna cúmplice da disseminação do ódio.


Shalom Aleikhem

1 comentário


Vivendo com Propósito, Fé e Coragem!


Am Ysrael Chai🙏

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