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Entre Makom, Torah e Shabat: O Significado Espiritual da Bênção Concedida à Mulher


Em muitas comunidades judaicas, quando alguém é chamado para uma honra ligada à leitura da Torah ou a um momento litúrgico especial, recita-se uma bênção conhecida como Mi Sheberach (“Aquele que abençoou”). No caso de uma mulher, a fórmula costuma invocar os patriarcas e as matriarcas e pedir que Deus conceda proteção, bênção e sucesso. Um dos elementos mais interessantes dessa bênção é o uso do termo Makom (מקום). Embora a palavra signifique literalmente “lugar”, na tradição judaica ela também funciona como um dos nomes de Deus. Entender esse termo ajuda a perceber a profundidade espiritual do momento em que uma mulher é honrada na sinagoga.


O Significado de Makom


No hebraico bíblico, makom significa simplesmente “lugar”. A palavra aparece muitas vezes nas Escrituras para indicar um local físico. Um exemplo conhecido está em Gênesis 28:11, quando Yaakov chega a um lugar onde passará a noite e tem o sonho da escada que liga céu e terra. O texto diz: “Ele encontrou um lugar (vayifga baMakom)”.


Na literatura rabínica, porém, o termo ganha um significado mais profundo. Os sábios chamam Deus de HaMakom, “O Lugar”. O Midrash (Bereshit Rabbah 68:9) explica essa ideia de forma memorável:“Ele é o lugar do mundo, mas o mundo não é o Seu lugar.”


Ou seja, Deus não está limitado a um espaço. Pelo contrário, toda a realidade existe dentro da presença divina. Ao chamar Deus de Makom, os sábios expressam a noção de que o Eterno sustenta toda a criação.


Por isso o termo aparece frequentemente em orações e bênçãos, funcionando como uma forma reverente de se referir a Deus sem usar diretamente o Nome divino.


O Momento da Bênção


Quando uma mulher é chamada para uma honra relacionada à Torah ou ao Shabat, a congregação pode recitar uma bênção pedindo que Deus a abençoe. A fórmula tradicional começa com as palavras:


“Mi sheberach avoteinu Avraham, Yitzchak veYaakov, ve’imoteinu Sarah, Rivká, Rachel veLeá...”
“Aquele que abençoou nossos pais Avraham, Yitzchak e Yaakov, e nossas mães Sarah, Rivká, Rachel e Leá...”

Logo depois aparece a frase:

“בַּעֲבוּר שֶׁעָלְתָה לִכְבוֹד הַמָּקוֹם וְלִכְבוֹד הַתּוֹרָה וְלִכְבוֹד הַשַּׁבָּת”
“Porque ela subiu em honra do Makom, em honra da Torah e em honra do Shabat.”

Aqui, “subir” (alá) refere-se ao ato de aproximar-se da Torah para participar do serviço religioso. Mesmo quando a prática litúrgica varia entre comunidades, a linguagem expressa que a pessoa foi chamada a se aproximar da santidade.


Honra ao Makom


O texto da bênção afirma que a mulher realizou esse ato “em honra do Makom”. Isso significa que a ação não é apenas um gesto social ou cerimonial. Ela é entendida como um ato direcionado à presença divina.


Três elementos aparecem juntos na fórmula:


  • honra ao Makom

  • honra à Torah

  • honra ao Shabat


Essa combinação revela um princípio central da espiritualidade judaica: a santidade se manifesta quando a presença de Deus, o estudo da Torah e o tempo sagrado se encontram.


A Dimensão Espiritual da Bênção


Após reconhecer a honra prestada, a bênção continua pedindo proteção divina:

Que o Santo, bendito seja Ele, a guarde e a salve de toda angústia e aflição, de toda praga e doença, e que envie bênção e sucesso em toda obra de suas mãos.

Essas palavras refletem um padrão comum nas bênçãos judaicas. O mérito de uma ação ligada à santidade — neste caso, participar do serviço da Torah — se torna motivo para pedir proteção e prosperidade.


A comunidade então responde “Amen”, participando coletivamente do desejo de que aquela bênção se cumpra.


O Papel das Matriarcas


Um detalhe significativo dessa fórmula é a menção explícita das matriarcas: Sarah, Rivká, Rachel e Leá. Ao invocar essas figuras, a tradição conecta a mulher que recebe a bênção às fundadoras espirituais do povo de Israel.


Cada uma delas representa aspectos fundamentais da história e da fé judaica:


  • Sarah simboliza fé e hospitalidade.

  • Rivká representa discernimento e continuidade da aliança.

  • Rachel expressa compaixão e intercessão pelo povo.

  • Leá simboliza devoção e gratidão.


Assim, a bênção não apenas pede proteção divina, mas também insere a mulher numa linha espiritual que remonta às origens do povo de Israel.


Makom e Presença Divina


Quando a bênção fala de “honrar o Makom”, ela recorda uma ideia profunda: qualquer lugar pode se tornar um espaço de encontro com Deus. O termo sugere que a santidade não depende apenas de um templo ou de um local específico. Ela se manifesta sempre que uma pessoa se aproxima da Torah com intenção sincera.

Nesse sentido, o momento em que alguém é chamado para uma honra ligada à Torah transforma o espaço da sinagoga em um makom, um lugar de presença divina.


A palavra Makom carrega uma riqueza teológica notável. Literalmente “lugar”, ela se torna na tradição judaica um nome para Deus, expressando a ideia de que toda a realidade existe dentro da presença divina.


Quando uma mulher é chamada para uma honra ligada à Torah e recebe a bênção do Mi Sheberach, a oração afirma que seu gesto foi realizado em honra do Makom, da Torah e do Shabat. Assim, o ato individual se conecta à tradição ancestral, à santidade da Torah e à presença do Eterno.


Nesse momento, a comunidade reconhece que a participação na vida espiritual do povo não é apenas um ritual, mas uma forma de transformar o mundo em um lugar onde a presença divina pode ser percebida.


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