Autobiografia de D
- Brit Bracha Brasil

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Esta é a autobiografia de D, vamos chama-lo assim para o preservar. D é nascido em 26 de outubro de 1996, em uma noite de sábado, às 22:50, sob horário de verão, no hospital do Ipiranga, em São Paulo. Sua mãe baiana, e seu pai pernambucano. Em suas palavras:
Acredito que nascemos com uma missão e um chamado dados por Deus, mas pela densidade de pecados em nosso mundo material, somos compelidos para longe deles e temos que trilhar um caminho, muitas vezes árduo, para encontrá-los. Desse modo, quero contar um pouco da minha busca espiritual até hoje, quando me encontro com 29 anos.
A minha trajetória espiritual começou aos nove anos de idade quando comecei a me interessar por assuntos ligados à espiritualidade, especialmente misticismo. Nesta mesma época tive uma breve experiência mística, a qual me marcou profundamente e que nunca compartilhei com ninguém. Mas como era muito criança e não sabia ao certo o que fazer, apenas segui com minha vida, porém o interesse permaneceu. A minha família não era muito religiosa e, apesar de se declarar católica, não praticava a fé.
O meu desejo seguiu ali e foi aos 12 anos que comecei a desenvolver minha fé de forma mais ativa. Como muitas pessoas no ocidente, iniciei no cristianismo, no segmento evangélico, primeiramente na linha Batista, depois Pentecostal. Foram quatro anos de bastante aprendizado. No geral, foi uma boa experiência, foi quando realmente me interessei por aprender mais de Deus e da espiritualidade. Também tive uma experiência religiosa e provei do fanatismo. Posso dizer que tive uma experiência completa. No entanto, aos meus 16 já não sentia satisfação nessa fé e passei a ter uma sensação de vazio, de incômodo. Esta sensação me acompanhou por muitos anos e foi a responsável por me fazer provar de muitos caminhos.
Como mencionei, aos 16 anos não me sentia feliz no cristianismo e resolvi abandoná-lo. Foi um evento um pouco marcante para mim e aqueles ao meu redor, pois eu era um cristão fervoroso. Ao sair, voltei-me ao misticismo, seguindo uma linhagem chamada de “mão esquerda”, onde estudei e aprendi sobre espíritos, anjos, demônios etc. Nesse período, transitei entre algumas correntes do mesmo caminho. Cerca de um ano depois, a sensação de vazio retornou. O sentimento de haver encontrado o meu caminho desapareceu e me pus a buscar novamente. Dessa vez, entrei em um caminho mais místico-filosófico, que se declarava trabalhar com a Grande Fraternidade, um suposto grupo de seres que alcançaram a iluminação espiritual, como Moisés, Jesus, Gautama Buda, o profeta Maomé etc.
A insatisfação não demorou a ressurgir e regressei ao caminho da busca. Pelos próximos nove anos, passei por muitos outros caminhos, intercalando e/ou juntando espiritualidade e misticismo. Segui o pensamento New Age, estudei Ciências Ocultas, me ative ao Paganismo; seguindo, me uni à corrente Hermética. Nesse interim, estudei um pouco sobre outras religiões como Budismo, Hinduísmo e Yezidismo.
Durante essas fases, conheci a Kabbalah judaica, retornando ao misticismo. Me pareceu diferente, senti haver um algo a mais que eu não podia explicar. Estudei, parei, retornei. Em certo momento, motivado por essa tradição, busquei o Judaísmo, quando ingressei na Brit Bracha pela primeira vez, em 2020. Mas o sentimento de ter uma religião me incomodou e acabei abandonando. Após muita insatisfação, pois nunca me sentia completo e o sentimento de estar faltando algo sempre retornava, passei por uma fase de ateísmo. Alguém poderia dizer que isso foi negativo, mas, na verdade, creio que foi bom. Foi um momento que me possibilitou muito o desenvolvimento de meu lado lógico e crítico.
Passada a fase do ateísmo, voltei à Kabbalah, porque senti uma forte conexão com ela, e complementei com o Sufismo, o misticismo islâmico. Talvez atiçado por minha curiosidade ou gosto pelos mistérios, dentro dessa corrente, passei a estudar e me ater ao “lado oculto” cabalístico: o caminho das Qlippoth. Nessa fase que se passou entre 2022 e fins de 2023, fui acometido de um grande cansaço espiritual. Disse a mim mesmo: “não vou mais seguir nenhum caminho, se houver algum para mim, ele vai surgir naturalmente”, afinal eram 14 anos de busca e insatisfação. Então, nos últimos tempos de 2023, me veio a vontade de seguir o Judaísmo. Não sei como esclarecer, mas apenas me veio o desejo, me surgiu a ideia na mente. No entanto, disse a mim mesmo: “não vou segui-lo de cara, vou deixar passar um tempo; se o desejo for genuíno, ele vai se fortalecer”.
Pois bem, durante uns cinco meses, mais ou menos, a vontade permaneceu e cresceu de maneira espontânea. Estudei um pouco sobre a fé, tentando manter meu lado lógico no controle enquanto a analisava. Em fins de janeiro e durante fevereiro de 2024, o desejo já era muito grande, estava em minha mente a todo instante e comecei a ter uma sensação estranha de “saudade” ou algo que se assemelhe a isso. Foi quando em março de 2024 tomei a decisão de entrar de vez ao povo judeu, através da Brit Bracha Brasil.
Desde então, pela primeira vez em minha vida, comecei a me sentir “eu mesmo”. A minha espiritualidade, antes confusa, ora radical, ora obscura, se tornou saudável. Não sei como explicar, mas passei a ter uma sensação de “solidez”, de estar firme e em paz. E o mais interessante é que as coisas passaram a se desenrolar sozinhas: respostas, soluções… Claro que não estou dizendo que não tenho problemas ou dúvidas, afinal, elas são parte da vida humana, no entanto, passei a me sentir um comigo mesmo, a sentir paz interior.
Alguém pode se questionar o porquê de eu não ter buscado essa fé antes ou de como sei que encontrei meu caminho, afinal, tive a mesma sensação antes, ainda que momentânea. Para o primeiro questionamento, a resposta é simples: porque cada caminho que encontrava, achava que era o meu. Mas a segunda pergunta pode pôr tudo em dúvida, porém, tenho certeza de haver encontrado o que procurava pois, como disse, hoje sinto paz interior, um sentimento de estar completo e de ser eu mesmo. Encontrei o que tanto procurei e isso se faz óbvio nos desdobramentos de minha vida e nos sentimentos que citei. Finalmente consegui!
Me arrependo de ter seguido os outros caminhos? Não! Eles me ensinaram muitas coisas, inclusive o que não era bom para mim. Também me ajudaram a desenvolver empatia e a ver que todos, independente da fé que possuem ou de não terem nenhuma, estão lutando, à sua maneira, para se desenvolver e encontrar seu caminho.
A dúvida é dolorosa, mas é o gás que nos move até as respostas.
A minha resposta foi o Deus de Israel.




Ainda que tenha caminhado e experimentado muito, a alma judaica volta para casa mais cedo ou tarde.