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Comentário de Shavuot com o Rabino Jacques Cukierkorn


Shavuot é frequentemente descrito como a festa da revelação. É o aniversário do momento em que os israelitas estiveram no Sinai e receberam a Torá. Mas a tradição judaica, com sua profunda sabedoria, insiste que a revelação não acontece apenas no topo das montanhas cercadas de trovões e relâmpagos. Às vezes, a revelação acontece silenciosamente, em cozinhas e campos, em estradas percorridas na dor, na coragem de recomeçar.

Por isso, em Shavuot, lemos o Book of Ruth.

À primeira vista, Ruth parece uma escolha incomum para esta festa. Não há milagres. Não há mares se abrindo. Não há vozes divinas vindas do céu. Em vez disso, encontramos pessoas comuns enfrentando tristeza, pobreza, incerteza e perda. Talvez este seja justamente o ponto. A Torá não é revelada apenas em momentos dramáticos. A Torá se revela na maneira como os seres humanos respondem ao sofrimento, à solidão e às mudanças.

E no centro desta história está Noemi.

Noemi é uma das grandes figuras bíblicas da resiliência.

Quando a encontramos pela primeira vez, ela deixa Belém durante uma fome em busca de sobrevivência em Moav, junto com seu marido Elimelekh e seus dois filhos. Mas então a tragédia chega em ondas. Seu marido morre. Seus filhos morrem. O futuro que ela imaginava desmorona completamente.

Quando Noemi decide voltar para casa, ela carrega uma dor insuportável. Ela chega a dizer às mulheres de Belém:

“Não me chamem Noemi — doçura — chamem-me Mara — amargura — porque o Todo-Poderoso tornou minha vida muito amarga.”

Há algo profundamente honesto nessas palavras. Noemi não finge estar alegre. Ela não nega sua dor. O judaísmo nunca exige um otimismo falso. Os Salmos choram. Jó questiona. Jeremias lamenta. Noemi nos ensina que resiliência não significa nunca se quebrar. Resiliência significa continuar caminhando mesmo depois de quebrados.

Um mestre chassídico disse certa vez:
“A fé não é a ausência de perguntas. Fé é a coragem de continuar caminhando carregando-as.”

Noemi volta para Belém carregando suas perguntas.

E ainda assim, mesmo em sua amargura, algo extraordinário acontece: ela continua caminhando em direção à vida.

Ela volta para casa.
Aceita a companhia de Ruth.
Percebe oportunidades.
Guia Ruth rumo a um futuro.
Pouco a pouco, Noemi começa a reconstruir sua vida.

O Midrash observa algo belo. No início da história, Noemi está vazia. No final, ela segura uma criança nos braços — o avô do rei David. A tradição judaica ensina que desta linhagem surgirá a redenção.

A mensagem é extraordinária:
Nenhuma vida está além da renovação.

Os capítulos quebrados de nossas vidas nem sempre são os capítulos finais.

Shavuot nos ensina que a revelação muitas vezes chega depois do esgotamento. Lembremos: os israelitas chegam ao Sinai não imediatamente após a libertação, mas depois de caminharem pela incerteza. Antes da revelação vem a vulnerabilidade. Antes da aliança vem a desorientação.

Quantas pessoas hoje se sentem como Noemi?

Pessoas que perderam entes queridos.
Pessoas cujas carreiras mudaram inesperadamente.
Pessoas reconstruindo suas vidas após doenças ou decepções.
Pessoas que se sentem desenraizadas do mundo que conheciam.
Comunidades tentando se recuperar do medo, da divisão ou da solidão.

Noemi fala com todas elas.

E Ruth ensina outra lição essencial: a resiliência raramente é solitária.

Ruth se recusa a abandonar Noemi. Suas famosas palavras continuam entre as mais emocionantes da literatura:

“Aonde fores, irei; teu povo será o meu povo.”

Na vida judaica, a sobrevivência sempre dependeu da companhia humana. O Sinai não aconteceu com indivíduos isolados, mas com uma comunidade reunida.

Conta-se uma história sobre Rabbi Simcha Bunim of Peshischa. Um aluno perguntou:
“Como sabemos quando a noite terminou e o dia começou?”

O aluno sugeriu algumas respostas:
“Quando conseguimos distinguir uma ovelha de um cachorro?”
“Quando conseguimos diferenciar uma figueira de uma oliveira?”

O rabino respondeu que não.

“É quando você consegue olhar para o rosto de outro ser humano e enxergar nele seu irmão ou irmã. Até então, ainda é noite.”

Ruth vê Noemi. Noemi finalmente permite que alguém a veja novamente. E através dessa conexão humana, a redenção começa.

Esse é um dos ensinamentos mais profundos de Shavuot:
A Torá não é apenas um texto. A Torá é uma maneira de enxergar o outro.

Os rabinos ensinam que, quando Deus entregou a Torá no Sinai, cada alma ouviu a revelação de maneira diferente — de acordo com sua experiência, sua necessidade e sua capacidade. A revelação não foi uniforme. Foi pessoal.

Alguns ouviram trovões.
Alguns ouviram consolo.
Alguns ouviram desafio.
Alguns ouviram esperança.

E talvez Noemi, se estivesse no Sinai, tivesse ouvido isto:
Sua história ainda não terminou.

Talvez esta seja a mensagem que tantas pessoas mais precisam ouvir hoje.

O futuro não é escrito apenas por nossas perdas.
A amargura não tem a palavra final.
Uma pessoa pode carregar tristeza e ainda assim plantar sementes para o amanhã.
Um coração ferido ainda pode se tornar fonte de bênção.

Observemos outra beleza no Livro de Ruth: a história começa com fome e termina com colheita.

Isso é Shavuot.

A festa das primícias.
A celebração da colheita.
O lembrete de que as estações de esterilidade não duram para sempre.

A própria história judaica é a história de Noemi:
exílio e retorno,
destruição e reconstrução,
luto e renovação.

Vez após vez, o povo judeu atravessou tragédias e ainda assim escolheu a vida.

E portanto, neste Shavuot, talvez o convite seja simples:

Continue caminhando.

Mesmo que você ainda não saiba como a história termina.
Mesmo que carregue tristeza.
Mesmo que a vida não tenha acontecido como você imaginava.

Continue plantando.
Continue aprendendo.
Continue amando.
Continue presenteando o mundo com sua presença.

Porque talvez a revelação já esteja esperando na estrada adiante.

E talvez um dia, como Noemi, olhemos para trás e descubramos que aquilo que parecia o fim da história era, na verdade, o começo de uma nova colheita.

Chag Shavuot Sameach.

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