Hadassah – Raízes de mim, Flores de Fé: Autobiografia de um ramo nascido entre pedras e luz
- Brit Bracha Brasil

- há 8 horas
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Sob vestes de um estrangeiro
Por uma Hadassah que floresceu, emana mel, mas não está nos moldes do papel. Tem cheiro e sabor, porém Etrog, não é.
Nas dunas do tempo, o vento assovia, Trilhas de dor que a memória escondia. Entre os grãos do deserto e o sal do sofrer, José se veste de mundo, pra não perecer.
Olhos de irmãos, cegos de espanto, Buscando por pão, não viam o pranto Que sob o linho egípcio tentava calar O grito da alma querendo voltar.
Era ele, mas não era, tão transfigurado, Rosto de nobre, sotaque velado.
Como reconhecer no príncipe real
O menino vendido num gesto brutal?
Ah, quantos “Josés” nas rotas do exílio, Misturados à poeira, perdidos no trilho?
Ciganos errantes, chamados de ajín shejaḥú, tribos dispersas, Levando em seus olhos memórias submersas.
Quantos anussim se escondem nações adiante, Sufocando a essência em trajes estrangeiros brilhantes? Quantas línguas adotam, quantas máscaras vestem, Enquanto por dentro, em silêncio, protestam?
Mas chega a hora do véu se romper,
Do estrangeiro cansado se despir e dizer: "Sou vosso sangue, vosso irmão esquecido, O sonho vendido, o justo traído."
E o choro atravessa os salões do Egito, É um rio de tempo voltando ao seu rito. Os olhos se abrem, as almas se rendem,
E os nomes antigos, enfim, se entendem.
Assim são os dias do retorno sagrado, O exilado é filho, o estranho é achado.
Pois sob as vestes do mundo, escondido está O povo que a promessa nunca irá abandonar.
Ǫuem Eu Sou
Meu nome é I.T., mas hoje sou Hadassah. Nasci em 21 de agosto de 2002, em Brasília, filha de um casal muito jovem e amoroso, que sempre me desejou intensamente. Minha história espiritual não pode ser contada sem mencionar meu contexto familiar e étnico: venho de duas linhagens marcadas pela resistência e pela memória.
Do lado materno, pertenço ao clã Calon, da tradição cigana. Cresci com muito orgulho dessa herança, mas também com a dor de ser discriminada por ela. Assim como os judeus, os ciganos sofrem perseguição e difamação gratuita, independentemente de sua conduta individual. Durante a infância, vivi episódios de perseguição escolar simplesmente por carregarmos essa identidade. Minha mãe, minhas tias e minha avó também sofreram muito por essa condição imposta pela sociedade.
Do lado paterno, venho de uma família anussim, descendentes de judeus forçados à conversão na época da Inquisição. Essa linhagem, originária do sertão da Paraíba, é marcada pela religiosidade popular e por práticas escondidas, muitas vezes explicadas como tradição familiar, mas que guardavam forte ligação com costumes judaicos velados: acender velas em segredo, evitar determinados alimentos, murmurar rezas em línguas estranhas.
Cresci, portanto, em um lar “atípico”, no qual viviam juntos meus pais, avós, tios, tias e primos, na casa de minha avó materna ao estilo cigano, coletivo e caloroso, mas permeado por segredos e silêncios. Havia tabus sobre nossas práticas, uma sensação de que “não se devia falar” sobre certos costumes. Desde cedo, isso despertou em mim uma profunda inquietação: quem somos nós? Por que precisamos nos esconder? Por que sofremos tanta exclusão, mesmo sendo pessoas comuns e vivendo com dignidade?
Ceticismo e Descrença
Minha espiritualidade começou justamente com uma descrença profunda. Ainda criança, eu não conseguia aceitar a ideia de um Deus amoroso em um mundo tão injusto. Com sete anos, já me dizia ateia: não acreditava em D'us, Jesus, Allah, Buda ou o que fosse, na espiritualidade ou nas instituições religiosas. Essa negação era fruto tanto do sofrimento de ser marginalizada quanto da percepção de um mundo hostil. No campo intelectual, sempre fui muito racional e voltada para a ciência, especialmente a astronomia e bioquímica desde pequena, reforçado pelo TEA. Para mim, durante muito tempo, a ciência era suficiente para explicar a existência de tudo que existia; fé, filosofia e religião eram conforto emocional daqueles que não conseguiam encarar a realidade em seus tons reais de miséria.
Minha família sempre teve uma maneira particular de levar a fé. Do lado do meu pai, católicos “judaizantes”, por assim dizer: são católicos, mas por tradições e leis familiares profundamente arraigadas, seguiam o shabbat, Pessach, Yom Kippur; o dia de missa era sábado de manhã. Por esses motivos, foram obrigados a fazer confirmação de fé e batismo por precaução, ministrados por um padre famoso na região do sertão, Frei Damião. Do lado materno, havia uma cosmologia cigana e espiritismo. Minha infância e adolescência também foram marcadas por desafios de saúde. Nasci com perda auditiva progressiva, que foi se agravando até atingir a surdez completa na juventude. Essa condição carregava a dimensão de silêncio: a perseguição escolar, a dor de ser cigana, a herança escondida dos judeus anussim da família paterna e como isso reverberava na minha forma de ser, não tão quista assim. Ciganos e judeus compartilham o exílio, a resistência e a memória do ocultamento. Crescer entre essas histórias me ensinou que identidade não é dado fixo, mas construção contínua. Esse silêncio também era progressivo: perder a audição me tornava cada vez mais introspectiva.
Alguns eventos me marcaram muito, entre eles, numa escola católica, onde todos sabiam que a minha avó e minha família eram ciganos, as próprias professoras me chamavam de filha de demônio, as crianças de bruxa; quando manifestei não acreditar em Jesus, me chamaram de herege. Havia uma capela nessa escola onde me obrigavam a ficar lá dentro, de joelhos ou abraçada a uma imagem de Maria. Foi algo que deixou cicatrizes profundas. Minha mãe e minhas tias foram tomar satisfações, e a diretora foi clara: "Mãezinha, não é culpa nossa se vocês são de outra raça e não são crentes em Jesus, por que colocaram sua filha numa escola católica, então?".
Outro episódio que me marcou foi a morte do meu único amiguinho por falência cardiorrespiratória. Houve uma homenagem na capela da escola e não me permitiram entrar junto das outras crianças; fiquei no cantinho olhando a foto dele. Depois desse evento, tive febre emocional, e foi um dos estopins para a mudança de escola.
As histórias e dores dos judeus no período inquisitorial não são distantes; são próximas, particulares e vivenciadas de maneira própria, não só por mim, mas por toda minha família: exclusão, discriminação e marginalização.
A Virada Filosófica
Aos 12-13 anos, um ponto de virada aconteceu: lendo Platão, deparei-me com o argumento da consciência. Se o ser humano é formado pelas mesmas partículas que uma cadeira, por que temos consciência e a cadeira não? Onde habita a mente? Essa reflexão me fez enxergar que havia algo além da pura matéria — algo que poderia ser chamado de alma. Aristóteles me ensinou que a consciência não é mera sensação, mas capacidade de refletir sobre nós mesmos. Minha busca me levou a várias tradições: tentei o cristianismo, mas não conseguia aceitar suas contradições, especialmente a ideia de um Deus uno e, ao mesmo tempo, trino.
Também me aproximei do espiritismo, do budismo, do hinduísmo e xintoísmo, mas nenhuma dessas tradições tocou verdadeiramente meu coração. Minha identidade sempre foi complexa. Como filósofos modernos e medievais já apontaram, nenhum nome ou categoria consegue capturar a totalidade do ser.
Alterar a ordem dos nomes, renomear-se ou ser renomeado, como no gesto espiritual de adotar Hadassah, não é apenas um ato simbólico: é uma transformação existencial. Cada nome carrega história, memória e possibilidade de ser. Cada gesto de renomear é um encontro com o ser em sua forma mais radical — irrestrita e consciente.
Buscas e Desencontros Religiosos
Aos 14-15 anos, essa experiência me conectou a algo maior: a espiritualidade, que posteriormente me conectaria ao judaísmo. Com Espinosa demonstrando que a mente e a matéria são modos do mesmo Deus-Natureza, implicando que perceber é, ao mesmo tempo, existir; e Hasdai Crescas me guiou a ver a fé como exercício racional — liberdade de consciência e compromisso moral. A surdez, o silêncio e o encontro com meus pensamentos me ensinaram a prática viva desse raciocínio: consciência é diálogo íntimo com a realidade, com o outro e com o Divino.
Aos 16-19 anos, o judaísmo entrou em minha vida inicialmente de maneira indireta. A filosofia judaica e a leitura de Flávio Josefo abriram portas. Depois, por conta de investigações de saúde ligadas a doenças comuns em judeus, descobri que muitos de nossos costumes familiares tinham raízes judaicas.
No sertão presente em minha história, herdei objetos que carregam mais que memória: guardam fé, luta e resistência. Cada peça da saia de casamento feita a partir de uma tenda, o oratório com o Shin, o anel de noivado à mezuzá entalhada, preserva segredos e tradições, testemunhos de gerações que viveram em ocultamento.
Nesse meio de tempo, antes mesmo de conhecer rabinos ou comunidades, minha família já lia a Torá e praticava mitzvot em casa de maneira intuitiva; minha ligação com o judaísmo foi orgânica e sutil. Houve problemas de saúde marcantes, heranças genéticas típicas de judeus, que me levaram a investigar se havia realmente em minha família ou apenas coincidência. Foram anos intensos, coincidentes com minha cirurgia de Implante Coclear (IC) e surdez absoluta; passei 11 meses em silêncio absoluto, conhecido como hipoacusia total.
Sem som, sem distrações, só eu e meus pensamentos. Descobri que o barulho cotidiano muitas vezes serve para abafar memórias, crenças e dores escondidas. Na ausência de som, sobra apenas o encontro comigo mesma. Minha surdez me obriga a algo que poucos ousam: conversar com quem sou, enfrentar a dor, ressignificar perdas e encontrar novas formas de comunicação. Ouvir se transforma em ver: leio lábios, observo microexpressões e sinto vibrações nos ossos. O silêncio torna-se presença. A surdez não é ausência somente, pode ser revelação, por isso não nutro nenhuma tristeza dessa característica minha.
Nascimento de uma Hadassah
Ao escolher meu nome espiritual, adotei Hadassah, a murta (Hadass). Essa escolha não foi aleatória, mas profundamente simbólica.
O Hadass é uma das quatro espécies de Sucot. No Midrash, representa as boas ações. Em seu estado pleno e florido, produz mel, revelando potencial de sabor e sabedoria. Isso aponta para sua capacidade de crescimento e transcendência. O que antes era entendido como uma categoria estática (apenas ação) revela-se, sob condições espirituais certas, capaz de alcançar a completude, sem abandonar sua essência.
O Hadass, quando cultivado e florescido, se equipara ao Etrog, talvez até supere pelo néctar, mas com diferencial: seu caráter essencialmente feminino. Também expressa sua função de sustentar, equilibrar e envolver, como a presença feminina que guarda e molda o espiritual. Na mística judaica, o Etrog pode simbolizar o coração e o Hadass os olhos — aqueles que veem o mundo com compaixão e agem com justiça.
O Hadass cresce em terrenos áridos e pedregosos. Sua capacidade de resistir à seca e florescer quando regado torna-se metáfora da experiência do povo de Israel em exílio. Isso me toca porque meu povo cigano está em exílio, e minha família paterna foi forçada ao esquecimento e costumes estranhos, mas ainda resiste.
A planta reflete a história dos anussim e marranos, famílias judaicas obrigadas a ocultar sua fé, cujas raízes persistiram. Também reflete a perseguição que minha família materna sofreu até 1976, culminando em assassinatos de crianças por serem ciganos. É a história de mulheres que transmitiram a fé nas práticas do cotidiano, em silêncio, acendendo velas escondidas, murmurando preces, cozinhando com memória..
A associação do Etrog à sabedoria e à completude tem sido tradicionalmente lida sob lente masculina. Mas o Hadass representa a espiritualidade feminina madura, que serve, nutre, age e floresce em silêncio. Sua doçura oculta — o néctar de sua flor — aponta para qualidade profunda que persiste e transforma. Essa leitura encontra eco na figura de Ester/Hadassah, cuja identidade judaica foi ocultada até o momento necessário (cf. Ester 2:7,10). Ester representa a mulher que age com coragem e discernimento no tempo certo. Assim como ela, judia e persa, sou judia e cigana. Identifico-me com ela: nasci em meio a ocultamentos, mas encontrei o momento de revelar minha identidade espiritual e de estar pelo meu povo.
Alguns objetos disfarçam sua espiritualidade, como medalhões e relicários; outros são rituais do cotidiano, imbuídos de espiritualidade, como o jarro de lavar as mãos antes das orações, que transformam gestos simples em orações silenciosas. Fotos, roupas e utensílios carregam presenças e bênçãos de quem veio antes. Ao tocá-los, percebo que minha identidade e fé não surgiram no vazio, mas se entrelaçam com essas mãos e histórias; é nesse silêncio que ouço a força da herança que me precede.
O Ketoret (incenso do Templo — Êxodo 30:34-38 —) contém onze especiarias aromáticas. Embora o Hadass não seja citado nominalmente, suas qualidades aromáticas e capacidade de exalar perfume sob calor fazem dele planta análoga, elevando-se espiritualmente. O cheiro, único dos cinco sentidos não corrompido, conecta-se à alma. O Hadass, ao exalar perfume no fogo, torna-se oferenda, prece sem palavra, presença que se percebe no espírito.
Representando a minha trajetória espiritual, familiar, mental e física, marcada pela aridez da perseguição, pela saúde combalida, descrença e marginalização, mas ainda assim capaz de renascer sob todas essas condições, superar expectativas e senso comum, retornando não apenas verde, mas florida e com mel.
O Judaísmo em minha vida
O judaísmo me ensinou valores essenciais: amar o próximo pelo que ele é, unir fé e razão, cultivar lealdade e dignidade humana, e valorizar a comunidade.
Minha fé não é fruto da desesperança, mas de escolha consciente, da necessidade de fazer jus ao sofrimento daqueles que vieram antes de mim, do amor avassalador que tenho pela minha família, história e povo, que mesmo indiretamente, me tirou da profunda descrença no ser humano, ensinando-me de fato o que é amar o próximo. O judaísmo floresceu em mim como árvore frondosa: não destruiu minhas raízes, mas deu frutos, abrigou passarinhos, fortaleceu a terra.
Hoje, como Hadassah, abraço minha identidade judaica com amor, convicção e gratidão. Minha trajetória foi feita de dor e silêncio, mas também de filosofia, através dela compreendi que a consciência humana não pode ser reduzida apenas à matéria. Essa abertura me levou a uma experiência que descrevo como um encontro pessoal com D’us com coragem e revelação. O judaísmo não me pede para negar minha história, mas para ser diferente e melhor a partir de agora, com fidelidade a D’us e ao povo ao qual agora e sempre pertenço.
Assim como só conhecemos verdadeiramente uma pessoa quando falamos diretamente com ela, e não apenas por suas manifestações periféricas, também acontece com D’us. Podemos ter sinais, evidências, tradições e textos, mas nada substitui a experiência íntima do encontro. Esse encontro não foi uma imposição, nem um grito; foi algo sutil, silencioso e profundamente pessoal.
Essa espiritualidade não veio com violência, mas com amor e racionalidade. Não foi fé imposta de fora, mas escolha consciente e livre, um caminho que respeita o que fui e me convida a ser melhor daqui em diante.
O que Judaísmo para mim
Aos poucos, percebi que o judaísmo não é apenas religião ou etnia, mas uma civilização. Ele abrange história, filosofia, espiritualidade, comunidade e ética. Essa compreensão foi essencial: o judaísmo não destrói quem você era antes, mas amplia quem você é, convidando a integrar-se de maneira orgânica e voluntária. Ao optar por fazer parte dele, não busco apenas prática espiritual, mas forma de existir no mundo — como alguém ligado a um povo que resiste e contribui com a humanidade, apesar de séculos de exílio e perseguição. Escolhi o judaísmo porque encontrei nele coerência, profundidade e verdade. Ele acolhe minha razão sem sufocar minha fé; valoriza minha identidade sem pedir que a apague, mas dá novas raízes e propósitos.
O Eterno, que nos tirou do Egito com mão forte, também busca aqueles que estão longe demais para encontrar o caminho sozinhos. Ele vai até onde estiverem, quebra as barreiras da distância, da história, da dor e oferece não apenas um retorno ao povo, mas um renascimento da alma. Ele diz: “Se você esteve impuro, se esteve longe, ainda assim, venha. Ainda há uma mesa posta para você, meu filho.”
É como a abertura de um segundo Mar Vermelho, não para quem já está no caminho, mas para os que estão do outro lado, cercados pelas águas da dúvida, do exílio e da perda de identidade. É um milagre renovado, um novo caminho seco em meio às águas agitadas da história, por onde os esquecidos podem passar e ser lembrados.
Um caminho aberto para que os que foram deixados para trás, por força, perseguição ou esquecimento, também cruzem em direção à liberdade. D’us, em Sua infinita misericórdia, não fecha o mar após a primeira travessia; Ele o abre novamente, quantas vezes forem necessárias, até que todos os filhos de Israel possam caminhar juntos.
Legado
Meu legado no judaísmo não é apenas individual. Ele se manifesta na preservação e transmissão da memória coletiva, no cuidado com as tradições familiares e no amor profundo pelos nossos ancestrais. Quero inspirar aqueles que enfrentam invisibilidade ou marginalização a reconhecer sua força, a encontrar sentido no silêncio e a cultivar sua espiritualidade com coragem, consciência e amor. Amar o próximo não como gesto genérico, mas como prática ativa que promove transformação e mudança. Como Hadass, ofereço presença, equilíbrio e ação concreta: agir com compaixão, proporcionar um ambiente de acolhimento, erudição, conhecimento, tolerância e beleza por meio da arte, integrar povos e tradições, conscientizar e lutar contra discriminação. Busco também assumir postura firme e fiel diante da comunidade em tempos difíceis, mesmo quando isso exige coragem, paciência e resistência.
Sou murta miúda de herança graúda nascida entre pedras e calor, onde a terra racha mas o perfume da fé insiste em florir.
Cada gesto, palavra ou iniciativa que tomo é compromisso de não apenas transmitir conhecimento, mas transformar espaços e relações, tornando-os mais inclusivos, conscientes e vivos. Quero que minhas ações, palavras e práticas sirvam como raízes que sustentam outros, frutos que alimentam e flores que revelam propósito e beleza, mesmo em terrenos áridos. Ser uma ponte de diálogo e conhecimento, mesmo quando desconfortável ou inesperada, é parte essencial do meu compromisso com o judaísmo e com a humanidade. Amar o próximo não é apenas um conceito, mas um ato ativo e deliberado, capaz de provocar mudança, sustentar outros e fortalecer a comunidade.
Agradecimentos a familiares e ancestrais
Começo pelo princípio da minha vida, pelos que me deram amor primeiro:
Otávio e Loyane, meus pais, meus maiores amores, meus melhores amigos.
Nunca permitirei que sua memória se apague, será lembrada pelos séculos e séculos,
como luz que não se extingue.
Aos meus irmãos, Daniella e Benjamin, ainda jovens, mas já cheios de ternura.
São filhos do amor de nossos pais, e também filhos meus,
nascidos do mesmo coração que nos une.
Às minhas avós, Irismar e Jacira, mulheres de ferro e ternura, que engoliram o orgulho diante da maldade, para salvar os filhos, para manter de pé a chama da família.
Aos meus bisavós
Ana e Raymundo, Isabel e Joaquim, Eremita e Joaquim
que resistiram ao sertão áspero, ao sol implacável,
à violência sem nome.
E aos meus trisavós
Antônio e Maria, José e Ana, Francisco e Perpétua
que enfrentaram pistoleiros, jagunços e até a própria Igreja,
mas não cederam, não se curvaram,
permaneceram como raízes na terra seca.
Honro a ti, bisavô Joaquim Bento da Silva, patriarca, Barô Sirô,
que tombaste defendendo os teus,
num tempo em que ser cigano era sentença. E a ti, bisavó Eremita,
que, de carabina em punho, ergueu-se como muralha viva
entre teus filhos e a fúria dos jagunços.
Honro a ti, bisavô Raymundo José de Souza, Zé do Pneu,
que fez do que não havia sustento, que calçou teus filhos com pneus
quando a terra lhes negava até o chão. E a ti, bisavó Ana Juvito de Souza,
que resististe a dores e gravidezes, alimentaste filhos e irmãs,
e foste sabedoria em meio ao deserto do sol.
Honro a ti, bisavô Padinho Severino Bastos, que, mesmo sem terras,
nunca deixou faltar bênçãos e pão aos filhos, netos e bisnetos.
Em tua terra confiscada para templos, ainda assim semeaste esperança.
Honro a vocês, José Bento da Silva e Maria Madalena (Fatimah),
que nos campos de concentração do Ceará ensinaram o que é ser homem,
o que é ser digno,
o que é a honra cigana.
Amor e Caminho
E por último, mas não menor em meu coração, honro a ti, meu marido,
Samuel Vieira Veloso. Teu amor é aliança viva,
tua paciência é casa segura.
Atravessaste comigo o desconhecido — uma esposa de etnia, origem e fé diferentes. O que poderia ser medo, contigo é força.
O que poderia ser ruptura, contigo é ponte.
Com amor e paciência, tecemos juntos o impossível:
judeus e não judeus, um só lar,
um só caminhar.
Altar onde deposito gratidão:
para que nunca se apague a coragem dos que vieram antes,
e para que floresça, em mim e nos que virão, a herança de amor, honra e resistência.
Agradecimentos a Brit Brachá Brasil
Agradeço, em primeiro lugar, ao Rabino Jacques Cukierkorn, por ter me recebido na comunidade sem desconfianças, receios ou meias palavras. Sou profundamente grata pelos conselhos, pela abertura às mais diversas perguntas, angústias e dúvidas, bem como por sua presença constante, mesmo à distância. Admiro sua leveza, humor e a forma como conduz a comunidade sem distinções.
O Rabbi se revelou um homem excêntrico, onde na maioria das muitas vezes caminha na contramão do esperado e do comum. Essa postura me desperta não apenas admiração intensa, mas também um tremendo carinho. Como já lhe disse, amo de coração.
Recentemente, ao realizar minhas resenhas sobre os livros estudados nos módulos de conversão, encontrei um vídeo assistido em 2019, antes mesmo de ingressar na Brit Brachá Brasil. Naquele vídeo, o Rabino explicava os fundamentos do Judaísmo Reformista, o porquê do judaísmo sempre ter sido reformista, mencionava o que torna o povo judeu diferenciado e como a educação judaica foi capaz de gerar tantos prêmios Nobel em uma população tão pequena, fato que sempre me causou encantamento, aliás, a vida acadêmica como um todo me encanta. Na época, eu havia acabado de receber a notícia de que, após longa batalha judicial, seria admitida diretamente na universidade, no curso de Engenharia Elétrica. Ao assistir àquele vídeo, pensei: “Seria muito bom ter um rabino assim por perto e poder frequentar sua comunidade. Quem sabe um dia.” Contudo, diante das dificuldades e rejeições que já enfrentava, não dei a devida atenção. Hoje prefiro acreditar que não foi coincidência, mas um plano de D’us.
Em 2023, após diversas decepções, um familiar mencionou a Brit Brachá e disse que meu perfil se encaixava na sinagoga e em seus valores. Entrei em contato muito nervosa. Recordo-me de que o Charton queria me ligar, mas, como estava sem o implante coclear, surda como uma pedra, entrei em pânico ao ver sua chamada. Expliquei minha condição, temendo que fosse um impedimento, mas, ao contrário, ele prontamente se dispôs a escrever. Com paciência, instruiu-me passo a passo: explicou a estrutura da carta de solicitação, orientou sobre documentos, tzedaká e o uso da plataforma da Brit Brachá. Na época, influenciada por comentários de familiares sobre processos ortodoxos, decidi ser completamente transparente e relatei tudo na carta, com certo nervosismo, mas também com alívio.
Com o tempo, aprendi muito com a comunidade. Foi um processo repleto de sentimentos: surpresa, confusão, raiva, alegria e, sobretudo, amor.
Agradeço especialmente a você, Charton. Esteve comigo desde o primeiro momento em que entrei na sinagoga. Ainda que, por vezes, suas respostas mais atravessadas me causassem tristeza e raiva (risos a parte), sua prontidão em me responder nos horários mais inusitados e sua paciência em esclarecer dúvidas sobre o Judaísmo conquistaram não apenas meu respeito, mas também meu afeto. Você é firme, mas justo; parece rígido, mas é, na realidade, uma pessoa generosa.
À Camilla, expresso minha profunda gratidão. Suas mensagens sempre gentis e seu conselho transformador mudaram o rumo da minha vida e me deram forças para enfrentar o processo de conversão. Se hoje estou me convertendo é graças a você. Sua sabedoria e determinação a tornam uma mulher que, a meu ver, melhor representa a eshet chayil (mulher virtuosa) descrita em Provérbios 31. Suas divrei Torá são intensas, mas sempre conectadas à realidade. Por isso, extraio delas valiosos aprendizados que moldam a forma como respondo a diversas situações da vida.
Tanto suas palavras quanto as de Charton ocupam lugar especial em minha caminhada e sempre estarão presentes em minha memória. Considero-os professores (shuvakli e rajasano, em minha tradição romani), posição de elevado respeito, carinho e obediência. Assim como o Rabino Jacques, não é apenas meu rabbi, mas também meu barô sirô, um líder digno de confiança, onde não há lugar desconfianças ou inseguranças.
A todos vocês, comparo a uma caixa de bombons sortidos: alguns doces, outros amargos, alguns de misturas inusitadas, mas todos dotados de sabor e riqueza próprios.





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