A Voz que Desata Nós
- Reginaldo Eugenio Ramos Teodoro

- há 3 horas
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Kol Nidrei, o Violoncelo e a Liberdade de Pessach
A saúde do ser humano não se encerra na biologia; ela floresce na intersecção entre o equilíbrio mental, a expressão artística e a conexão com o Sagrado. Como alguém que dedicou décadas à Medicina e à Psicanálise, e que encontrou na música erudita, quando ainda era jovem, uma forma de traduzir o indizível, convido nossa comunidade a uma reflexão sobre uma das obras mais viscerais da nossa tradição: o Kol Nidrei.
O Kol Nidrei ("Todos os Votos") é um paradoxo. Juridicamente, é uma fórmula de anulação de votos; espiritualmente, é o ápice do Yom Kippur. Sua força histórica reside na resiliência dos Anussim (judeus forçados à conversão durante a Inquisição). Para eles, recitar esses versos em aramaico era um ato de libertação psíquica. Era o momento de remover a máscara imposta pela perseguição e declarar: "Perante o Tribunal Celestial, minha essência permanece fiel ao Deus de Israel".
Embora a oração seja antiga, foi o compositor alemão Max Bruch, em 1880, quem deu ao mundo a versão que nos faz suspirar. Ao transcrever a melodia litúrgica para o violoncelo, Bruch não criou apenas música; ele mapeou a anatomia do arrependimento.
Para quem já sentiu o vibrato do cello contra o peito em uma orquestra sinfônica, a experiência é profunda. O violoncelo é o instrumento que mais se aproxima da frequência da voz humana. Quando o arco toca a corda, a vibração ressoa na caixa torácica do músico e do ouvinte, criando um fenômeno de bio-retroalimentação emocional. É um "choro" que não fere, mas limpa.
Nesta interpretação magistral do Jerusalem Music Centre, vemos a técnica a serviço da alma. Esse menino, Yarden Cavenor, canta, simplesmente canta, quando desce às notas mais graves, com precisão, mas com algum “rubato”, representando o mergulho no "Egito interior", de cabeça, quase como alguém à beira de um penhasco. A melodia, linda, por sinal, é contida, duvidosa, principalmente nas segundas posições de mão. Nas transições para as notas mais agudas, observe o ritmo mudando, a forma como segura o arco, o vibrato mais veloz, a respiração a cada precisa frase, recheada por pequenas posturas de “corda aberta” nos graves, dando continuidade, contudo, podendo facilmente comparar-se a uma espécie de redenção.
Poderíamos questionar: por que falar de Kol Nidrei às vésperas de Pessach?
A conexão é ontológica. Pessach celebra a nossa liberdade física e nacional — a saída do Egito (Mitzrayim). O Kol Nidrei celebra a nossa liberdade individual e espiritual — a saída das nossas "angústias" (termo que, em hebraico, compartilha a raiz com Mitzrayim).
O Egito Externo: Em Pessach, removemos o chametz de nossas casas para lembrar que a pressa da libertação não permite o orgulho fermentado.
O Egito Interno: No espírito do Kol Nidrei, removemos o "chametz da alma" — os votos não cumpridos, as palavras impensadas e as identidades falsas que nos escravizam.
Não há liberdade plena se a nossa palavra estiver presa a promessas que não refletem quem somos. Se Pessach é o nascimento do povo, o Kol Nidrei é o renascimento do indivíduo. Ambos nos ensinam que a verdadeira liberdade começa quando nossas palavras e nossos corações vibram na mesma sintonia, como um suspiro que contagia.
Ao ouvirem a peça de Bruch, nessa apresentação anexa, convido-os a permitir esse "suspiro" de que falamos. Que o som do cello ajude a desatar os nós que impedem sua caminhada. Que possamos chegar à mesa do Seder não apenas com casas limpas, mas com almas leves, prontas para cantar a canção da liberdade. E esse menino é maravilhoso em expressão, em fidelidade à obra, porém, sobretudo em traduzir esse “suspiro”.
Chag Pesach Sameach!




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