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Parashat Re'eh: Escolhendo a Bênção em Tempos Difíceis


 

"Vejam! Hoje coloco diante de vocês a bênção e a maldição."

(Deuteronômio 11:26)

 

A primeira palavra da parashá desta semana é extraordinária. Moisés não diz: "Escutem" nem "Acreditem". Ele diz: "Vejam."

 

Ver é diferente de simplesmente olhar. Podemos olhar para muitas coisas sem realmente compreendê-las. Mas quando enxergamos de verdade, entendemos o significado do que está diante de nós.

 

E o que vemos hoje?

 

Vemos famílias trabalhando tanto quanto sempre trabalharam, mas preocupadas com o preço dos alimentos no supermercado, com o combustível que pesa no orçamento e com o custo de vida que parece aumentar mais rápido do que os salários. Vemos jovens que sonham com a casa própria, mas não sabem quando esse sonho poderá se tornar realidade. Vemos aposentados tentando fazer seus rendimentos alcançarem até o fim do mês. Vemos empresários inseguros para investir e trabalhadores receosos quanto ao futuro.

 

Também vemos um mundo cada vez mais instável. A guerra envolvendo o Irã nos lembra que a paz nunca pode ser considerada garantida. Cada novo conflito gera sofrimento para pessoas inocentes e aumenta a preocupação com a segurança de Israel, do Oriente Médio e de toda a comunidade internacional. Como judeus, rezamos pela proteção daqueles que vivem sob ameaça, pela sabedoria dos governantes e pelo dia em que as espadas sejam transformadas em arados.

 

Mas talvez o maior desafio de nosso tempo não seja apenas econômico ou militar.

 

Talvez seja um desafio moral.

 

Estamos perdendo a capacidade de discordar com respeito.

 

Diferenças políticas rompem amizades e dividem famílias. As redes sociais recompensam a indignação, a ironia e os insultos, enquanto a escuta e o diálogo se tornam cada vez mais raros. Muitas vezes deixamos de perguntar: "Isso é verdadeiro?" para perguntar apenas: "Isso favorece o meu lado?"

 

A Torá compreendeu esse perigo há milhares de anos.

 

Logo depois de nos apresentar a escolha entre bênção e maldição, a Parashat Re'eh fala de justiça, de responsabilidade social e da obrigação de cuidar dos mais vulneráveis.

 

Por quê?

 

Porque a bênção não é apenas algo que recebemos.

 

A bênção é algo que construímos.

 

A Torá nos ensina:

 

"Nunca deixarão de existir pessoas necessitadas em sua terra; por isso eu lhes ordeno: abram generosamente a mão para seu irmão, para o pobre e para o necessitado."

 

Percebam o que a Torá não promete.

 

Ela não promete uma economia perfeita.

 

Ela não promete que nunca haverá crises.

 

Ela não promete que todos terão exatamente as mesmas oportunidades.

 

O que ela promete é que sempre teremos a possibilidade de escolher como responderemos às dificuldades.

 

O valor de uma sociedade não é medido pela ausência de crises.

 

É medido pela forma como ela trata os mais vulneráveis quando as crises chegam.

 

Nossos sábios ensinaram que "o mundo se sustenta sobre três pilares: a justiça, a verdade e a paz."

 

Quando um desses pilares enfraquece, os outros também começam a balançar.

 

Os desafios econômicos despertam o medo.

 

O medo diz que não haverá o suficiente para todos.

 

O medo nos leva a pensar apenas em nós mesmos.

 

O medo fecha nossas mãos.

 

A Torá nos convida a fazer exatamente o contrário.

 

Abram suas mãos.

 

Não porque os recursos sejam infinitos.

 

Mas porque a generosidade produz uma riqueza que nenhum índice econômico consegue medir.

 

Quando ajudamos uma família em dificuldade...

 

Quando nossa comunidade acolhe quem está desempregado...

 

Quando oferecemos nosso tempo, nosso conhecimento e nossos recursos...

 

Criamos bênçãos que nenhuma inflação pode destruir.

 

A guerra envolvendo o Irã também nos ensina outra verdade.

 

A segurança é indispensável.

 

Israel tem o direito — e a obrigação — de defender sua população diante daqueles que proclamam seu desejo de destruí-lo. A tradição judaica afirma: "Se alguém vier para matá-lo, levante-se primeiro para defender-se."

 

A autodefesa é uma responsabilidade moral.

 

Ao mesmo tempo, nossa tradição nunca deixou de sonhar com a paz.

 

Rezamos para que chegue o dia em que não seja mais necessário lutar porque a reconciliação terá substituído o ódio.

 

Sustentar ao mesmo tempo a firmeza e a compaixão talvez seja um dos maiores desafios éticos do judaísmo.

 

Há ainda outro aspecto que merece nossa atenção.

 

Vivemos um momento em que a convivência democrática parece mais frágil.

 

O Brasil sempre foi conhecido pela diversidade de seu povo. Pensamos diferente, votamos diferente, temos histórias e culturas diferentes. Isso não deveria ser uma fraqueza; deveria ser uma riqueza.

 

Infelizmente, muitas vezes permitimos que as diferenças políticas nos impeçam de enxergar a humanidade do outro.

 

A Mishná nos conta sobre os grandes debates entre as escolas de Hilel e Shamai.

 

Eles discordavam profundamente.

 

Mas continuavam convivendo.

 

Casavam seus filhos entre si.

 

Compartilhavam refeições.

 

Respeitavam-se.

 

Suas divergências eram uma machloket leshem shamáyim — uma discussão em nome do Céu, na busca sincera pela verdade.

 

Será que conseguimos fazer o mesmo?

 

Será que conseguimos defender nossas convicções sem humilhar quem pensa diferente?

 

Será que conseguimos discutir ideias sem destruir relacionamentos?

 

Será que conseguimos impedir que a política ocupe o lugar que pertence apenas aos nossos valores mais profundos?

 

A Parashat Re'eh nos lembra que todos os dias somos chamados a fazer escolhas.

 

Não apenas entre o certo e o errado.

 

Mas entre a bênção e a maldição.

 

Entre o medo e a solidariedade.

 

Entre o ressentimento e a esperança.

 

Entre o desprezo e o respeito.

 

A bênção não pertence apenas aos mais ricos ou aos mais poderosos.

 

A bênção pertence àqueles que escolhem a esperança em vez do cinismo.

 

Àqueles que escolhem a generosidade em vez do egoísmo.

 

Àqueles que escolhem a dignidade em vez da humilhação.

 

A palavra Re'eh está no singular.

 

Moisés fala a cada um de nós.

 

Você veja.

 

Você escolha.

 

O futuro de nossas famílias...

 

De nossas comunidades...

 

Do Brasil...

 

E até mesmo do povo judeu...

 

Será construído pelas escolhas que fazemos todos os dias.

 

Vou contribuir para a divisão ou para a reconciliação?

 

Vou espalhar indignação ou compreensão?

 

Vou fechar minha mão ou abri-la?

 

Vou escolher a bênção?

 

O judaísmo reformista nos ensina que a revelação não terminou no Monte Sinai.

 

Ela continua sempre que homens e mulheres escolhem a justiça, a compaixão e a dignidade humana.

 

Cada ato de solidariedade revela a presença de Deus.

 

Cada conversa respeitosa revela a presença de Deus.

 

Cada gesto de paz revela a presença de Deus.

 

É assim que a bênção entra no mundo.

 

Ao deixarmos esta sinagoga, os desafios econômicos provavelmente continuarão.

 

Os conflitos internacionais ainda existirão.

 

As divisões políticas também.

 

Mas Moisés nos lembra que há algo que ninguém pode tirar de nós.

 

Nossa capacidade de escolher.

 

Que escolhamos a solidariedade em vez do medo.

 

Que escolhamos o respeito em vez do desprezo.

 

Que escolhamos a esperança em vez do desânimo.

 

E que, todos os dias, escolhamos a bênção.

 

Shabat Shalom.

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