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Comentário sobre Shabat de Pessach com Rabino Jacques Cukierkorn


Neste Shabat de Pessach, reunimo-nos com palavras antigas ainda ecoando em nossos ouvidos:

“Lembra-te deste dia em que saíste do Egito, da casa da servidão”

Êxodo 13:3


Sentamo-nos à mesa, provamos a matsá—o pão da aflição e o pão da liberdade—e contamos uma história mais antiga do que qualquer nação ainda existente. É a história de um povo que ousou acreditar que o mundo poderia ser diferente, e que eles próprios poderiam transformá-lo.


E neste ano, enquanto contamos essa história, o mundo ao nosso redor também conta outra. Há poucos dias, a humanidade lançou mais uma missão à lua. Mais uma vez, seres humanos—frágeis, finitos, feitos de pó e sopro—estenderam seu alcance além da Terra, enviando instrumentos, máquinas e sonhos através do vasto silêncio do espaço.


À primeira vista, essas duas histórias não poderiam ser mais diferentes. Uma é antiga, enraizada nas areias do deserto, na escravidão e na libertação. A outra é moderna, tecnológica, voltada para os céus. E, no entanto, se escutarmos com atenção, ambas nos dizem a mesma verdade.


Porque ambas são histórias sobre ultrapassar limites.


A leitura da Torá para este Shabat de Pessach nos lembra de um momento de transição. Os israelitas já não são mais escravos, mas ainda não são plenamente livres. Estão à beira do mar, olhando para trás, para o Egito, e para frente, para um deserto desconhecido. É um lugar assustador para se estar. A liberdade ainda não é confortável. A redenção ainda não está completa.


E é precisamente ali, nesse limiar, que o milagre acontece.


O Midrash nos conta que o mar não se abriu imediatamente. Segundo um ensinamento famoso, foi apenas quando Nachshon ben Aminadav avançou para dentro das águas—até os joelhos, a cintura, o pescoço—que o mar finalmente se abriu. Somente quando um ser humano esteve disposto a dar um salto no desconhecido é que o caminho apareceu.


E não é isso que representa uma missão à lua?


Gostamos de pensar nessas missões como triunfos da engenharia, da ciência, do cálculo. E são. Mas, antes de tudo, são atos de coragem. Alguém, em algum lugar, teve que dizer: iremos mais longe do que jamais fomos. Arriscaremos o fracasso. Investiremos tempo, energia e esperança em algo que talvez não dê certo. Daremos um passo, como Nachshon, dentro das águas antes de vê-las se abrir.


O salmista pergunta:

“Que é o ser humano para que Te lembres dele?”

Salmo 8:5

E, no entanto, no verso seguinte, responde:

“Tu o fizeste pouco menor que os seres divinos, e o coroaste de glória e honra.”

Há algo dentro de nós que se recusa a permanecer confinado. Algo que nos empurra além dos lugares estreitos—Mitzrayim—de nossas vidas.


É disso que trata Pessach. Não apenas da libertação física do Egito, mas da capacidade espiritual de transcender limitações.


Rabbi Nachman de Breslov ensinou:

“O mundo inteiro é uma ponte muito estreita, e o essencial é não ter medo.”

Essa ponte estreita pode ser o deserto. Pode ser o mar. Pode até ser o vasto vazio entre a Terra e a lua. Mas o desafio é sempre o mesmo: podemos avançar mesmo quando o caminho ainda não está visível?


E aqui a Torá nos oferece uma percepção crucial. Quando Deus ordena a Moisés junto ao mar, as palavras são surpreendentes:

“Por que clamas a Mim? Dize aos filhos de Israel que avancem”

(Êxodo 14:15).

Avancem.


Não esperem. Não recuem. Não permaneçam paralisados pelo medo. Avancem.


A fé, na tradição judaica, não é passiva. Não é esperar que milagres aconteçam. É a coragem de agir, confiando que o sentido surgirá através da própria ação. A abertura do mar não substitui a ação humana—ela responde a ela.


Da mesma forma, toda grande conquista humana—seja atravessar um mar ou alcançar a lua—começa com esse mesmo chamado: avançar.


Mas Pessach também nos lembra de algo igualmente importante. O objetivo não é apenas ir mais longe. É avançar com propósito.


A geração que saiu do Egito não vagou sem rumo. Estava a caminho do Sinai, da aliança, da responsabilidade. Na Torá, a liberdade nunca é apenas liberdade de algo—é liberdade para algo. Liberdade para construir uma sociedade justa. Liberdade para cuidar do estrangeiro, da viúva, do órfão. Liberdade para trazer santidade ao mundo.


E assim devemos nos perguntar: ao avançarmos cada vez mais no espaço, à medida que nossas capacidades se expandem além de tudo que nossos antepassados poderiam imaginar, também estamos expandindo nosso senso de responsabilidade?


O Talmud ensina:

“Quem é sábio? Aquele que vê o que está nascendo”

Tamid 32a


Sabedoria não é apenas compreender o presente—é antecipar o futuro que estamos criando.


Quando olhamos para um foguete decolando rumo à lua, estamos testemunhando mais do que tecnologia. Estamos diante de uma pergunta: que tipo de humanidade chegará lá?


Levaremos conosco a estreiteza do Egito—nossas divisões, nossos medos, nossas injustiças? Ou levaremos as lições de Pessach—a memória da escravidão, o compromisso com a liberdade, a obrigação de dignidade para todos?


A Hagadá nos ordena:

“Em cada geração, cada pessoa deve se ver como se ela mesma tivesse saído do Egito.”

Não como uma memória distante, mas como uma experiência viva. Porque cada um de nós tem o seu próprio Egito, seus próprios lugares estreitos, seus próprios medos que nos impedem de avançar.


E cada um de nós tem o seu próprio mar para atravessar.


Para alguns, pode ser uma decisão difícil há muito adiada. Para outros, pode ser um relacionamento que precisa de cura. Para outros ainda, pode ser um chamado que parece grande demais, vasto demais, impossível demais.


A lição de Pessach e da jornada à lua é esta: você não precisa ver todo o caminho para começar. Precisa apenas da coragem de dar o próximo passo.


E quando o faz, algo extraordinário acontece. O mundo responde. As possibilidades se abrem. Os mares começam a se dividir.


Isso não é um otimismo ingênuo. Os israelitas não tiveram uma jornada fácil. O deserto foi longo e difícil. Nem toda missão tem sucesso. Nem todo passo adiante é suave.


Mas a alternativa—permanecer no Egito, permanecer no medo, permanecer dentro dos limites que impomos a nós mesmos—é muito mais perigosa.


Neste Shabat de Pessach, enquanto nos encontramos entre memória e possibilidade, entre a redenção antiga e a exploração moderna, somos convidados a ouvir o mesmo chamado divino que ecoou junto ao mar:


Avancem.


Avancem com coragem.

Avancem com fé.

Avancem com propósito.


E ao fazermos isso, que possamos lembrar que a verdadeira medida de nossa jornada não é quão longe viajamos, mas quem nos tornamos ao longo do caminho.


Que sejamos dignos da liberdade que celebramos.

Que usemos nossos horizontes em expansão para aprofundar nossa humanidade.

E que possamos, como nossos antepassados junto ao mar, avançar juntos—até que as águas se abram e um novo caminho surja diante de nós.


Shabat Shalom.

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