Tu B'Av: A força de recomeçar através do amor
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 3 horas
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No calendário judaico existe uma celebração pouco conhecida, mas que traz uma das mensagens mais belas e atuais da nossa tradição: Tu B'Av, o dia 15 do mês de Av.
Apenas seis dias depois de Tishá BeAv — o dia mais triste do calendário judaico, quando recordamos a destruição dos Templos de Jerusalém e tantas outras tragédias vividas pelo povo judeu — chega uma festa de alegria, esperança e amor. Isso não acontece por acaso. O judaísmo nos ensina que a dor nunca tem a palavra final. Depois da destruição, sempre é possível reconstruir. Depois da tristeza, sempre pode florescer uma nova esperança.
O Talmud (Ta'anit 26b) afirma que "não houve dias tão felizes para Israel como Yom Kipur e Tu B'Av."
Na época do Segundo Templo, as jovens de Jerusalém vestiam roupas brancas emprestadas e saíam para dançar nos vinhedos. Os jovens iam ao seu encontro, e muitos casamentos começavam ali. O detalhe mais importante, porém, não era o romance. Todas usavam roupas emprestadas para que ninguém pudesse distinguir quem era rica ou pobre. A mensagem era revolucionária: o verdadeiro valor de uma pessoa não está em sua posição social, em sua aparência ou em sua origem, mas em seu caráter, em seus valores e em seu coração.
Essa mensagem continua profundamente necessária nos dias de hoje.
Vivemos em um tempo marcado pela polarização. Também no Brasil experimentamos divisões políticas, sociais e econômicas que frequentemente dificultam o diálogo. Essas tensões, às vezes, também chegam às nossas comunidades judaicas, criando distâncias entre pessoas que compartilham a mesma história e os mesmos valores.
Tu B'Av nos convida justamente ao contrário: a reconstruir pontes.
Para uma comunidade reformista, essa mensagem possui um significado ainda mais profundo. O Judaísmo Reformista acredita que a tradição deve dialogar com o mundo contemporâneo e que cada geração é chamada a renovar a aliança entre Deus, o povo judeu e toda a humanidade.
Essa renovação acontece quando aprendemos a escutar quem pensa diferente, quando acolhemos a diversidade e quando fazemos do amor e do respeito os alicerces da vida comunitária.
O amor celebrado em Tu B'Av vai muito além do amor romântico. É o amor entre amigos, entre diferentes gerações, entre famílias, entre comunidades e também o amor pelo povo judeu em toda a sua diversidade.
É o compromisso de construir sinagogas e comunidades onde todos sejam bem-vindos: famílias de diferentes configurações, pessoas nascidas judias e aquelas que escolheram o judaísmo como caminho espiritual, casais inter-religiosos, jovens, idosos, pessoas que possuem muitas certezas e aquelas que ainda estão em busca de respostas.
Nossos sábios ensinam que o Segundo Templo foi destruído por causa do sinat chinam, o ódio gratuito entre irmãos.
Se o ódio destruiu Jerusalém, somente o ahavat chinam, o amor gratuito e desinteressado, pode reconstruí-la.
Essa talvez seja uma das maiores missões das comunidades judaicas brasileiras.
Somos uma comunidade relativamente pequena, espalhada por um país de dimensões continentais. Viemos de histórias diferentes: descendentes de imigrantes da Europa, do Oriente Médio e do Norte da África; brasileiros que descobriram suas raízes judaicas; pessoas que escolheram o judaísmo por convicção e amor.
O que nos une não é uma única origem, mas um projeto comum: construir comunidades abertas, inclusivas e vibrantes, onde a Torá inspire justiça, solidariedade, compaixão e esperança.
Por isso, Tu B'Av nos convida a fazer algumas perguntas importantes:
Quem precisa ser ouvido por mim?
Com quem preciso me reconciliar?
Como posso fortalecer minha comunidade?
Como posso demonstrar mais carinho, mais gratidão e mais generosidade às pessoas que caminham ao meu lado?
Porque, na tradição judaica, o amor não é apenas um sentimento.
É uma escolha.
É uma prática diária.
É visitar quem está doente.
É consolar quem perdeu alguém.
É acolher quem chega pela primeira vez à sinagoga.
É defender a dignidade de cada ser humano.
É trabalhar por uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Talvez seja justamente por isso que Tu B'Av acontece poucos dias depois de Tishá BeAv. O calendário judaico nos ensina que nenhuma destruição é definitiva quando existe disposição para reconstruir.
Como celebrar Tu B'Av em casa?
Uma das belezas de Tu B'Av é justamente não possuir rituais obrigatórios. Isso nos dá liberdade para criar novas tradições familiares que expressem os valores do judaísmo em nosso tempo.
Uma forma simples e significativa de celebrar é reunir a família ou amigos para um jantar especial. Não importa se a refeição é simples ou sofisticada. O importante é celebrar a alegria de estarmos juntos.
Se desejar, coloque flores brancas sobre a mesa, lembrando as jovens de Jerusalém e simbolizando igualdade, paz e respeito.
Antes da refeição, cada pessoa pode dizer algo pelo qual é grata a alguém que está presente. Pequenas palavras de reconhecimento podem fortalecer vínculos que muitas vezes deixamos passar despercebidos.
Tu B'Av também é um excelente momento para reconstruir relacionamentos. Talvez seja a ocasião de telefonar para alguém com quem perdemos contato, pedir perdão, escrever uma mensagem de carinho ou simplesmente fazer uma visita inesperada.
Outra maneira muito judaica de celebrar é praticar o ahavat chinam — o amor gratuito.
Visite alguém que esteja sozinho.
Convide uma pessoa para compartilhar a refeição.
Faça uma doação.
Ofereça ajuda a quem está passando por dificuldades.
Transforme o amor em ação.
Durante o jantar, conversem sobre perguntas como:
O que significa amar de verdade?
Como podemos fazer da nossa casa um lugar onde todos se sintam acolhidos?
O que podemos fazer nesta semana para tornar nossa comunidade ainda mais forte?
Também podemos aproveitar a ocasião para abençoar aqueles que amamos.
Assim como fazemos na noite de Shabat, podemos colocar as mãos sobre nossos filhos e filhas ou simplesmente dirigir uma bênção à nossa família e aos nossos amigos.
Podemos dizer:
"Que o amor, a paz e a compreensão habitem sempre este lar. Que saibamos enxergar o melhor uns nos outros. Que nossas palavras aproximem, que nossas ações curem, e que a Presença Divina encontre sempre morada entre nós. Amém."
Antes de terminar a noite, cada pessoa pode assumir um compromisso concreto para a semana seguinte.
Pode ser telefonar para um parente distante.
Pedir desculpas.
Visitar alguém.
Fazer trabalho voluntário.
Ou simplesmente dedicar mais tempo às pessoas que ama.
E talvez exista um gesto muito simples, mas extremamente atual: desligar os celulares durante toda a refeição.
Num mundo cheio de notificações e distrações, oferecer nossa atenção completa às pessoas que estão à nossa frente talvez seja uma das maiores demonstrações de amor que podemos dar.
Tu B'Av nos lembra que o amor não acontece apenas nos grandes momentos da vida.
Ele é construído todos os dias, através das pequenas escolhas.
Cada gesto de bondade.
Cada palavra de incentivo.
Cada abraço.
Cada reconciliação.
Cada pessoa acolhida.
Tudo isso ajuda a reconstruir o nosso pequeno Templo: nossos lares, nossas comunidades e nossos corações.
Que neste Tu B'Av possamos escolher o amor em vez do medo, o diálogo em vez da intolerância, a esperança em vez do desânimo e a união em vez da divisão.
E que, ao fazermos isso, permitamos que a Shechiná, a Presença Divina, encontre novamente morada entre nós.
Ken Yehi Ratzon. Que assim seja.




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