Doação Feminina: Entre a Água do Kior e o Jejum de Esther
- Mayra Luanna

- há 3 horas
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Na parashat Ki Tissá (Êxodo 30:17–21), a Torá nos apresenta a criação do kior, o lavatório de cobre que ficava no pátio do Mishkan. Naquele instrumento sagrado, Aarão e seus filhos deveriam lavar as mãos e os pés antes de iniciar o serviço religioso.
Não era um detalhe estético, mas uma exigência divina para aproximar-se do Mishkan. Servir exige consciência. O ato de lavar-se marcava a transição entre o comum e o sagrado. Aarão e seus filhos se transformaram em klei kodesh (utensílios sagrados) onde a presença divina agia. Esse cenário te faz lembrar de algo?
Todos os dias, nós recitamos o Modeh Ani ao acordar e, em seguida, lavamos as nossas mãos. A própria bênção que recitamos invoca a seguinte reflexão:
בָּרוּךְ אַתָּה ה׳ אֱלֹהֵינוּ מֶלֶךְ הָעוֹלָם, אֲשֶׁר קִדְּשָׁנוּ בְּמִצְוֹתָיו וְצִוָּנוּ עַל נְטִילַת יָדָיִם.
Baruch Atah Hashem, Eloheinu Melech ha’olam, asher kid’shanu b’mitzvotav v’tzivanu al netilat yadayim.
“Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste a lavagem das mãos”.
Repare:
A bênção diz “que nos santificaste”. O ato físico de lavar-se já é, em si, um movimento de santificação. A água não é apenas limpa, ela tem o poder de elevação. Logo, todos os dias, nós purificamos os nossos corpos e realizamos um convite para que o Eterno nos use como instrumentos de Sua vontade.
Além disso, a Torá nos mostra outro detalhe gentil e curioso:
O kior foi feito com os espelhos que as mulheres de Israel ofereceram de bom grado. Hoje, um espelho pode parecer um objeto simples, quase banal. Porém, naquela época, ele era valioso, feito de metal polido e de difícil acesso. Mais do que um objeto material, ele refletia a beleza das mulheres de Israel, sua dignidade mesmo em meio à escravidão.
Nossos sábios ensinam que, no Egito, essas mulheres usavam seus espelhos para reacender a esperança de seus maridos, lembrando-lhes que ainda havia vida, amor e futuro. São as mulheres que carregam o amanhã em seu ventre, que sustentam a continuidade do povo mesmo nos períodos mais sombrios.
Quando veio o chamado para as doações ao Mishkan, elas não deram o que sobravam. As mulheres entregaram algo íntimo, valioso e carregado de história. O Eterno transformou aquilo que refletia a beleza exterior em um instrumento que prepararia o povo para a santidade.
Aarão hesitou. Como usar instrumentos associados à vaidade para algo tão sagrado?
Porém, o Eterno ordenou que os espelhos fossem aceitos, pois aqueles espelhos eram preciosos diante d’Ele e não representavam superficialidade, mas representavam fé, coragem e continuidade. O que parecia material tornou-se espiritual.
Coincidentemente, essa parashat se encaixou com o período de Adar em que estamos vivendo: A festa de Purim.
Nessa comemoração, novamente observamos o protagonismo feminino. Esther, encorajada por Mordechai, encontra forças para se posicionar diante do Rei. E, mais uma vez, o Eterno estava agindo através do oculto, mais precisamente: através de uma mulher. Em Purim, não há nome explícito de Deus no texto, mas Sua presença é sentida em cada reviravolta.
Então, o que seria “lavar-se” antes de um ato sagrado em nossos dias?
Talvez o jejum de Taanit Esther seja esse kior contemporâneo. O jejum nos desacelera, nos limpa do excesso e nos torna conscientes. Ele nos prepara para agir com clareza e intenção.
Antes da festa, há silêncio.
Antes da alegria, há purificação.
Antes da ação de Ester, houve jejum.
Adar também é marcado pela celebração do mês da mulher. Observe as pontes que nós atravessamos ao longo da porção de hoje a fim de lembrar o quanto o Eterno tem um carinho especial pelos gestos femininos que sustentam a cultura do nosso povo.
Ele acolheu os espelhos.
Ele sustentou Esther.
Ele transforma aquilo que parece simples em instrumento de elevação.
Talvez a pergunta que ecoa em nosso coração neste Adar seja:
De que precisamos nos lavar para cumprir a nossa missão? Que possamos transformar nossos “espelhos” (nossa identidade, nossa história, nossa sensibilidade) em instrumentos de santidade. Que aquilo que reflete quem somos não seja vaidade, mas propósito. Que a nossa imagem não seja fim em si mesma, mas um meio para servir.
Assim como as mulheres do deserto que doaram o que tinham de mais precioso e como Esther que jejuou antes de agir, que sejamos canais da presença divina no mundo. Porque, às vezes, a redenção não começa com um milagre visível, mas com um coração disposto a se purificar e se oferecer.




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