top of page

Comentário da Parashat com o Rabino Jacques Cukierkorn


Há um momento no livro de Eclesiastes em que lemos:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”

— Eclesiastes 3:1


Cada geração acredita estar vivendo às portas de uma grande transformação.


Para nossos avós, pode ter sido a industrialização.


Para muitos no Brasil, foi a chegada da CLT, das grandes fábricas, da televisão, da internet.

Mais recentemente, vimos a explosão dos aplicativos: motoristas de aplicativo, entregas por app, atendimento automatizado.


E agora, estamos diante de outra revolução silenciosa e acelerada: a inteligência artificial.


E com ela vem o medo — muito humano e muito real.


No Brasil, esse medo não é abstrato. Ele tem rosto.


É o trabalhador do call center em São Paulo que pergunta se ainda terá emprego em cinco anos.


É o advogado recém-formado em Recife que vê softwares fazendo análise jurídica em segundos.


É o professor em Minas Gerais que se pergunta se será substituído por plataformas de ensino automatizado.


É o jovem que entrega comida de moto em Curitiba e sente que tudo já é instável demais para ficar ainda mais incerto.


A pergunta que muitos fazem é:


“Se as máquinas fazem tudo melhor, mais rápido e mais barato… o que sobra para nós?”


O judaísmo não ignora esse medo. Ele o leva a sério.


Mas ele também responde com algo mais profundo.


O ser humano não vale pelo quanto produz.


No livro de Bereshit (Gênesis), aprendemos que cada pessoa foi criada b’tzelem Elohim — à imagem de Deus.


Não por produtividade.

Não por eficiência.

Não por desempenho econômico.


Mas por dignidade.


Essa é uma ideia revolucionária — especialmente em qualquer sociedade, inclusive a brasileira, onde tantas vezes o valor de alguém é medido pelo emprego que tem, pelo salário que ganha, ou pelo “sucesso” visível.


O Shabat, por exemplo, ensina algo profundamente subversivo:

um dia por semana, nós paramos.


Não produzimos.

Não otimizamos.

Não “entregamos resultados”.


E ainda assim — somos plenamente humanos.


|Uma história para pensar


Há uma história moderna judaica que ajuda a iluminar esse momento.


Um rabino visitou uma comunidade nos Estados Unidos durante a Revolução Industrial tardia. Muitos trabalhadores estavam perdendo empregos para máquinas nas fábricas.


Um homem lhe disse com angústia:


“Rabino, se a máquina faz o meu trabalho melhor do que eu, qual é o meu valor agora?”


O rabino respondeu:


“Se o seu valor estivesse no que você faz, então você já teria sido substituído muitas vezes ao longo da história. Mas você não foi. Porque o seu valor não está no trabalho que você realiza, e sim no fato de que você pode amar, escolher, se arrepender, perdoar e criar significado.”


Hoje, poderíamos recontar essa história no Brasil assim:


Um motorista de aplicativo, após uma corrida longa em São Paulo, pergunta ao passageiro:


“Será que um dia não vai mais precisar de gente dirigindo?”


E o passageiro responde:


“Talvez não precise mais de você para dirigir. Mas ainda vai precisar de alguém para cuidar de um pai idoso. Para ensinar uma criança. Para consolar alguém em luto. Para construir comunidade. Para dar sentido à vida.”


Porque isso não é automatizável.


A tradição judaica ensina que salvar uma vida é como salvar um mundo inteiro.


E isso não é uma métrica econômica. É uma visão espiritual da dignidade humana.


A grande questão da inteligência artificial não é apenas tecnológica. É moral.


O problema não é apenas se as máquinas vão substituir empregos.


O problema é se nós vamos começar a acreditar que seres humanos só têm valor enquanto têm empregos.


O judaísmo responde com clareza:


A tecnologia pode avançar.

Os sistemas podem mudar.

Os trabalhos podem desaparecer e outros surgirem.


Mas a dignidade humana não é negociável.


Talvez esta seja a grande oportunidade deste tempo:


Se máquinas assumirem tarefas repetitivas, talvez a humanidade seja chamada de volta ao que sempre foi mais importante:


  • cuidar de pessoas

  • construir relações

  • educar com presença

  • criar comunidades

  • viver com mais sabedoria do que pressa


E assim, que possamos entrar nesta nova era sem medo paralisante, mas com responsabilidade e consciência.


Que a sabedoria cresça junto com a tecnologia.


Que a compaixão cresça junto com o poder.


E que nunca esqueçamos:


cada ser humano continua sendo, acima de tudo, imagem do Divino.


Amen.

Comentários


© 2026 - Brit Brachá Brasil 

Integrando Judeus e Não judeus de Norte a Sul do País

Filiada ao Movimento Judaico Reformista Internacional

Brit Braja Worldwide Jewish Outreach - BBWJO

BRIT BRACHA BRASIL
CNPJ: 19.121.806/0001-66

  • Youtube
  • Instagram
  • Facebook
bottom of page