Conversão deslegitima? - Parte I
- Alberto Paulino de Mello Neto
- há 2 dias
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Judaísmo como povo-civilização e a desconstrução de mitos modernos
Se “judeu” fosse uma “raça”, conversão seria um problema. Mas no judaísmo, aquilo que se chama de conversão sempre foi parte da história — e, quando válida, é pertencimento total.

Gerut não é mudança de crença individual, mas incorporação formal ao povo judeu segundo lei e tradição.
Gerut no judaísmo contemporâneo e o paralelo com Maimônides
Primeiramente, é necessário esclarecer um ponto conceitual central: “conversão” não é um conceito interno ao judaísmo no sentido clássico do termo. Trata-se de uma categoria externa, oriunda de tradições religiosas proselitistas, frequentemente utilizada apenas por convenção linguística para facilitar o diálogo com o público não judaico.
No vocabulário judaico, o termo correto é gerut, que pode ser mais adequadamente compreendido como incorporação. Essa noção expressa continuidade, pertencimento pleno, integração comunitária e ausência de qualquer hierarquia interna. Quem passa por gerut não “muda de religião” — passa a integrar formalmente o povo judeu, com todos os deveres e direitos que isso implica.
Ao longo deste texto, o termo “conversão” será utilizado quando necessário por clareza comunicativa ou ao tratar de discursos externos, mas o conceito normativo judaico em questão é gerut enquanto incorporação.
No judaísmo, identidade sempre foi comunitária, jurídica e histórica — não biológica.
No judaísmo contemporâneo, especialmente no consenso geral das correntes tradicionais, a gerut é vista como um processo sério, exigente e não proselitista, cujo resultado, quando válido, é pleno e irreversível. Do ponto de vista haláchico, não existe a noção de “judeu de segunda classe”. Aquele que passa pelo processo adequado é judeu em tudo: povo, lei e destino.
Essa visão não é moderna. Ela deriva diretamente da formulação clássica de Maimônides, que estabelece um princípio central: o que confere validade à gerut não é a motivação inicial, mas a aceitação final dos mandamentos e a incorporação formal à comunidade de Israel.
Para Maimônides, mesmo quando o processo é motivado por casamento, conveniência social ou medo, sua validade não é automaticamente anulada. Se realizado corretamente — com aceitação das mitzvot, micvê e beit din — o indivíduo passa a integrar plenamente o povo judeu. Ao mesmo tempo, o judaísmo não incentiva gerut e tradicionalmente desencoraja o candidato mais de uma vez, não por rejeição, mas para garantir sinceridade e estabilidade comunitária.
Essa tensão — porta estreita, mas pertencimento absoluto — define a postura judaica clássica até hoje.

Porta estreita, pertencimento absoluto: quem entra, entra por inteiro.
No judaísmo, uma gerut válida não cria “judeus menores” e não rompe continuidade.
Isso nos leva ao ponto mais sensível: se a gerut é legítima internamente, por que aquilo que se chama de “conversão” virou munição ideológica externa?
Continua no Post 2.
Fontes básicas:
Maimônides, Mishné Torá (Issurei Biah 13–14)
Talmud Bavli, Yevamot 47a–48b
Shaye J. D. Cohen, The Beginnings of Jewishness







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