Os limites do amor: o que Ceuta, Del Rio e Pacaraima têm a nos ensinar
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 27 minutos
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Esta semana mantive uma aba do navegador aberta com as notícias de Ceuta. Dezenas de milhares de pessoas — em sua maioria homens jovens marroquinos — nadaram e escalaram para atravessar a cerca fronteiriça rumo àquele pequeno enclave espanhol na costa da África. Pelo menos dezoito pessoas, segundo alguns números mais de trinta, não sobreviveram à travessia; muitas se afogaram no estreito, outras foram esmagadas na correria junto ao quebra-mar. A Espanha enviou o exército. A Itália ameaça fechar suas próprias fronteiras em resposta. As autoridades locais chamam o que está acontecendo de emergência humanitária cujos limites elas nem conseguem calcular.
Se isso soa familiar, deveria soar. Alguns de vocês devem se lembrar de setembro de 2021, quando milhares de migrantes haitianos — muitos dos quais já viviam havia anos na América do Sul, vários deles no próprio Brasil — se reuniram sob uma ponte em Del Rio, no Texas, depois de atravessar o Rio Grande a pé. As imagens da época foram igualmente dolorosas: famílias dormindo na terra, um agente da patrulha fronteiriça a cavalo tentando conter um homem que só queria voltar para junto da esposa e do filho. Países diferentes, políticas diferentes — mas a mesma forma humana por baixo de tudo isso. Pessoas se movendo em direção ao que acreditam ser segurança, ou simplesmente uma vida vivível, em números grandes demais para que qualquer sistema de leis consiga absorver com delicadeza.
E aqui, no Brasil, não precisamos ir tão longe para reconhecer essa forma humana. Ela está em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, por onde mais de 1,4 milhão de venezuelanos entraram no país desde 2018. Está na história das próprias comunidades judaicas brasileiras, formadas em boa parte por quem chegou fugindo — da Inquisição, séculos atrás, ou da Europa em chamas no século vinte. A pergunta que Ceuta nos coloca esta semana não é uma pergunta distante. É uma pergunta que o Brasil já respondeu, está respondendo e continuará tendo de responder.
Quero me deter nesse desconforto, porque a nossa parashá também se detém nele. Eikev é o longo discurso de Moisés a uma geração prestes a atravessar sua própria fronteira, rumo a uma terra que ainda não é dela. E no meio desse discurso, Moisés diz algo que deveria nos deter: Deus "não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno; faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestimenta. Vocês também amarão o estrangeiro, pois estrangeiros foram vocês na terra do Egito." O amor de Deus — e o nosso — pelo ger, o estrangeiro, aquele que não tem status, não é apresentado ali como sugestão. É apresentado como memória. Vocês sabem o que é estar do outro lado da cerca. Amem a partir dessa memória.
Os sábios do Talmude notaram como a Torá insiste nesse ponto. No tratado de Bava Metzia, eles contam: o mandamento de amar, proteger ou não oprimir o estrangeiro aparece entre trinta e seis e quarenta e seis vezes na Torá — mais do que quase qualquer outro mandamento, incluindo o de amar a Deus. Por que repetir tanto? A resposta do Talmude é quase terna: porque a natureza humana tende para o lado contrário. Deixados aos nossos próprios instintos, desconfiamos do estrangeiro. Por isso a Torá não confia que aprenderemos isso de uma vez só. Ela se repete até virar reflexo, e não mais esforço.
Até aqui, isso parece um caso simples a favor de corações abertos e portas abertas. Mas acredito que Eikev é mais honesta do que isso. A mesma Torá que ordena o amor ao estrangeiro também dedica enorme energia a construir estrutura. Mais adiante recebemos as cidades de refúgio: quem foge por sua vida não é simplesmente absorvido pela cidade mais próxima. A pessoa viaja até uma cidade designada, e ali existe um processo — anciãos, uma audiência, uma investigação — antes que o refúgio seja concedido. A Torá poderia ter dito, simplesmente: acolham quem chegar. Não disse. Construiu um sistema firme o bastante para sustentar a própria compaixão que estava ordenando.
É exatamente esse princípio que vejo em ação, de forma bem concreta, na Operação Acolhida, na fronteira norte do Brasil. Desde 2018, o governo brasileiro recebe venezuelanos em Pacaraima através de uma estrutura com três pilares: gestão de fronteira, abrigamento e interiorização voluntária — o realocamento ordenado e seguro de pessoas para cidades brasileiras com mais capacidade de acolhê-las. Mais de 157 mil pessoas já foram interiorizadas dessa forma, para mais de mil municípios. Não é um sistema perfeito, e ninguém que trabalha nele diria isso. Mas é, em essência, uma versão moderna e bem brasileira das cidades de refúgio: um lugar de entrada, um processo, uma distribuição pensada — não o caos de uma cerca sendo derrubada de uma só vez.
Esse contraste é, penso eu, o coração teológico do que aconteceu em Ceuta esta semana, e do que aconteceu em Del Rio em 2021. O amor não tem limite no sentido de um ponto de corte, um momento a partir do qual pessoas deixam de importar. Mas o amor sem um recipiente que o sustente desmorona — e quando desmorona, gente morre. As almas que se perderam na água esta semana não se afogaram porque alguém as amou de menos. Afogaram-se, em parte, porque um sistema recebeu sua esperança desesperada sem estrutura suficiente para sustentá-la. O caos numa fronteira não é prova de compaixão em excesso. É, muitas vezes, sintoma de estrutura funcional de menos.
Os cabalistas e os primeiros mestres hassídicos tinham um jeito de nomear isso. Falavam do chessed e da guevurá — a bondade amorosa e a força que estabelece limites — como duas energias que só se completam uma através da outra. O chessed sem controle não permanece chessed; sem limites, vira caos, às vezes até crueldade, como um pai cujo amor nunca diz não. A guevurá sem o chessed que a suaviza vira punho fechado. A tradição nos pede para sustentar as duas ao mesmo tempo, do mesmo jeito que um rio precisa de água e de margens para chegar a algum lugar, em vez de se tornar enchente.
Há uma velha história hassídica sobre Reb Zusha de Hanipol, chorando em seu leito de morte. Seus discípulos perguntaram por quê — afinal, ele havia vivido uma vida justa, não tinha nada a temer. Ele respondeu que não temia ser perguntado por que não havia sido mais como Moisés. Temia ser perguntado por que não havia sido mais como Zusha — por que não havia vivido plenamente dentro da forma e dos limites da única vida que lhe foi dada. Penso nessa história toda vez que sou tentado a imaginar que amor verdadeiro significa não ter limite nenhum, forma nenhuma. A ausência de limites nunca foi o objetivo. A fidelidade dentro de uma forma, sim.
O que fazemos com tudo isso, então — nós, comunidade judaica no Brasil, país que abrigou tantos refugiados e que hoje é, ele mesmo, terra de refúgio para tantos outros? Não creio que nossa tarefa seja resolver, a partir do púlpito ou desta página, a política migratória de Espanha, dos Estados Unidos ou do próprio Brasil. Mas creio que Eikev nos faz uma pergunta mais afiada esta semana: onde, em nossa própria vida, confundimos amor com ausência de limites — e onde confundimos limites com ausência de amor? Talvez seja um familiar que seguimos resgatando de consequências que talvez pudessem ensinar algo. Talvez seja uma amizade em que nunca dissemos não, e algo em nós, silenciosamente, começou a ressentir quem amamos. Ou talvez seja o contrário: um muro construído por boas razões, um dia, que já endureceu além de sua utilidade, e que hoje não protege mais nada além da própria intimidade.
O amor verdadeiro — aquele que a Torá repete sem parar porque sabe que vamos esquecê-lo — não é o amor que diz sim a tudo. É o amor que constrói algo firme o bastante para dizer sim e sustentar esse sim, repetidamente, do mesmo jeito que o amor de Deus pelo estrangeiro se renova não apagando a cerca, mas lembrando, sempre de novo, o que foi estar do outro lado dela.
Que sejamos uma comunidade — e um país — que se lembra do Egito sem fingir que pode absorver, só com boa vontade, toda a dor do mundo. Que construamos, em nossas próprias vidas e em nossa própria sociedade, estruturas fortes o bastante para sustentar o amor que realmente queremos oferecer. E que nós, junto com as dezoito almas que o mar levou esta semana diante da costa de Ceuta, e junto com cada família que já parou diante de uma cerca — em Fnideq, em Del Rio, em Pacaraima — com a esperança de uma vida melhor do outro lado, encontremos nosso caminho até um lugar de refúgio que não seja apenas aberto, mas inteiro.




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