Parashat Behar com o Rabino Jacques Cukierkorn
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 1 dia
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Esta semana, a parashá *Behar* se abre no Monte Sinai com um lembrete marcante:
“E falou o Eterno a Moisés no Monte Sinai…”
(Levítico 25:1)
Rashi pergunta: por que enfatizar o Monte Sinai aqui? Acaso não foram todos os mandamentos dados no Sinai? Sua resposta é que, assim como as leis do ano sabático foram dadas com todos os seus detalhes no Sinai, assim também foram todas as mitzvot.
Mas talvez haja algo mais profundo.
Porque o que vem a seguir não é apenas mais uma lei ritual. É uma das visões sociais mais ousadas da Torá.
A terra deve descansar a cada sete anos. As dívidas são canceladas. E depois de sete ciclos de sete, no quinquagésimo ano — o Jubileu — todas as terras retornam aos seus donos originais.
“A terra não será vendida para sempre, porque a terra é Minha; vocês são estrangeiros e residentes comigo”
(Levítico 25:23).
Isso não é apenas agricultura. É teologia.
E também é um alerta sobre o poder.
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Esta semana, não pude deixar de pensar nisso ao assistir à nova adaptação cinematográfica de A Revolução dos Bichos de George Orwell.
Muitos de nós conhecemos a história. Uma revolução começa com um sonho de igualdade: todos os animais iguais, todos compartilhando o fruto do seu trabalho.
Mas lentamente, quase imperceptivelmente, o poder se concentra. Os porcos começam a controlar os recursos. Controlam a informação. E finalmente, controlam a própria verdade.
O que começou como libertação se transforma em uma nova forma de opressão.
E a frase mais assustadora permanece:
“Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros.”
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A Torá, em *Behar*, parece antecipar exatamente essa tendência humana.
Porque qual é o perigo em qualquer sociedade?
Não é apenas a tirania imposta de fora. É a desigualdade que cresce silenciosamente, até parecer normal.
A terra se acumula. A riqueza se concentra. Os pobres ficam presos. Os poderosos começam a acreditar que o que possuem lhes pertence por direito — para sempre.
E então a Torá intervém.
A cada sete anos — a terra descansa.
A cada cinquenta anos — tudo recomeça.
Por quê?
Porque a Torá entende algo fundamental: sem correções periódicas, a desigualdade se torna destino.
E o destino se torna justificativa.
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Conta-se uma história hassídica sobre Rabbi Menachem Mendel de Kotzk. Alguém lhe perguntou: “Onde está Deus?”
Ele respondeu: “Onde quer que você O deixe entrar.”
Mas podemos acrescentar: Deus está presente onde nos recusamos a absolutizar o poder humano.
Em *A Revolução dos Bichos*, os porcos passam a acreditar que a fazenda lhes pertence. Em *Behar*, Deus declara: “A terra é Minha.”
Essa única frase é revolucionária.
Significa:
Ninguém possui de forma absoluta
Nenhum sistema está acima de questionamento
Nenhuma hierarquia é permanente
Tudo o que “possuímos” é, na verdade, algo que nos foi confiado.
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Os rabinos do Talmud levam essa ideia ainda mais longe. Eles ensinam que quem envergonha outra pessoa em público é como se derramasse sangue.
Por que uma afirmação tão forte?
Porque a dignidade, assim como a terra e a liberdade, não nos pertence para tirá-la de outra pessoa.
O poder deve sempre ser limitado pela consciência de que cada ser humano carrega a imagem de Deus.
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Há outro ensinamento hassídico, de Rabbi Zusha de Anipoli, que disse: “Quando eu morrer, não me perguntarão por que não fui Moisés. Perguntarão por que não fui Zusha.”
À primeira vista, trata-se de individualidade. Mas, mais profundamente, é um protesto silencioso contra sistemas que apagam as pessoas, que transformam indivíduos em ferramentas.
Na fazenda de Orwell, os animais perdem sua individualidade. Tornam-se unidades de trabalho. Suas vozes desaparecem.
Na visão da Torá, cada pessoa importa. Cada família recupera sua terra. Cada indivíduo tem um lugar para onde voltar.
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E ainda assim, se formos honestos, *Behar* não é fácil.
O ano sabático exige confiança. O Jubileu exige desapego. Pede aos que têm poder que o liberem.
Pede aos que têm riqueza que reconheçam seus limites.
Pede a todos nós que acreditemos que uma sociedade justa é mais importante do que uma hierarquia estável.
Isso não é natural.
Por isso a Torá fundamenta esse mandamento não na economia, mas no Sinai.
Porque a justiça não é apenas uma política — é uma aliança.
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Então, o que isso significa para nós hoje?
Talvez não observemos o Jubileu literalmente. Mas o seu espírito nos desafia:
Onde, em nossa sociedade, a desigualdade se tornou “normal”?
Onde vemos sistemas que começaram com boas intenções, mas agora servem apenas a poucos?
Onde somos tentados a reescrever os “mandamentos” para justificar o que nos beneficia?
E talvez o mais importante:
Como criamos momentos de reinício — espaços onde restauramos, redistribuímos e lembramos?
Porque, se não os criarmos intencionalmente, a história nos mostra que eles virão de formas dolorosas.
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Em *A Revolução dos Bichos*, a tragédia não é apenas que a revolução falha.
É que ninguém a impede.
Ninguém exige responsabilidade.
Ninguém preserva a visão original.
Ninguém diz: isso não é o que pretendíamos.
A Torá não deixa isso ao acaso.
Ela incorpora a justiça no próprio tempo.
A cada sete anos.
A cada cinquenta anos.
Um lembrete: o mundo não nos pertence — nós pertencemos a ele, e uns aos outros.
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Que tenhamos a coragem de questionar os sistemas em que vivemos.
Que tenhamos a humildade de reconhecer que o que temos não é absoluto.
E que construamos comunidades onde a igualdade não seja apenas um slogan — mas uma estrutura.
Para que nunca cheguemos ao ponto de dizer, nem mesmo com ironia:
“Todos são iguais — mas alguns são mais iguais do que outros.”
Porque, na visão da Torá, há apenas uma verdade:
Somos todos seres humanos, criados à imagem de Deus,
e a terra, e a dignidade que compartilhamos, pertencem, em última instância, ao Santo.
**Shabat Shalom.**




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