A Questão Noachita – As Sete Leis de Noach

10/06/2018

 

É óbvio que anterior a entrega da Torah em Har Sinai, já existiam uma série de preceitos (escritos ou não) que funcionavam como parâmetro para reger a uma sociedade ou a humanidade em geral. Estas leis são as que o Judaísmo posteriormente decretou como as Leis de Noach (apesar do Eterno, Bendito Seja O Seu Nome, nunca ter dado na realidade leis a Noach que estejam expressas na Torah).

 

Atualmente existe uma postura muito radical sobre este tema, muitos não-judeus interessados no estudo da Torah, tem recebido um bloqueio radical, uma limitação que não os deixa avançar, um bloqueio posto por um grupo seleto de Rabanim, que limitam ao não-judeu interessado no Judaísmo em só observarem os então chamadas Sete Leis de Noach.

 

Vamos compreender ambas as posturas.

 

Comecemos por parte dos Rabanim, e de ondem vem a questão de não se converter pessoas ao Judaísmo em toda a América Latina (da Argentina ao México, e logicamente estamos no meio do caminho – aqui também “não se converte”). Isso começou com um crescente número de casamentos mistos em Buenos Aires, Argentina. O desejo dos imigrantes de se integrar economicamente e culturalmente na sociedade local, enfraqueceu a tendência natural de manter casamentos dentro da comunidade. Muitos judeus se direcionaram aos rabinos de suas comunidades para que convertessem seus parceiros e autorizassem o casamento. Com base nesta situação social e religiosa, nasceu na Argentina, um Cherem especial segundo a qual não se deve aceitar convertidos. Esta excomunhão é conhecida por rabinos de todo mundo, e é a base da excomunhão de comunidades sírias originárias de Aleppo em não aceitar convertidos. Este cherem influenciou, sem dúvida, o curso da história judaica no século passado na Argentina, e vale a pena gastar algumas linhas sobre ele.

 

Na década de 20 do século XX, não existia um rabino chefe na Argentina. Cada rabino se preocupava com sua própria comunidade. Entre os rabinos mais conhecidos, estava o Rabino Shaul Sitón, nascido em Aleppo, na Síria, em 1851 e que cresceu junto com grandes sábios. Ele foi nomeado Rosh Yeshiva (Autoridade da Escola Religiosa) e juiz do tribunal rabínico e, estava em constante contato com rabinos de Alepo e Israel. Durante sua visita à Argentina, o rabino Siton viu a situação decadente religiosa dos judeus e para ajudar, decidiu ficar na Argentina e fazer o máximo possível.

 

O Rabino Siton decidiu então fazer todo o necessário para fortalecer a comunidade judaica do país. Quando ele viu o desejo das mulheres jovens de se casar com não-judeus de acordo com uma conversão que não se baseava na halakhah, consultou seu amigo, o rabino David Goldman, de Moisesville, e juntos eles decidiram fazer um Cherem completo sobre a conversão na Argentina. O Rabino Goldman, nascido na Rússia em 1854, estava em constante contato com os grandes rabinos, Rav Elchanan Spector, Rav Shmuel Salant, o Chofetz Chaim, Rav Kook e outros. Ele também havia escrito um livro de perguntas e respostas halakhicas chamado “Divrei Aharon”.

Em 1927, o rabino Siton publicou tal excomunhão, deixando o seguinte parecer pendurado em outdoors na cidade de Buenos Aires:

 

“Uma vez que esta cidade é muito liberal e cada um faz o que pensa e não tem um rabino pelo qual temer … e, portanto, toda pessoa que quer se casar com uma mulher não-judia, a leva para sua casa, ela se torna sua mulher, sem conversão, ou leva três pessoas simples (não rabinos) e converte entre eles … espalhamos avisos dizendo que está proibido de receber convertidos na Argentina daqui para a eternidade e não é possível quebrar a restrição e qualquer um que o fizer, uma serpente irá mordê-lo … e quem desejar se converter deve viajar para Jerusalém, e lá você irá fazê-lo…”

 

Desde lá não se realizam conversões ortodoxas que sejam aceitas que não seja em Israel ou nos Estados Unidos.

 

Assim, por parte dos Rabanim de movimentos ortodoxos, sabemos que é um de seus trabalhos criar cercas que cuidem e protejam os “interesses” do povo de Israel, criar uma cerca que nos proteja da assimilação não-judaica. Já que está claramente comprovado pela História que a entrada não controlada de não-judeus nas comunidades tem causado sérios desvios do marco da Halakhah e inclusive formando novas religiões tal como o corrido com o surgimento do Cristianismo.

 

E, sejamos honestos, quantos não-judeus com um “interesse” no Judaísmo, atravessaram um marco de apenas 3 anos em uma busca ou vivência na Torah? Ainda que não exista uma contagem oficial, como dirigente da Brit Bracha Brasil nos últimos seis anos, posso afirmar que de cada dez não-judeus que procuram o Judaísmo dois, quanto muito, passam o marco de três anos de convicção de querer ser parte verdadeira de Am Israel.

 

Mas (como em tudo, sempre há um porém), esses não-judeus verdadeiramente interessados que querem dar um passo além e não querem se limitar a observância de sete Mitzvot, merecem permanecer neste nível?

 

Há muitos mitos a respeito do Noachismo, umas postura muito radicais que expressam que aos não-judeus essa é toda a parte que lhe tocam, mas curiosamente não os deixam nem abrir uma Torah para estudar.

 

E outra muito radical é que o conceito Benei Noach nunca existiu. E que todo não-judeu interessado deve ter direito a uma Conversão/Integração a Am Israel – na qual eu mesmo me enquadro.

 

É correto afirmar, que o conceito como tal “Benei Noach” é relativamente moderno (e extensamente divulgada pela seita judaica Chabad como forma de não quererem converter não-judeus por considerarem estes com uma alma inferior ao dos animais como expresso nos ensinamentos do livro Tanya, a obra magna da Chassidut Chabad, de Rabi Shneur Zalman de Liadi.), a história nos evidencia que a ideia de uma convivência de Judeus, Conversos e Não-Judeus Justos era uma realidade nas antigas Sinagogas.

 

A evidência arqueológica mais importante, foi descoberta em 1976 em Afrodisias, Turquia. Duas inscrições, que datam de aproximadamente 210 EC, foram descobertas numa antiga sinagoga. A primeira inscrição é uma lista dos fundadores da sinagoga, todas com nomes judaicos comuns para o período. A segunda inscrição, no entanto, há uma lista de nomes que não são judaicos. Esta inscrição esta precedida pelas palavras: “E estes são os que estão Yire Elohim (Temerosos de Elohim)”.

 

Isto nos demonstra a estrutura comunitária que existia nas antigas sinagogas judaicas, onde nos deixa muito claro que sempre na história tem havido pessoas Não-judias que são verdadeiros Yire Elohim – temerosos de Elohim e sua convivência ativa com a comunidade judaica foi uma realidade, uma realidade da qual muitos grupos atuais estão muito longe de voltar a ser.

 

O conceito como o conhecemos hoje em dia de Benei Noach (Filhos de Noach [Noé]), foi impulsionado no final dos anos de 1800 e princípio dos de 1900, pelo Rabino Eliyahu Benamozegh (1822- 1900).

 

O rabino da comunidade sefardi de Livorno, Italia. Rabino Benamozegh ofereceu a Pallière (um Não-judeu interessado no Judaísmo, que por razões de força maior não podia fazer conversão) uma solução a seu problema através do Noachismo.

 

As ideias do novo Noachismo, o qual na história se conhecia como Yire Elohim, foram propagadas na Europa e se aderiram concretamente em alguns pequenos grupos de estudos, mas com a chegada da II Guerra Mundial e com a expansão do Nazismo contra tudo que cheirasse, parecesse e se visse como judeu, se desintegraram e desapareceram.

 

Atualmente, no século XXI, o conceito de Noachismo foi retomado e tem crescido com força dentro de alguns círculos religiosos (no Brasil agora o Chabad inclusive esta formando emissário [Shalukhim] noachitas).

 

Através de tudo isso que de maneira resumida temos estado vivendo, nos damos conta que a concepção moderna de um “Noachida” não existia na antiguidade, mas a convivência de um Não-judeu nas comunidades juaicas ou mesmo na terra de Israel era um conceito claro no mundo antigo.

 

Viver na Terra de Israel baixo o governo Toráico, implicava que os estrangeiros residentes tinham que aceitar e cumprir um código mínimo de ética que lhe permitiriam viver nessa Terra, sem necessariamente tornarem-se judeus.

 

Isto traduzido na nossa época moderna é muito similar a um Turista ou estrangeiro que vive em um “x” país moderno, ao qual tem que respeitar um certo código de leis que lhe permita seguir vivendo de maneira correta e pacífica em dito país, no antigo Israel (quando existia um governo Toráico e o Beit HaMikdash), era necessário que qualquer estrangeiro que quisesse viver na terra de Israel mantivesse este código de leis universais para a boa convivência entre Judeus e não-judeus.

 

Este conceito era conhecido como “Ger Toshav”, literalmente Estrangeiro Residente.

 

Existem várias posturas Rabínicas sobre como se deveria iniciar um Ger Toshav.

 

O Talmud explica que o Ger Toshav deve vir ante um Beit Din (Tribunal Judaico) de três Dayanim (Juízes) e fazer um juramento.

Atualmente, como muitos não-judeus interessados na Torah, querem se relacionar com as comunidades judaicas no exílio, mas estas comunidades não querem fazer conversão, o bloqueio que colocam é o “moderno Noachismo”, inclusive rabinicamente não existe uma opinião uniforme no mundo sobre como se deve proceder com um “Benei Noach”.

 

Algumas posturas afirmam que devem aceitar as sete Mitzvot frente a um tribunal Rabínico e adquirir o estado de Ger Toshav, outras posturas afirmam que a aceitação pessoal das sete Mitzvot é suficiente e por último, outro grupo afirma que nem sequer é necessária dita aceitação.

 

As sete leis de Noach segundo o Chabad são:

 

1. Não praticar idolatria

O termo idolatria não quer dizer apenas adorar ídolos. Isso era um costume pagão antigo que não faz nenhum sentido hoje. Não praticar idolatria significa manter a fé e a confiança absolutas em Deus e na Divina providência. Quando a humanidade adotar essa crença de modo verdadeiro, todo o comportamento ético será diferenciado e positivo.

 

2. Não blasfemar contra Deus

É muito comum que uma pessoa ao passar por dificuldades em primeiro lugar jogue a culpa em Deus. Na verdade tudo o que ocorre vem de Deus, mas Ele é o exemplo máximo de bondade e saberá que com um pouco de treino podemos enxergar como as coisas vêm para o bem e que o Criador deve ser agradecido por Sua benevolência.

 

3. Não cometer homicídio

 

4. Não roubar

 

5. Não cometer adultério e não manter relações incestuosas

Quando a pessoa tem uma fé inabalável, entende que existe um Dono para esse planeta, e que seus atos são levados pelo Criador. Dessa forma, não se deixa dominar pelo próprio ego, não se dá ao direito de agir contra a vida do próximo, nem contra seu patrimônio. Conhece ainda seus limites e sabe que não tem o direito de entrar no limite alheio.

 

6. Estabelecer tribunais

Quando existe uma divergência entre duas partes, não se tem o direito de agir por conta própria, nem privilegiar um dos lados no julgamento. Como existe uma forte tendência do ser humano de agir por amor próprio, escondendo seus próprios erros, às vezes é muito difícil identificar quem tem razão. Por isso, para a convivência harmoniosa entre as pessoas, são necessários tribunais justos e honestos. Órgãos neutros, dirigidos por pessoas idôneas que tem o poder de trazer a paz entre os homens, garantindo uma existência saudável.

 

7. Não molestar os animais ingerindo um órgão retirado em vida

Deus criou o mundo dividido em quatro níveis: a) Os seres inanimados, como minerais, água e rochas; b) os vegetais; c) os animais e d) os seres humanos. Esses níveis equivalem ao Tetragrama; ou seja, ao nome Divino de quatro letras. O objetivo de cada um desses grupos é de se elevar aos níveis superiores. Isso ocorre, por exemplo, quando a água é usada para regar uma planta, ou para saciar a sede de um animal, ou ser humano. E, ainda, quando uma planta serve de alimento. Esse é o motivo que ao homem é dado o direito de se alimentar, ou usufruir de um animal.

 

No entanto, em nenhum momento foi dado ao homem o direito de torturar um animal, nem fazê-lo sofrer. Portanto, ao extrair a carne ou órgão de qualquer animal para ingeri-lo, deve-se ter certeza absoluta de que ele não sofra, devendo fazê-lo somente após sua completa morte.  Quem não se importa com o sofrimento de um animal, desrespeitando a obra da criação, não terá também respeito aos seres humanos que o cercam.

 

O que sim podemos deduzir, é que o estatus de “Benei Noach” só têm sustento no conceito antigo de Ger Toshav e dito conceito só é aplicável quando um estrangeiro quer viver na Terra de Israel e existe um governo Toráico.

 

לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל וְלַגֵּר וְלַתֹּושָׁב בְּתֹוכָם תִּהְיֶינָה שֵׁשׁ־הֶעָרִים הָאֵלֶּה לְמִקְלָט לָנוּס שָׁמָּה כָּל־מַכֵּה־נֶפֶשׁ בִּשְׁגָגָה׃

 

“... para os filhos de Israel, e para o estrangeiro, e para o que se hospedar (תֹּושָׁב - Toshav) no meio deles...” (Nm 35:15)

 

O Noachismo moderno, nem sequer deveria ser considerado como uma alternativa a demanda de Não-judeus interessados na Torah. Os centros culturais, religiosos, etc. deveriam investir mais tempo na formação de planos de estudos, cursos, etc. enfocados aos Não-judeus interessados na Torah e nas Mitzvot (mandamentos), claro com seus filtros correspondentes de acordo as exigências de cada movimento, mas não fechar a porta.

 

A Brit Bracha Brasil, a maior organização de EADj – Educação Judaica Assistida a Distância, é uma organização IGUALITÁRIA (onde homens e mulheres possuem os mesmos direitos espirituais),  INCLUSIVA (que dá as boas-vindas a pessoas independentemente da religião que estas professem e sem querer convertê-los ao Judaísmo; independe de cor, raça, origem social, renda ou o que quer que seja, todos pertencem a esse corpo único), e PLURALISTA (que recebe todas as ideias judaicas e não-judaicas, em prol do conhecimento e engrandecimento espiritual de seus membros) oferece a todos uma oportunidade viável de se estudar Judaísmo de forma contínua, série e profunda.

 

Você é convidado a estudar e a conviver conosco dentro de nossos parâmetros e de seus anseios. E, para aqueles que desejam se integrar ao povo judeu – também abrimos as portas a eles.

 

Shalom veShalom.

 

 

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