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Parashat Ki Tisá - com o Rabino Jacques Cukierkorn


Há um momento na parashá Ki Tisá que parece estranhamente familiar — especialmente se acabamos de celebrar Purim.


Moisés está no Monte Sinai recebendo a Torá. O povo de Israel está lá embaixo esperando. E esperando. E esperando. Até que finalmente alguém diz aquilo que as pessoas sempre dizem quando já esperaram demais: “Algo deve ter dado errado.” Então fazem o que os seres humanos muitas vezes fazem em momentos de incerteza: improvisam religião.


Eles constroem o Bezerro de Ouro.


Agora, antes de julgarmos esse povo com demasiada severidade, lembremos: essa era a geração que havia visto a abertura do Mar Vermelho, as pragas do Egito e o trovão do Sinai. Se eles entraram em pânico depois de quarenta dias, imaginem o que nós faríamos depois de quarenta minutos sem Wi-Fi.


A Torá nos diz:

“וַיַּרְא הָעָם כִּי בֹשֵׁשׁ מֹשֶׁה לָרֶדֶת מִן־הָהָר” —
“O povo viu que Moisés demorava para descer do monte.”

(Êxodo 32:1)


A palavra hebraica “boshesh” — demorava — foi interpretada pelos rabinos de uma maneira muito humana. O Talmud explica que o povo calculou mal o momento da volta de Moisés e se convenceu de que ele havia desaparecido para sempre (Shabat 89a). Em outras palavras, a primeira grande crise da história judaica foi causada por… um erro de cálculo e um pouco de impaciência.


E, no entanto, se pensarmos bem, essa história não é apenas sobre fracasso. É sobre sobrevivência.


Porque depois da catástrofe do Bezerro de Ouro, depois que Moisés quebra as tábuas, depois que Deus ameaça destruir o povo, de alguma forma o povo judeu consegue reconstruir a relação. Moisés reza. A aliança é renovada. As segundas tábuas são entregues.


A história continua.


E isso nos leva a Purim.


Purim também é a história de um momento em que a história judaica poderia ter terminado. Um decreto é emitido no Império Persa para destruir todos os judeus. O vilão Hamã parece imparável. O povo judeu está disperso, vulnerável e politicamente impotente.


E, no entanto, de alguma forma, por meio da coragem, de coincidências, da bravura e de um pouco de insônia real, a história muda de rumo.


Os judeus sobrevivem.


Mas aqui está a parte fascinante: em todo o Livro de Ester, o nome de Deus não aparece nem uma única vez.


Nenhuma vez.


Os rabinos perceberam isso imediatamente. O Talmud pergunta: Onde Ester é insinuada na Torá? E responde com um versículo que soa quase como um jogo cósmico de esconde-esconde:

“וְאָנֹכִי הַסְתֵּר אַסְתִּיר פָּנַי” —
“Certamente ocultarei o Meu rosto.”

(Deuteronômio 31:18)


Deus está oculto na história de Purim.


O que significa que Purim é o oposto do Sinai.


No Sinai houve trovões, relâmpagos, revelação, milagres. Era impossível não perceber a presença de Deus.


Na história de Purim, tudo parece comum: política, intrigas da corte, um concurso de beleza, um rei que não consegue dormir.


E, no entanto, de alguma forma, o povo judeu é salvo.


Essa diferença fascinou o grande sábio medieval Maimonides. Em seu código legal, a Mishneh Torá, ele faz uma afirmação surpreendente. Falando sobre a era messiânica, escreve:


“Todos os livros dos Profetas e dos Escritos serão anulados nos dias do Messias — exceto o Livro de Ester… e os dias de Purim nunca deixarão de ser celebrados.”

(Mishneh Torá, Hilchot Meguilá 2:18)


Imaginem isso.


Pessach recorda o Êxodo. Chanucá recorda um milagre militar. Shavuot celebra a revelação no Sinai.


E, no entanto, segundo o Rambam, a única festa que certamente permanecerá é Purim.


Por quê?


Certamente o Rambam não quis dizer que as outras festas desaparecerão literalmente. Os comentaristas explicam algo mais profundo: a urgência histórica delas desaparecerá. No mundo messiânico não haverá faraós nos escravizando, nem impérios gregos proibindo a Torá, nem inimigos decretando nossa destruição.


Essas crises pertencerão ao passado.


Mas Purim é diferente.


Purim não trata apenas de um milagre. Trata do tipo de mundo em que a maioria de nós realmente vive.


Um mundo em que Deus não abre mares todas as manhãs.


Um mundo em que os milagres estão escondidos dentro de coincidências.


Um mundo em que coragem humana, ação humana e fé precisam trabalhar juntas.


Em outras palavras, Purim descreve a vida judaica normal.


Por isso o Talmud faz outra afirmação surpreendente:

“Mesmo que todas as festas fossem abolidas, os dias de Purim nunca serão abolidos.”

(Midrash Mishlei 9:2)


Porque Purim nos ensina a ver Deus quando Deus parece ausente.


E de repente percebemos algo fascinante sobre Parashat Ki Tisá.


O Bezerro de Ouro aconteceu porque o povo não conseguia imaginar uma relação com Deus sem Moisés diante deles.


Eles entraram em pânico quando o sinal visível da presença divina desapareceu.

Purim ensina a lição oposta.


Deus pode estar oculto — mas a história continua avançando.


Os místicos até observam que o nome Ester se parece com a palavra hebraica hester, que significa ocultamento. Deus se esconde, mas a história continua.

E talvez seja por isso que Purim é a festa mais alegre do calendário judaico. O Talmud até diz:

“Uma pessoa é obrigada a se alegrar em Purim até não conseguir distinguir entre ‘maldito seja Hamã’ e ‘bendito seja Mordechai.’”

(Meguilá 7b)


Agora, os rabinos não queriam dizer que devemos confundir a moralidade.

Queriam dizer algo mais sutil: às vezes a vida é complicada, imprevisível, cheia de reviravoltas inesperadas. Heróis e vilões aparecem, as tramas mudam, a sorte se inverte.


Mas através de tudo isso, a história judaica continua.


Pensemos no arco que vai de Ki Tisá a Purim.


No Sinai falhamos de maneira espetacular.


Na Pérsia estivemos à beira da destruição.


E, no entanto, aqui estamos, milhares de anos depois, ainda lendo a mesma Torá, ainda contando as mesmas histórias, ainda discutindo os mesmos comentários — talvez agora com lanches um pouco melhores.


O que isso diz sobre as outras festas?


Diz que elas nos lembram os grandes milagres do passado.


O que isso diz sobre Purim?


Diz que às vezes o maior milagre é simplesmente que a história continua.

E o que isso diz sobre nós?


Diz que somos um povo que aprendeu a viver com milagres ocultos.


Construímos comunidades quando o mundo parece incerto.


Demonstramos coragem quando a história parece ameaçadora.


Celebramos — mesmo quando o nome de Deus não aparece no roteiro.


O mestre hassídico Rabino Levi Yitzchak de Berditchev disse certa vez que o maior milagre não é quando Deus muda a natureza. O maior milagre é quando os seres humanos se elevam à altura do momento.


E é exatamente isso que acontece na história de Purim. Mordechai se recusa a se curvar. Ester arrisca a própria vida. O povo judeu jejua, reza e age.

Milagres ocultos exigem coragem visível.


Talvez seja por isso que o Rambam acreditava que Purim duraria para sempre.

Porque mesmo em um mundo redimido ainda precisaremos da sabedoria de Purim: a capacidade de encontrar sentido quando Deus está oculto, de agir com coragem quando a história se torna incerta, e de rir — rir de verdade — das reviravoltas absurdas do destino.


Afinal, somos o povo que sobreviveu ao Faraó, a Hamã, ao Bezerro de Ouro, ao exílio, a impérios e até a… erros de cálculo.


Se isso não é um milagre digno de ser celebrado todos os anos — de preferência com hamantaschen — eu não sei o que seria.


E talvez essa seja a mensagem mais profunda de Purim e Ki Tisá juntos:


Mesmo quando as tábuas se quebram…


Mesmo quando Deus parece oculto…


Mesmo quando a história parece estar prestes a terminar…


O povo judeu, de alguma forma, vira a página.


E a história continua.

 
 
 

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