Uma Jornada de Liberdade: Parashat Matot-Masei e os 250 Anos dos Estados Unidos
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 2 dias
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Uma Jornada de Liberdade: Parashat Matot-Masei e os 250 Anos dos Estados Unidos
Neste Shabat lemos Parashat Matot-Masei e, ao mesmo tempo, o mundo recorda um marco importante: os 250 anos da independência dos Estados Unidos.
Talvez alguém pergunte: o que essa data significa para uma comunidade judaica no Brasil?
A resposta é simples: muito.
Vivemos em um mundo conectado. Muitos de nós temos familiares, amigos, filhos ou netos vivendo nos Estados Unidos. As economias, as culturas e até os desafios enfrentados por nossas democracias estão profundamente ligados. Mas, acima de tudo, a Torá nos ensina que toda reflexão sobre liberdade é também uma reflexão sobre responsabilidade.
Parashat Masei começa com uma longa lista das quarenta e duas etapas percorridas pelos israelitas no deserto.
"Estas são as jornadas dos filhos de Israel..."
(Números 33:1)
À primeira vista, parece apenas um registro histórico.
Mas os mestres chassídicos nos ensinam que Deus não valoriza apenas o destino; Deus valoriza a caminhada.
Cada parada, cada dificuldade, cada recomeço faz parte da história sagrada.
Assim acontece também com os povos.
Os Estados Unidos percorreram uma longa caminhada em seus 250 anos. O Brasil também continua vivendo sua própria jornada, buscando consolidar uma sociedade mais democrática, mais justa e mais inclusiva.
Nenhuma nação nasce pronta.
Nenhuma democracia chega à perfeição.
A Torá nunca exigiu perfeição.
Ela exige fidelidade ao caminho.
O rabino Abraham Joshua Heschel escreveu:
"Poucos são culpados, mas todos somos responsáveis."
Essa responsabilidade começa com aquilo que dizemos.
Por isso Parashat Matot inicia falando sobre votos e promessas.
A Torá ensina que nossas palavras possuem santidade.
Quando a confiança desaparece, a convivência se torna impossível.
Martin Buber distinguia entre contrato e aliança.
Contratos defendem interesses.
Alianças constroem relacionamentos.
O Judaísmo é uma aliança.
Uma democracia saudável também depende de uma aliança entre cidadãos: confiança, respeito às instituições e compromisso com o bem comum.
Como judeus reformistas acreditamos que nossa espiritualidade não termina dentro da sinagoga.
Nossa missão é ajudar a transformar o mundo.
O profeta Miqueias resume essa vocação com palavras eternas:
"O que o Eterno exige de você? Que pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com o seu Deus."
Justiça não pertence à direita nem à esquerda.
Justiça pertence à Torá.
Foi por isso que Abraham Joshua Heschel caminhou ao lado do Dr. Martin Luther King Jr. durante a luta pelos direitos civis.
Depois daquela marcha, Heschel escreveu:
"Senti que minhas pernas estavam rezando."
Às vezes, a oração mais sincera acontece quando transformamos nossa fé em ação.
Os sábios ensinaram em Pirkei Avot:
"Orem pelo bem-estar do governo, porque sem ele as pessoas se destruiriam umas às outras."
Eles não estavam dizendo que todo governo está sempre certo.
Estavam lembrando que preservar a democracia, o diálogo e o Estado de Direito é uma responsabilidade religiosa.
Como judeus brasileiros, temos razões especiais para agradecer.
Nossa história no Brasil começou há séculos, com os judeus que chegaram durante o período holandês e fundaram, no Recife, a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel. Desde então, apesar de momentos difíceis, o Brasil tornou-se um país onde diferentes religiões aprenderam, em grande medida, a conviver.
Nossa comunidade ajudou a construir este país na medicina, na educação, na ciência, na cultura, na indústria e nas artes.
Somos profundamente brasileiros.
E profundamente judeus.
Essas duas identidades não se contradizem.
Ao contrário, enriquecem-se mutuamente.
Os profetas de Israel nos ensinaram que amar um país não significa acreditar que ele seja perfeito.
Natã confrontou o rei Davi.
Isaías denunciou a corrupção.
Amós exigiu justiça para os pobres.
O verdadeiro patriotismo, assim como o profetismo judaico, celebra o que há de bom e trabalha para corrigir aquilo que ainda precisa melhorar.
No final de Matot, as tribos de Rúben e Gad recebem autorização para permanecer do outro lado do Jordão somente depois de prometer ajudar todas as demais tribos.
Seus direitos estavam ligados às suas responsabilidades.
O mesmo vale para nós.
Se desfrutamos de liberdade religiosa, devemos defender a liberdade de todas as religiões.
Se desejamos justiça para nossa comunidade, devemos lutar por justiça para toda a sociedade.
Se queremos um Brasil melhor, devemos participar de sua construção.
Finalmente, Masei termina com o povo de Israel diante do rio Jordão.
Moisés contempla a Terra Prometida, mas sabe que não será ele quem concluirá a jornada.
Cada geração recebe uma missão inacabada.
Como ensinam nossos sábios em Pirkei Avot:
"Não é sua obrigação concluir a obra, mas você também não é livre para abandoná-la."
Ao recordar os 250 anos dos Estados Unidos, não celebramos apenas a história de outra nação.
Celebramos um princípio profundamente judaico: a liberdade só encontra seu verdadeiro significado quando caminha de mãos dadas com a responsabilidade.
Que Matot nos ensine a honrar nossas palavras.
Que Masei nos inspire a continuar caminhando, mesmo quando o caminho parece difícil.
E que nós, como judeus, como brasileiros e como cidadãos do mundo, tenhamos a coragem de construir uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humana.
Que Deus abençoe o Brasil.
Que Deus abençoe os Estados Unidos.
E que abençoe todos os povos que trabalham pela paz, pela liberdade e pela justiça.
Amém.




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