top of page

Comentário da Parashat Bamidbar


Cebolas?


A história do livro de Bamidbar começa num lugar muito difícil: o deserto. Depois de todas as regras que lemos antes, Deus leva o povo para o meio do nada. Mas por quê?


Pense no deserto como um tempo de limpeza.


O povo tinha acabado de sair do Egito, onde eram escravos. É fácil tirar uma pessoa de uma situação ruim, mas é muito difícil tirar a "situação ruim" de dentro da cabeça dela. É como alguém que consegue sair de uma seita ou de uma religião que controlava tudo o que a pessoa pensava e fazia. A pessoa foi embora fisicamente, mas a mente dela ainda está presa naquelas regras antigas. O deserto é esse tempo que a gente precisa para limpar a mente e aprender a ser livre de verdade.


A primeira coisa que acontece no deserto é que Deus manda contar o povo. Nome por nome, família por família.


Às vezes, a gente se sente só um número. Você vai no banco e é apenas uma senha. O mundo de hoje trata a gente como se fôssemos apenas dados em um computador.


Mas Deus faz diferente. Isso lembra muito o que meu avô, de santa memória, fazia. Quando ele ia contar o gado, ele não contava apenas os números, um atrás do outro. Ele chamava cada vaca pelo nome, cada boi, cada bezerro pelo nome. E o mais bonito: ele não marcava o gado com ferro quente, aquele processo doloroso e cruel que muitos fazem. Ele tratava cada um com cuidado, e os animais reconheciam isso. Dava para ver na forma como eles ouviam a voz dele e como aceitavam o seu carinho.


Se até os animais sentem a diferença entre serem tratados como um número ou como uma vida única, imagine nós! Quando Deus manda contar o povo no deserto, a Bíblia diz para "levantar a cabeça" de cada um. É o cuidado de quem chama pelo nome. Para Deus, ninguém é invisível.


Você já reparou o que acontece quando a internet cai ou a TV estraga? Muita gente fica desesperada. A gente não sabe o que fazer com o silêncio.


No Egito, a vida era terrível, mas eles já estavam acostumados. Sabiam a hora de acordar e o que iam comer. A liberdade assusta, porque agora eles têm que decidir o próprio caminho. O deserto é silencioso e não tem distrações.


Hoje, nós usamos o celular e o barulho o tempo todo para não ter que pensar na nossa própria vida. Temos medo do silêncio porque, no silêncio, a gente percebe se está feliz ou não. O deserto nos obriga a olhar para dentro de nós mesmos e perguntar: "Quem sou eu de verdade quando ninguém está me mandando fazer nada?".


No meio do deserto, as doze tribos armavam suas barracas em um círculo perfeito. E o que ficava bem no meio de tudo? O Tabernáculo, que era o lugar de Deus.


O que você coloca no centro da sua vida manda em todo o resto. Se você colocar o dinheiro no centro, você vai acabar passando por cima das pessoas para ficar rico. Se você colocar apenas o trabalho, sua família vai ficar esquecida. Os israelitas aprenderam que, se o respeito a Deus e ao próximo não estiver no centro, a vida vira uma bagunça.


No meio de todo mundo, existia uma tribo chamada Levi. Quando eles finalmente ganharam terras, todo mundo ganhou um pedaço para plantar, menos os levitas. O trabalho deles era cuidar das coisas espirituais, ensinar as crianças e ajudar o povo a não esquecer o que é certo.


Isso ensina que as coisas mais importantes da vida não podem ser compradas. Pense no amor de um pai, no cuidado de quem ajuda um doente, ou na paciência de quem ensina. Uma sociedade que só pensa em ganhar dinheiro e esquece de valorizar quem cuida das pessoas acaba ficando doente por dentro.


A parte mais séria dessa história é que a geração que saiu do Egito não conseguiu entrar na terra nova. Eles viveram e morreram no deserto.


Parece triste, mas pense na vida real: quantos pais trabalham pesado a vida inteira, em serviços difíceis, só para que o filho possa estudar e ter uma vida melhor? Esses pais "viveram no deserto" para que os filhos pudessem "entrar na Terra Prometida".


O deserto não é um castigo por si só. Ele é o lugar onde a gente tira as máscaras, deixa de lado as ideias erradas que nos ensinaram e, finalmente, consegue ouvir a voz de Deus. Às vezes, o vazio que sentimos hoje é apenas o espaço que Deus está limpando para construir algo novo amanhã.


PS: No judaísmo, de verdade, somos convidados a refletir sobre cada coisa. Não só engolir. Mastigar, buscar, entender. Você tem se esforçado nisso? Ou é mais fácil só rolar o feed ou aceitar o que o rabino X ou Y diz? Você se contenta com cebola, precisa de sopinha batida no liquidificador ou está pronto para comida sólida?

Comentários


© 2026 - Brit Brachá Brasil 

Integrando Judeus e Não judeus de Norte a Sul do País

Filiada ao Movimento Judaico Reformista Internacional

Brit Braja Worldwide Jewish Outreach - BBWJO

BRIT BRACHA BRASIL
CNPJ: 19.121.806/0001-66

  • Youtube
  • Instagram
  • Facebook
bottom of page