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Sexo e Judaísmo — Parte XVI


Depois da última palavra: silêncio, responsabilidade e o começo que retorna


Talvez o maior equívoco seja imaginar que uma tradição milenar termina ensinando algo conclusivo sobre o sexo. Como se, ao final do caminho, encontrássemos uma fórmula capaz de resolver o enigma do encontro humano. O judaísmo nunca ofereceu isso. E talvez sua honestidade mais radical esteja justamente aí.


A Torah termina — e imediatamente recomeça. Ao concluir a leitura anual, não se fecha o livro; volta-se ao início: Bereshit bara Elohim… (“No princípio…”). O fim não é resolução, mas retorno. Esse gesto litúrgico contém uma antropologia inteira: aquilo que importa na vida humana não é chegar a um ponto final, mas continuar entrando novamente na mesma pergunta, agora transformado.


O mesmo acontece com o desejo.


Depois de tudo o que foi dito — Lei, limite, Chuppah, Shabbat, separação, quebra, Tikkun — resta algo surpreendentemente simples: duas pessoas continuam sem garantia. Nenhuma tradição elimina a alteridade. Nenhum ritual impede o mal-entendido. Nenhuma espiritualidade dissolve a solidão fundamental que acompanha cada sujeito.


O vínculo não existe porque compreendemos o outro. Ele existe porque permanecemos responsáveis mesmo sem compreender completamente.


O Talmud afirma:

“Não és obrigado a concluir a obra, mas também não és livre para abandoná-la.”

(Pirkei Avot 2:16)


Essa frase raramente é lida como ensinamento sobre intimidade, mas talvez seja uma de suas formulações mais precisas. Amar alguém não é completar algo; é aceitar participar de uma tarefa interminável. O encontro humano torna-se ético exatamente porque permanece inacabado.


Aqui aparece, finalmente, uma inversão silenciosa. A santidade não surge quando o desejo desaparece, nem quando é plenamente satisfeito, mas quando ele aceita existir dentro do tempo, da imperfeição e da repetição cotidiana. A presença torna-se mais importante do que a intensidade. A continuidade pesa mais do que o êxtase.


Por isso o judaísmo não idealiza momentos extraordinários. Ele santifica refeições, calendários, palavras repetidas, reencontros semanais. O sagrado não está no auge do sentimento, mas na decisão renovada de permanecer.


Talvez seja essa a última lição possível: o sexo, dentro da tradição judaica, nunca foi apenas sobre prazer, procriação ou moralidade. Ele é o lugar onde o ser humano aprende algo maior e mais difícil — como coexistir com aquilo que nunca poderá possuir totalmente.


E então chega o silêncio.


Não o silêncio da resposta final, mas o silêncio depois do estudo, quando o livro se fecha e a vida continua exigindo interpretação.


Porque, no judaísmo, toda conclusão verdadeira tem a forma de um recomeço.


E talvez esta série inteira tenha sido apenas isso: uma longa aproximação de uma pergunta que não termina aqui.


Ainda há muito por vir.

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