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A Finitude em Relação às Filosofias das Diferentes Eras, com Ênfase na Filosofia Judaica


A morte de Sócrates
A morte de Sócrates

 Por: Reginaldo Eugênio Ramos Teodoro

 

 Introdução

  

A questão da finitude tem sido uma preocupação central em diversas tradições filosóficas ao longo da história. A noção de finitude envolve a compreensão da limitação inerente à existência humana, seja em termos de tempo de vida, capacidades ou compreensão do universo. Este ensaio explora como diferentes eras filosóficas abordaram o conceito de finitude, com um foco especial na filosofia judaica. A análise considerará perspectivas da filosofia antiga, medieval, moderna e contemporânea. A finitude é muitas vezes um tabu porque confrontar a mortalidade pode gerar ansiedade existencial. A Teoria do Manejo do Terror (TMT) sugere que a consciência da morte inevitável pode causar terror psicológico. Para mitigar essa ansiedade, as pessoas adotam sistemas de crenças culturais e pessoais que dão sentido e valor à vida, proporcionando uma sensação de imortalidade simbólica (PYSZCZYNSKI; GREENBERG; SOLOMON, 1999).

 

Filosofia Antiga

 

Na filosofia antiga, especialmente entre os gregos, a finitude era frequentemente contraposta à ideia de eternidade. Platão, por exemplo, via o mundo sensível como finito e imperfeito, em contraste com o mundo das Ideias, que era eterno e perfeito (PLATÃO, 2000). Em "Fédon", Platão discute a imortalidade da alma e a natureza finita do corpo humano, sugerindo que a verdadeira essência do ser reside na sua parte imortal.

 

Aristóteles, por outro lado, abordou a finitude de maneira mais pragmática. Em suas "Metafísicas", ele aceita a finitude do ser humano, mas introduz a ideia de ato e potência, onde a realização das potencialidades pode dar sentido à vida finita (ARISTÓTELES, 2002). A noção de telos (fim, objetivo) em Aristóteles implica que a vida humana é direcionada para um propósito, mesmo que dentro de seus limites temporais.

 

 Filosofia Medieval

 

Na filosofia medieval, a finitude humana é frequentemente vista à luz das doutrinas teológicas. Santo Agostinho, por exemplo, desenvolveu uma visão cristã da finitude em suas "Confissões" e "Cidade de Deus". Ele argumenta que a finitude humana é uma consequência do pecado original, mas também uma oportunidade para a salvação através da graça divina (AGOSTINHO, 2006).

 

Tomás de Aquino, influenciado por Aristóteles, harmoniza a razão e a fé ao discutir a finitude. Para Aquino, a vida humana é finita, mas é uma preparação para a eternidade. A finitude é um estágio transitório onde o ser humano busca a união com Deus (AQUINO, 2007).

 

 Filosofia Moderna

  

A era moderna trouxe novas perspectivas sobre a finitude, frequentemente marcada pelo avanço da ciência e a secularização da sociedade. René Descartes, um dos principais filósofos modernos, ao duvidar de todas as coisas para encontrar a certeza, reconheceu a finitude do conhecimento humano (DESCARTES, 1996).

 

Immanuel Kant discutiu a finitude em termos epistemológicos e morais. Em "Crítica da Razão Pura", ele argumenta que a razão humana é limitada e não pode conhecer a coisa em si (noumeno), mas apenas os fenômenos (KANT, 1999). Em "Crítica da Razão Prática", Kant aborda a moralidade como uma forma de lidar com a finitude humana, propondo que a ação ética deve ser guiada por imperativos categóricos, independentemente da busca pela felicidade eterna.

  

Filosofia Contemporânea

  

A filosofia contemporânea vê a finitude de maneira multifacetada, incorporando existencialismo, fenomenologia e pós-modernismo. Heidegger, um dos principais filósofos existencialistas, explorou a finitude em "Ser e Tempo". Ele introduz o conceito de ser-para-a-morte, onde a consciência da finitude é fundamental para a autenticidade da existência (HEIDEGGER, 1996).

 

Jean-Paul Sartre, outro existencialista, também abordou a finitude, mas com ênfase na liberdade e responsabilidade. Para Sartre, a vida humana é absurda e finita, mas é precisamente essa finitude que dá significado às escolhas individuais (SARTRE, 2007).

 

Em contraste, filósofos pós-modernos como Foucault questionaram as narrativas totalizantes e a noção de um sujeito fixo, propondo que a finitude é um constructo discursivo que pode ser deconstruído (FOUCAULT, 2008).

  

Psicologia Cognitiva e a Psiquê

 

Freud e seguidores da psicanálise argumentaram que a consciência da finitude e da morte ativa mecanismos de defesa inconscientes, como a repressão e a negação. A negação da morte pode manifestar-se em comportamentos que evitam o pensamento sobre a mortalidade, levando as pessoas a se concentrar em atividades que distraem da inevitabilidade da morte (PYSZCZYNSKI; GREENBERG; SOLOMON, 1999, p. 835-845).

 

Estudos em psicologia positiva indicam que reconhecer e aceitar a finitude pode, paradoxalmente, aumentar a resiliência e o bem-estar. Viktor Frankl, em sua obra "Em Busca de Sentido", argumenta que a consciência da finitude pode motivar as pessoas a buscar um propósito significativo na vida, o que pode melhorar a saúde mental e o bem-estar (FRANKL, 2006).

 

A consciência da finitude também afeta a tomada de decisões e a definição de prioridades. A Teoria da Perspectiva Temporal sugere que quando as pessoas têm um horizonte temporal limitado, elas tendem a valorizar mais as experiências emocionais positivas e as relações interpessoais (CARSTENSEN, 2006). Isso pode explicar por que pessoas mais velhas, que estão mais conscientes de sua mortalidade, frequentemente priorizam relações significativas sobre conquistas materiais.

 

Na prática clínica, abordar a finitude pode ser uma parte importante do tratamento, especialmente em terapias existenciais. Irvin Yalom, um destacado psicoterapeuta existencial, argumenta que confrontar a finitude pode ajudar os pacientes a viver de maneira mais autêntica e plena (YALOM, 1980). No entanto, essa abordagem pode ser tabu em culturas onde falar sobre a morte é evitado ou considerado inapropriado. Culturalmente, muitas sociedades evitam discussões abertas sobre a morte, o que pode dificultar o trabalho terapêutico relacionado à finitude. Essa evitação cultural pode criar desafios para psicólogos ao tentar ajudar os pacientes a lidar com o medo da morte e a encontrar significado em suas vidas finitas (FRANKL, 2006).

 

 Filosofia Judaica

  

A filosofia judaica tem uma abordagem única em relação à finitude, entrelaçando teologia, ética e metafísica. Desde os textos bíblicos até os filósofos contemporâneos, a finitude é vista através da relação do ser humano com Deus, a comunidade e a lei moral.

  

Textos Bíblicos e Rabínicos

  

Os textos bíblicos frequentemente reconhecem a finitude humana em face da eternidade de Deus. No livro de Eclesiastes, por exemplo, há uma reflexão profunda sobre a transitoriedade da vida e a busca pelo sentido (BÍBLIA, Eclesiastes 1:2).

 

Os rabinos da era talmúdica também abordaram a finitude, enfatizando a importância das ações éticas dentro do tempo limitado da vida humana. O Talmud contém discussões sobre a brevidade da vida e a necessidade de usar o tempo de maneira sábia para cumprir os mandamentos de Deus (TALMUD, Tractate Avot 2:15).

  

Maimônides

 

Maimônides foi uma figura central na filosofia judaica medieval. Sua obra "Guia dos Perplexos" explora a finitude do intelecto humano e a infinitude divina, argumentando que a verdadeira sabedoria reside em reconhecer os limites do conhecimento humano e buscar uma vida ética (MAIMÔNIDES, 2009).

  

Martin Buber

  

No século XX, Martin Buber trouxe uma nova perspectiva para a filosofia judaica com sua obra "Eu e Tu". Buber argumenta que a finitude humana é superada através das relações genuínas entre pessoas e entre o ser humano e Deus. Essas relações, chamadas de encontros Eu-Tu, permitem uma transcendência momentânea da finitude (BUBER, 1977).

 

Martin Buber, um dos principais filósofos do diálogo do século XX, aborda a finitude e a morte principalmente dentro do contexto de suas ideias sobre o relacionamento dialógico do Eu com o Tu abstrato ou real. Em sua obra seminal "Eu e Tu" (Ich und Du), Buber examina a natureza das relações humanas e a forma como elas influenciam nossa percepção da realidade e da existência. Para Buber, a finitude está profundamente ligada à nossa capacidade de estabelecer relações genuínas e autênticas. Ele faz uma distinção clara entre dois modos de relacionamento: o "Eu-Tu" e o "Eu-Isso". No relacionamento "Eu-Tu", o indivíduo se relaciona com o outro de maneira direta e autêntica, reconhecendo a alteridade e a singularidade do outro. Este tipo de relação é vivido no presente, sem mediações ou reduções utilitárias, e permite uma conexão plena e significativa (BUBER, 1977).

 

Em contraste, o relacionamento "Eu-Isso" trata o outro como um objeto a ser utilizado, categorizado ou instrumentalizado. É uma relação mediada e funcional, que não reconhece plenamente a individualidade do outro. A finitude, segundo Buber, é um componente inevitável da condição humana que se revela na qualidade das nossas relações. Quando vivemos relações "Eu-Tu", abraçamos a finitude de forma mais plena, reconhecendo nossa própria mortalidade e a do outro, e valorizando o presente de uma forma mais intensa. A morte, na filosofia de Buber, é o ponto culminante da nossa finitude e, paradoxalmente, também pode ser um momento de revelação profunda. Buber sugere que a morte de um ser querido pode ser uma experiência de encontro "Eu-Tu" no sentido mais profundo. A presença da morte e o confronto com a mortalidade nos convidam a considerar a vida sob uma nova perspectiva, destacando a importância das relações autênticas e do encontro genuíno. Ele acredita que a consciência da morte pode intensificar a profundidade das relações "Eu-Tu". No reconhecimento da mortalidade, há um chamado para a autenticidade e para o compromisso com o presente, com o outro e com a própria vida. Dessa forma, a morte não é apenas uma cessação, mas um momento que pode provocar uma intensificação da vida, um chamado ao verdadeiro encontro e à verdadeira presença. A abordagem de Buber à finitude e à morte é uma parte integral de sua filosofia do diálogo e da relação. Ele nos convida a ver a vida e a morte não como opostos absolutos, mas como partes de um todo contínuo que se revela nas relações humanas. A finitude nos lembra da preciosidade do momento presente e da importância de viver de maneira autêntica e plena. Para Buber, então, enfrentar a finitude e a morte é, em última análise, enfrentar a vida com honestidade e abertura, buscando sempre o encontro verdadeiro e a relação genuína com os outros. (BUBER, 1977)

  

Emmanuel Lévinas

  

Emmanuel Lévinas, um dos principais filósofos judaicos contemporâneos, aborda a finitude através da ética da alteridade. Em suas obras "Totalidade e Infinito" e "Entre Nós", Lévinas argumenta que a finitude humana é reconhecida e respeitada na relação ética com o outro. A finitude não é uma limitação negativa, mas uma condição que permite a responsabilidade ética (LÉVINAS, 1998).

 

Para Lévinas, a finitude é intrinsecamente ligada à experiência do Outro. Ele acredita que o reconhecimento da finitude própria e do Outro é um ponto de partida para a ética. Ao nos confrontarmos com a face do Outro, somos lembrados de nossa própria vulnerabilidade e mortalidade. A face do Outro revela sua finitude e, ao mesmo tempo, evoca uma resposta ética de responsabilidade infinita. Essa relação com o Outro é assimétrica e marcada por uma abertura que transcende o ser. A finitude humana, portanto, é vista não apenas como uma limitação temporal ou espacial, mas como uma condição fundamental que possibilita a responsabilidade e o compromisso ético. A alteridade do Outro nos chama a sair de nós mesmos, a transcender nossa própria finitude em direção a uma responsabilidade que não tem fim. A morte, para Lévinas, é uma dimensão que não pode ser compreendida plenamente pelo sujeito isolado. Diferente da visão existencialista, onde a morte é vista como o fim último da individualidade, Lévinas vê a morte através do prisma da relação com o Outro. A morte do Outro é um evento que nos confronta com a nossa própria finitude e nos impele a responder eticamente.  Lévinas argumenta que a morte do Outro é uma interrupção radical que desafia nosso ser e nosso poder. Esse encontro com a morte do Outro não é apenas uma experiência de perda, mas uma chamada ética à responsabilidade. Na presença da morte, somos lembrados de que nossa vida é finita, mas que nossa responsabilidade para com o Outro transcende essa finitude (LÉVINAS, 1998).

 

Um conceito central na filosofia de Lévinas relacionado à finitude é a "substituição". Ele argumenta que na experiência ética, o eu é chamado a substituir o Outro, a tomar sobre si a responsabilidade que originalmente pertencia ao Outro. Isso não significa anular a alteridade do Outro, mas assumir uma responsabilidade infinita que vai além da própria finitude. Essa ideia de substituição reflete a profundidade da responsabilidade ética que Lévinas vê como fundamental para a condição humana. A finitude do eu é, assim, a base a partir da qual se pode entender a responsabilidade infinita pelo Outro. Para Emmanuel Lévinas, a finitude não é apenas uma limitação existencial, mas um ponto de partida para a ética. Ao reconhecer nossa própria finitude e a do Outro, somos chamados a uma responsabilidade que transcende o ser. A morte do Outro, em particular, nos confronta com uma interrupção radical que exige uma resposta ética (LÉVINAS, 1998).

  

Conclusão

  

A questão da finitude é central em diversas tradições filosóficas, cada uma abordando-a de maneiras distintas. A filosofia antiga contrapôs a finitude à eternidade, a filosofia medieval a contextualizou teologicamente, a moderna destacou suas implicações epistemológicas e morais, e a contemporânea a explora em termos existenciais e éticos. A finitude é um conceito que pode ser difícil de enfrentar tanto em nível individual quanto cultural. Na psicologia cognitiva e nas práticas clínicas, é reconhecida tanto como uma fonte potencial de ansiedade quanto como um catalisador para a busca de significado e autenticidade. Confrontar a finitude, embora desconfortável, pode levar a uma maior profundidade de compreensão psicológica e bem-estar emocional. Na filosofia judaica, a finitude é entendida em relação à divindade, à ética e à comunidade, fornecendo uma visão rica e multifacetada sobre a limitação humana.

 

 

 

Referências Bibliográficas 

 

  1. ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Eudoro de Souza. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

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  9. KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.

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  17. PYSZCZYNSKI, T.; GREENBERG, J.; SOLOMON, S. A dual-process model of defense against conscious and unconscious death-related thoughts: An extension of terror management theory. Psychological Review, v. 106, n. 4, p. 835-845, 1999.

  18. YALOM, I. D. Existential Psychotherapy. New York: Basic Books, 1980.

 


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