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Parashat Nasso com o Rabino Jacques Cukierkorn


O Nazireu e a Vida Moderna

“Quando um homem ou uma mulher fizer um voto especial, o voto de nazireu, para se consagrar ao Senhor…”

— Números 6:2


Vivemos em uma época de distrações constantes. Telefones, redes sociais, notificações e uma cultura de excesso competem permanentemente pela nossa atenção. Fazemos promessas a nós mesmos o tempo todo: menos tempo diante da tela, menos ansiedade, menos hábitos prejudiciais, mais equilíbrio, mais presença. E talvez seja justamente por isso que uma das instituições mais estranhas da Torá — o voto do nazireu — pareça hoje surpreendentemente atual.


Na parashá Nassô, a Torá descreve o nazireu: uma pessoa comum que escolhia voluntariamente entrar em um período especial de disciplina espiritual. Durante esse tempo, o nazireu se abstinha de vinho e derivados da uva, não cortava o cabelo e evitava contato com a morte.


À primeira vista, tudo isso parece distante da vida moderna. Mas, na essência, o nazireu representa algo profundamente contemporâneo: a decisão de interromper o piloto automático da vida e viver de forma mais consciente e intencional.


O exemplo mais famoso é Sansão. Dotado de enorme força, ele acabou se perdendo porque, como dizem os rabinos, “seguia seus olhos” — deixando-se levar por impulsos momentâneos e desejos imediatos. Em muitos aspectos, nós também vivemos assim: deslizando de tela em tela, de distração em distração, sem refletir profundamente sobre aquilo a que estamos entregando nossa atenção, nosso tempo e nossa energia.


O mais interessante é que o judaísmo nunca teve uma posição simples sobre o nazireu. Alguns rabinos viam o voto como um ato elevado de santidade. Outros acreditavam que havia algo problemático em abrir mão dos prazeres permitidos por Deus. Afinal, o vinho também faz parte da alegria judaica: o Kidush de Shabat, o l’chaim nas celebrações, as refeições compartilhadas em família.


Essa tensão continua extremamente atual.


Vivemos entre dois extremos. De um lado, uma cultura que incentiva consumo constante, excesso de estímulos e satisfação imediata. Do outro, uma busca quase obsessiva por autocontrole, produtividade e aperfeiçoamento pessoal. Há quem tente escapar do excesso através de dietas radicais, detox digitais ou longos períodos de privação.


Talvez a grande sabedoria da Torá esteja justamente no equilíbrio.


O nazireu não se afastava do vinho porque o vinho fosse “ruim”. A Torá diz que ele se separava la’Adonai — para Deus. Havia propósito, intenção e também um limite de tempo. O voto tinha começo, meio e fim.


Isso é profundamente importante.


Disciplina saudável não significa rejeitar o mundo permanentemente. Significa criar interrupções sagradas que nos permitam retornar à vida com mais clareza, gratidão e consciência.


Também chama atenção o fato de que o compromisso do nazireu era visível. O cabelo comprido mostrava publicamente que aquela pessoa estava vivendo algo especial. O judaísmo entende há muito tempo aquilo que a psicologia moderna hoje confirma: compromissos visíveis tendem a ser mais fortes. A mezuzá na porta, as velas de Shabat, a kipá — todos são lembretes externos de valores internos.


Logo após as leis do nazireu, a Torá apresenta a Bênção Sacerdotal:


  1. Que Deus te abençoe e te guarde.

  2. Que Deus faça resplandecer Seu rosto sobre ti e te conceda graça.

  3. Que Deus volte Seu rosto para ti e te conceda paz.


A proximidade desses textos parece ensinar que, quando o ser humano dá passos conscientes em direção à santidade, encontra também a presença divina caminhando em sua direção.


E o resultado final dessa jornada não é riqueza nem sucesso, mas shalom — paz.


Talvez seja justamente disso que mais precisamos hoje.


Não precisamos nos tornar nazireus. Não precisamos abandonar vinho ou deixar o cabelo crescer. Mas talvez precisemos recuperar algo do espírito do nazireu: a coragem de parar, refletir e perguntar a nós mesmos:


Estou vivendo de maneira intencional?


Minhas escolhas refletem meus valores?


Ou apenas estou sendo levado pela corrente das distrações, dos hábitos automáticos e das urgências do dia a dia?


O nazireu nos lembra que, às vezes, a santidade começa com uma pausa. Com a decisão de sair temporariamente do fluxo incessante da vida para redescobrir aquilo que realmente importa.


Em uma era de distração permanente, viver com intenção pode ser um dos atos mais sagrados possíveis.

1 comentário


Shalom é o que buscamos diariamente.🙏

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