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A porta que se abre - Sermão para Shemini Atzeret / Simchat Torá

há 51 minutos
5 min de leitura

Shabat, 3 de outubro de 2026 · 22 de Tishrei de 5787

Rabino Jacques Cukierkorn


Shaná tová, queridos amigos.


Imagine uma casa com uma porta tão forte que ninguém consegue entrar. Seu dono está orgulhoso: comprou a melhor fechadura, instalou alarmes, verificou cada janela. Certa noite, ele passa mal, cai no chão e precisa de ajuda. Os vizinhos o escutam, mas não conseguem chegar até ele. Aquela porta, que deveria protegê-lo, tornou-se uma barreira.

É uma parábola, não uma notícia. Mas nos deixa uma pergunta muito real: quando aquilo que nos protege começa a nos isolar? E quando a salvação começa, justamente, ao abrir uma porta?


Esta semana essa pergunta ganhou uma urgência terrível. Na quarta-feira, 30 de setembro, o voo FZ1073 da Flydubai, de Dubai a Tel Aviv, sofreu um episódio violento na cabine de comando e fez um pouso de emergência em Tabuk, na Arábia Saudita. Segundo relatos de passageiros e declarações das autoridades israelenses publicados pela imprensa, um piloto feriu o outro e teria tentado provocar a queda do avião. O comandante ferido abriu a porta da cabine, permitindo a intervenção de passageiros e tripulantes. O avião conseguiu pousar e os passageiros chegaram depois a Israel em outro voo.


A investigação continua. Ainda não conhecemos todos os fatos nem podemos apresentar a motivação do ataque como algo estabelecido. Não precisamos preencher os silêncios da investigação para reconhecer o medo vivido por aquelas pessoas e agradecer que tenham voltado com vida.


Não vou comparar uma cabine de avião com uma sinagoga como se fossem a mesma coisa. Nem transformar uma tragédia evitada em uma ilustração cômoda. Mas quero me deter naquela porta. Um homem ferido permitiu que outros entrassem. Nos relatos disponíveis, salvar-se foi uma tarefa compartilhada.


Este Shabat é Shemini Atzeret e, em nossa tradição reformista, também Simchat Torá. Não estamos lendo uma parashá semanal comum. Terminamos a Torá com a bênção e a morte de Moisés e voltamos imediatamente a Bereshit, ao relato da criação.


Que maneira estranha de celebrar. Dançamos com um livro que acabou de nos lembrar que nem mesmo Moisés pode fazer tudo.


Em Deuteronômio 34, Moisés contempla a terra, mas não entra nela. O povo chora sua morte. Depois Josué assume a responsabilidade; a Torá lembra que Moisés havia imposto suas mãos sobre ele. A história continua, mas não porque Moisés seja substituível como a peça de uma máquina. Continua porque uma vida pode transmitir a outra aquilo que não conseguirá completar.


Moisés também não foi perfeito. Em Números 20, perde a paciência com o povo e golpeia a rocha. A Torá preserva o episódio. Não o apaga para proteger a reputação de seu protagonista. Podemos honrar uma pessoa sem fingir que ela nunca errou.

Ainda bem. Se fosse preciso ser perfeito para subir a este púlpito, vocês teriam muito mais tempo livre aos sábados.


A primeira lição é esta: pedir ajuda não é abandonar a responsabilidade. Às vezes é a maneira mais responsável de exercê-la.


Há uma frase que dizemos quase automaticamente: "Eu consigo sozinho". Às vezes quer dizer "não quero incomodar". Às vezes quer dizer "tenho vergonha de que saibam como estou". E às vezes é orgulho com uma gravata bastante respeitável.


A Torá termina com um líder que não termina o caminho. E o povo segue. Não temos menos valor porque precisamos que outra pessoa sustente parte do peso. Se hoje você está esgotado, doente ou sobrecarregado, talvez seu primeiro ato de coragem não seja cerrar os dentes. Talvez seja dizer: "Preciso que você me acompanhe".


Kohelet expressa isso sem grandes discursos:

"Melhor serem dois do que um... porque, se caírem, um levanta o outro"

(Eclesiastes 4:9-10)

Não promete que não vamos cair. Convida-nos a não cair sozinhos.


A segunda lição é que a responsabilidade não termina na borda de nosso assento.

O Talmud, em Sanhedrin 73a, pergunta o que deve fazer quem vê uma pessoa se afogando, sendo atacada por um animal ou por assaltantes. Responde com Levítico 19:16: "Não permaneça indiferente diante do sangue de seu próximo". E acrescenta algo importante: ajudar pode incluir procurar e contratar quem possa resgatá-la.


Não é uma ordem para agir sem preparo ou para nos expormos inutilmente. Também não é um manual de intervenção em um avião. É uma exigência de não nos tornarmos espectadores quando podemos fazer algo útil: avisar, chamar a emergência, buscar ajuda competente, acompanhar.



Na vida cotidiana quase nunca precisamos abrir uma cabine em pleno voo. Precisamos ouvir uma frase preocupante. Perceber que alguém deixou de vir. Perguntar novamente quando o primeiro "estou bem" não parece ser toda a verdade. Às vezes o que salva uma pessoa é que outra não se contente em passar direto.


E ninguém precisa demonstrar heroísmo para merecer cuidado. Quem ficou paralisado de medo naquele avião não vale menos do que quem conseguiu agir. Agradecer a coragem de alguns não significa julgar a reação dos demais.


A terceira lição aparece quando terminamos Deuteronômio e abrimos Gênesis. Depois da morte de Moisés, voltamos a um mundo em que todo ser humano é criado à imagem de Deus (Gênesis 1:27).


Não diz: somente quem fala minha língua. Não diz: somente quem reza como eu. A dignidade humana não depende do passaporte.


Nesse voo havia pessoas viajando para Israel; o pouso seguro ocorreu na Arábia Saudita; ali os feridos receberam atendimento hospitalar. Não precisamos negar os conflitos do mundo para reconhecer esses fatos. Também não devemos transformar a conduta de um indivíduo em um veredito sobre um povo ou uma religião.


Proteger a vida judaica exige levar as ameaças a sério. E justamente por isso precisamos de precisão: investigar responsabilidades concretas, não distribuir culpas coletivas. A vigilância não precisa de ódio para ser firme.


Há uma quarta lição, mais silenciosa: depois de chegarmos a salvo, ainda precisamos aprender a ficar.


Rashi, ao comentar Levítico 23:36, explica Shemini Atzeret com uma imagem da tradição rabínica: um rei celebra com seus filhos e, quando estão prestes a partir, pede que fiquem mais um dia, porque a separação lhe é difícil. É uma parábola do amor, não uma crônica histórica.


"Fique mais um pouco". Que pedido tão pequeno. E como pode ser difícil atendê-lo.

Depois das festas voltamos às nossas agendas. Depois de uma crise queremos declarar que tudo acabou. Mas um pouso seguro não apaga o terror vivido. A pessoa que sobreviveu pode precisar de tempo, atenção e companhia. A gratidão não obriga ninguém a estar bem imediatamente.


Shemini Atzeret nos convida a não sair depressa demais da vida do outro. Yizkor, a lembrança de nossos entes queridos, também nos ensina que amar é abrir espaço para uma ausência, sem exigir que a dor termine de acordo com nosso calendário.

Então, o que levamos deste Shabat para a semana?


Uma porta que possamos abrir para pedir ajuda. Uma ligação que não adiemos a quem precisa de companhia. Uma decisão concreta de ajudar sem esperar aplausos. E o cuidado com nossas palavras, para que o medo não nos tire a capacidade de enxergar outro ser humano.


Não temos todos as mesmas forças nem podemos fazer as mesmas coisas. Você pode começar com algo pequeno e verdadeiro. Pergunte: "Quer que eu fique um pouco?". Ou diga: "Hoje preciso que você fique comigo".


A Torá termina com a morte de Moisés. Mas nós não fechamos o rolo e vamos embora. Nós o abrimos novamente. Não porque nada tenha acontecido, mas porque, depois de tudo o que aconteceu, ainda há vida para cuidar e um mundo que podemos ajudar a criar.

Que saibamos abrir a porta antes de ficarmos sozinhos atrás dela. Que tenhamos a coragem de ajudar e a humildade de aceitar ajuda. Que honremos quem já não está aqui cuidando de quem permanece.


E que a alegria da Torá não seja uma maneira de escapar da vida, mas uma maneira de voltar a ela com as mãos abertas.


Shabat shalom. Chag sameach. Shaná tová.


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