Judaísmo Reformista em 1000 palavras: A história do Movimento Reformista

 

Contexto


A história judaica sempre foi um processo de evolução e conflito com relação ao mundo à sua volta em constante mutação. O rabino James Baaden , da sinagoga reformista Sha'arei Tsedek em North London e LJG Utrecht, Holanda, explora aqui algumas das mudanças singulares no pensamento e na prática que levaram ao surgimento do que hoje é conhecido como judaísmo reformista e as denominações de forma mais ampla.


A história do Judaísmo Reformista 


Conteúdo


No início da era moderna, os judeus na Europa começaram a pensar sobre suas práticas e textos espirituais como "religião". Esta foi uma mudança importante: algo chamado "judaísmo" passou a ser comparável a outras religiões, tal qual o cristianismo. E como o cristianismo era dominante em toda a Europa, o modelo cristão de religião moldou o desenvolvimento do judaísmo. A crença é a essência do cristianismo (e do islamismo), por exemplos. Além disso, o cristianismo tinha a forma de uma igreja hierárquica centralizada, com foco na questão da autoridade: a autoridade para definir a crença e padronizar as práticas. Uma explosão gigante no cristianismo europeu - a Reforma Protestante - teve lugar: os protestantes desafiaram a autoridade da Igreja Católica Romana e introduziram numerosas "reformas". De fato, a Igreja Católica não era mais a única igreja estabelecida – outros ramos do cristianismo seguiram seu caminho próprio alguns séculos antes, chamando a si mesmos de "ortodoxos" - uma palavra grega que significa "ensino correto".


À medida que o século XVIII passa e se inicia   o século XIX, as demais características distintivas da modernidade se desenvolveram: as cidades se expandiram, o dinheiro tornou-se o meio central do comércio, os negócios e a indústria cresceram, menos pessoas trabalhavam na agricultura, a importância das casas reais e a aristocracia diminuíram, novas ideias de direitos humanos ganharam terreno e pessoas comuns (em primeiro lugar homens, depois, mulheres também) tinham maior acesso à educação e às instituições do poder político. Muitos judeus decidiram que era hora de reformar sua religião judaica. Este foi particularmente o caso nos Estados da Europa Central que mais tarde se tornaram a Alemanha. Majoritariamente, isso ocorreu no nível local - por exemplo, em Hamburgo e Berlim. Os principais indivíduos, especialmente os rabinos, assumiram a liderança: Israel Jacobson, Abraham Geiger e Samuel Holdheim são os mais conhecidos. Para justificar as reformas, eles apontaram para as realidades da era moderna, mas também se referiram à visão dos profetas do antigo Israel e às inovações dos rabinos da antiguidade. 

 

As mudanças se relacionavam com quase todos os aspectos do pensamento e da prática judaicos. Nos textos que os judeus utilizavam nos serviços religiosos, as referências ao Templo e aos sacrifícios foram removidas. As noções de ressurreição após a morte também foram deletadas ou reformuladas. Os serviços da sinagoga foram encurtados, as repetições das orações foram omitidas, a condução na sinagoga tornou-se mais solene e decorosa, hinos compostos foram cantados (muitas vezes com base nos poemas litúrgicos hebraicos de antes), os textos foram lidos na língua local, principalmente em alemão. Mais ênfase foi dada à bíblia hebraica e menos à literatura rabínica. Em certas sinagogas, órgãos foram instalados.

 

Hoje, esses "micro" ajustes continuam a preocupar muitos de nós, mas talvez negligenciamos os desenvolvimentos históricos mais amplos - que podem ter uma influência mais duradoura. Cinco podem ser destacados: primeiro, outros no mundo judaico no início do século XIX se opuseram às reformas e, então, adotaram o termo cristão "ortodoxo". Como no amargo conflito católico/ protestante, eles (os ortodoxos) tenderam a se opor a todas as mudanças; embora, de fato, o mundo judaico já havia encontrado formas de acomodar as diferenças, como no caso da divisão asquenazim/sefaradim.

 

Em segundo lugar, a sinagoga desenvolveu-se como um foco da vida judaica, semelhante à igreja paroquial, e a casa se tornou menos importante. Em terceiro lugar, o papel do rabino ganhou muito em prestígio e poder à medida que crescia mais parecido com o papel do clérigo cristão. Em quarto lugar, a questão da autoridade veio para o centro na vida espiritual das comunidades judaicas. Em quinto lugar, certas coisas não aconteceram: questões de igualdade e gênero, por exemplo, foram por um longo período não uma preocupação central, assim como ainda não eram também na sociedade em geral.

 

Durante o século XIX, os Estados Unidos se tornaram a "terra do coração" do judaísmo progressista. Uma organização reformista nacional com um seminário e um livro de oração padronizado surgiram - este não tinha sido o padrão na Alemanha. A influência intelectual europeia permaneceu forte, enquanto os líderes americanos do judaísmo reformista, como David Einhorn, Kaufman Kohler e Isaac Mayer Wise, falavam alemão. A sinagoga reformista tornou-se a "igreja local" de milhões de judeus americanos, especialmente com o crescimento dos bairros suburbanos da classe média. Enquanto isso, os movimentos progressistas encontraram objeções de dentro de suas fileiras, levando ao desenvolvimento do "judaísmo conservador", com centros em Breslau na Alemanha (atual Wrocław na Polônia) e na cidade de Nova York, ambos chamados de "Seminário Teológico Judaico". Essa via media ou resposta intermediária enfatizou uma abordagem moderna, questionadora e acadêmica ao texto, conjuntamente à manutenção conservadora da prática tradicional. Na Grã-Bretanha, a sinagoga chamada de “West London Synagogue of British Jews”, com uma liturgia mais curta e simplificada, foi fundada em 1840 para unir asquenazitas e sefaraditas; e não foi inspirada por esforços reformistas progressistas na Alemanha ou nos Estados Unidos, embora tenha nomeado um ministro, o Reverendo David Woolf Marx, que introduziu muitas reformas. No início do século XX, um movimento progressista britânico, o judaísmo liberal, surgiu, liderado por uma mulher, Lily Montagu, habilmente auxiliada pelo eminente estudioso Claude Montefiore. O judaísmo liberal desenvolveu seu próprio programa sistemático e experimentou certo desenvolvimento no início do século XX. Na década de 1930, vários rabinos alemães notáveis, refugiados do nazismo, consideraram o judaísmo liberal britânico muito liberal para eles; logo desempenhariam um papel nas novas comunidades da sinagoga que se tornariam a base do judaísmo reformista britânico.

 

Movimentos judaicos progressistas em todo o mundo têm lidado com novas realidades e preocupações nas últimas décadas. A Shoah aniquilou as comunidades judaicas da Europa central, incluindo instituições judaicas progressistas, mas não foi até a década de 1970 e 80 que os judeus na América do norte e Europa ocidental começaram a se concentrar no significado dessa catástrofe. Ao mesmo tempo, a proeminência do movimento sionista no século XX e a fundação de um estado judeu em 1948 tomaram algum tempo para começarem a ser processados na esfera da religião judaica. E para o final do século XX, a área de igualdade de gênero e sexualidade emergiu como foco principal. Partindo para uma direção mais conservadora, no entanto, também tem havido um movimento notável para a restauração de textos e tradições que a “reforma” das gerações anteriores de movimentos judaicos progressistas abandonaram.

 

No entanto, os desenvolvimentos mais amplos herdados do século XIX continuam vigentes hoje. A divisão ortodoxa/ progressista ainda está conosco. O modelo de “movimento” moderno (e ocidental) de religião como comunidade centrada nas crenças, bem como o papel fundamental da autoridade, permanecem dominantes. Os papéis da sinagoga e do rabino são ainda mais centrais. Talvez uma consciência histórica abrangente e questionadora possa nos ajudar a pensar de formas novas sobre dimensões aparentemente fundamentais da vida religiosa. Talvez isso até nos permita olhar além do modelo de religião.

 

Reflexão

 

Neste artigo, James enfatiza que o judaísmo reformista não surgiu, como muitas vezes incorretamente se entende, "oriundo" ou "uma separação" do judaísmo ortodoxo. Pelo contrário, todas as denominações judaicas - de fato, o conceito de denominações - surgiram das realidades históricas criadas pela emancipação dos judeus europeus, o surgimento da crítica textual e o desenvolvimento da modernidade. Isso altera a forma como pensamos sobre a nossa vida religiosa e as relações com outras partes do mundo judaico? Quais são as mudanças em nosso mundo que afetam nosso judaísmo hoje?

 

Tradução: José C. de O. Sampaio

[1] Artigo originalmente publicado em www.reformjudaism.org.uk/reform-judaism-1000-words-history-reform-judaism/

 

 

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