Parashat Tzav com Rabino Jacques Cukierkorn
- Rabino Jacques Cukierkorn

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Nesta semana, a porção da Torá, Parashat Tzav, começa com um mandamento que parece simples, quase silencioso:
“Esh tamid tukad al hamizbeach, lo tichbeh.” Um fogo perpétuo deverá permanecer aceso sobre o altar; não se apagará.
Um fogo que nunca deve se apagar.
E podemos nos perguntar: por que esse detalhe? Por que a Torá enfatiza essa chama constante?
Mas ao nos aproximarmos de Pessach, essa imagem começa a ganhar um significado mais profundo.
Porque Pessach também é uma história de fogo.
Não apenas o fogo dramático da sarça ardente, nem a coluna de fogo que guiou nossos antepassados no deserto, mas um fogo mais silencioso: aquele que arde dentro da alma humana.
O fogo da esperança. O fogo da identidade. O fogo que se recusa a se apagar, mesmo nos momentos mais escuros.
Nossa tradição ensina algo notável sobre esse fogo no altar. O Talmud nos diz que, mesmo quando um fogo celestial descia, os sacerdotes ainda precisavam trazer lenha todos os dias. O milagre não substituía a responsabilidade humana; ele a exigia.
Deus pode acender a chama, mas cabe a nós mantê-la viva.
E essa é a história do povo judeu.
Nunca sobrevivemos apenas de milagres. Nós construímos, agimos, comparecemos. Nós alimentamos o fogo.
Pessach conta a história de um povo escravizado e oprimido, mas ainda assim capaz de caminhar rumo à liberdade. Mas o Êxodo não começou quando Moisés enfrentou o faraó. Começou muito antes.
Começou no momento em que um escravo se recusou a deixar que seu fogo interior se apagasse.
Começou quando alguém sussurrou: “Este não é o fim da nossa história.”
E é por isso que essa mensagem é tão urgente hoje.
Vivemos em um tempo em que o mundo parece instável. O antissemitismo não desapareceu; ele ressurgiu de formas dolorosas. O Estado de Israel vive sob constante tensão, enfrentando ameaças e incertezas. Lemos as notícias e sentimos o peso.
E ainda assim, Tzav nos diz: não deixe o fogo se apagar.
Não o fogo de quem você é. Não o fogo do pertencimento. Não o fogo da esperança.
Conta-se uma história sobre o rabino Levi Yitzchak de Berditchev. Certa noite, ele viu um homem trabalhando tarde, iluminado por uma pequena vela. O rabino perguntou: “Por que você ainda está trabalhando a esta hora?” O homem respondeu: “Enquanto a vela estiver acesa, ainda é possível consertar.”
O rabino repetiu essas palavras: “Enquanto a vela estiver acesa, ainda é possível consertar.”
Essa é a nossa mensagem.
Enquanto a chama estiver viva, nada está terminado. Nenhuma situação está além de reparação. Nenhuma escuridão é definitiva.
Pessach nos lembra que a história pode mudar em um instante. Tzav nos ensina que o que sustenta essa mudança é a constância.
A liberdade não nasce apenas de grandes milagres; ela é mantida por atos diários.
Uma palavra gentil. Um ato de coragem. A recusa em cair no desespero. O compromisso de viver como judeus com orgulho e alegria.
A Torá nos diz que muitas oferendas eram feitas com matzá, e não com chametz. A matzá é simples, humilde, sem inchaço. Talvez a Torá esteja nos ensinando que o fogo que dura não é o do ego ou do barulho, mas a chama constante do propósito.
Então, o que fazemos em um mundo incerto?
Fazemos o que nossos antepassados fizeram.
Reunimo-nos à mesa de Pessach e contamos nossa história, não apenas de sofrimento, mas de resiliência.
Ensinamos à próxima geração não apenas o que aconteceu conosco, mas quem somos.
Escolhemos não deixar que outros nos definam.
Alimentamos o fogo.
E lembramos disso:
Nossos antepassados estavam diante do Mar Vermelho com medo em seus corações. Eles não sabiam o que aconteceria. O mar à frente, o exército atrás, o futuro incerto.
E ainda assim, avançaram.
Essa coragem vive em nós.
Ao nos aproximarmos de Pessach, levemos conosco a mensagem de Tzav:
Mantenham o fogo aceso.
Em suas casas. Em seus corações. Em sua comunidade.
Porque enquanto o fogo arde, há esperança. Há força. Há um futuro esperando para ser redimido.
Shabat Shalom e Chag Kasher veSameach.




Comentários