História do Movimento Reformista

 

A maior denominação judaica nos EUA,

o movimento reformista surgiu na Alemanha no século XVIII.

                                                                                                     

O judaísmo reformista é a maior das três principais denominações judaicas americanas, tendo cerca de 31 por cento de todos os judeus americanos de acordo com uma pesquisa em 2013.

 

A principal organização norte-americana do movimento, a Union for Reform Judaism, tem cerca de 900 congregações membros, 1,5 milhão de afiliados e é ligada ao braço internacional do judaísmo reformista, a World Union for Progressive Judaism, com sede em Jerusalém. A URJ opera seminários rabínicos em quatro cidades (três nos EUA e um em Jerusalém), uma rede de 16 acampamentos de férias na América do norte, um escritório de advocacia na capital Washington e um grupo juvenil nacional.

 

O movimento é bem menor fora dos EUA, abrangendo apenas cerca de 40 comunidades em Israel e cerca de duas vezes esse número na Inglaterra. Um número menor de comunidades reformistas são encontradas em alguns outros países europeus.

 

O movimento, que foi estabelecido na Alemanha em meados do século 19, nasceu com o intento de conciliar o judaísmo com a vida contemporânea e de harmonizá-lo com as emergentes correntes do pensamento ocidental. O movimento é politicamente liberal, igualitário em questões de gênero, ativo em esforços inter-religiosos e religiosamente progressista - aceitando a descendência patrilinear e ordenando mulheres e gays como rabinos, entre outras inovações. Historicamente, enfatizou os aspectos éticos da tradição judaica em relação aos seus requisitos rituais, embora nas últimas décadas tenha começado a retomar algumas das práticas religiosas que uma vez descartou.

 

Origens na Alemanha

 

O pano de fundo do surgimento do movimento foi a “emancipação”, processo iniciado no final do século XVIII para conferir aos judeus europeus direitos iguais e eliminar as barreiras legais que impediram seu progresso social e econômico durante séculos. A saída do gueto europeu teve um enorme impacto na prática do judaísmo, levando alguns judeus a abandonarem as práticas religiosas observadas há muito tempo em um esforço para se assimilarem mais facilmente na cultura mais ampla.

 

“No afã de participar e demonstrar aos seus vizinhos quão produtivos e leais cidadãos e poderiam ser, muitos judeus decidiram abandonar a kashrut (as leis dietéticas judaicas) e outras leis e práticas tradicionais que os proibiam de comer nas casas de seus amigos gentios ou frequentar os reuniões sociais em cafés”, escreveu o rabino reformista Lawrence Englander em um ensaio sobre as origens do movimento. “Eles também ficariam com vergonha constrangidos, se os seus vizinhos acostumados com a compostura da igreja protestante ou católica visitassem a sinagoga e testemunhassem um espetáculo de homens envoltos em estranhos xales de oração rezando ruidosamente uma liturgia repetitiva enquanto as crianças corriam pelos corredores.”

 

Os primeiros judeus reformistas buscaram moldar um judaísmo mais consonante com a vida europeia. Os rabinos passaram a conduzir os serviços trajando túnicas clericais pretas, semelhantes às usadas pelo clérigos cristãos, e empregaram coros e organistas profissionais. Homens e mulheres sentaram-se juntos, em vez de em seções separadas da sinagoga, e os homens rezavam com cabeça descoberta, sem a tradicional kipá. Por um tempo, o principal serviço do Shabat - realizado em língua vernácula, em vez do hebraico - ocorria na noite de sexta-feira (ou no domingo) para não interferir nas atividades do sábado, que geralmente era um dia de trabalho. (O fim de semana com dois dias não foi introduzido até o início do século XX.) E o vasto conjunto de práticas rituais que serviram para separar os judeus da cultura mais ampla deixou de ser enfatizado em favor da ética universal e da visão profética da justiça e paz.

 

O primeiro templo reformista permanente foi fundado em 1818, em Hamburgo, na Alemanha. Os primeiros líderes reformistas preferiram chamar seus locais de adoração de “templos” em lugar de “sinagogas”, por um lado para distingui-los das sinagogas tradicionais e, por outro, para significar que haviam abandonado o anseio judaico de reconstruir o antigo Templo em Jerusalém. Várias outras congregações reformistas foram estabelecidas na Alemanha e em outros lugares da Europa no início dos anos 1800, mas o movimento realmente começou a florescer nos Estados Unidos, onde foi abraçado pelos judeus alemães que eram então a força dominante na vida judaica americana.

 

Florescendo nos Estados Unidos

 

Em 1846, Isaac Mayer Wise, tido como fundador do movimento reformista - chegou aos Estados Unidos. Wise assumiu um púlpito em Albany, Nova York e começou a instituir uma série de reformas lá. Ele foi o principal autor do primeiro livro de oração reformista americano, o Minhag America, publicado em 1857. Após um rompimento com o templo de Albany, Wise se mudou para Cincinnati, Ohio, onde a Union of American Hebrew Congregations foi fundada em 1873, por volta de 1903 contava com 115 congregações-membro. Em 1875, o primeiro seminário reformista, o Hebrew Union College, abriu suas portas. A associação rabínica do movimento, a Conferência Central dos Rabinos Americanos (CCAR) foi fundada em 1889.

 

Em 1883, em um jantar para os primeiros graduados do HUC, mariscos, pernas de rãs e outros alimentos não-kosher foram servidos - embora não esteja claro se o cardápio explicitamente treifá foi uma provocação intencional ou descuido mesmo - isso foi visto como reflexo da rejeição do movimento às práticas dietéticas judaicas.  O evento ficou conhecido como “o banquete treifá” e foi o principal fato que motivou uma divisão no movimento que, por fim, deu à luz ao movimento conservador, mais comprometido com a tradição.

A separação foi efetivamente selada com a adoção em 1885 da Plataforma de Pittsburgh, uma declaração formal dos princípios do judaísmo reformista. O documento declarou que somente as "leis morais" do judaísmo são obrigatórias e rejeitou todas aquelas “que não são adaptadas às visões e hábitos da civilização moderna”. As leis judaicas que regulam a alimentação são "estranhas" para a mente moderna e, assim, são "aptas antes para obstruir do que para promover a elevação espiritual moderna". O documento declarou ainda que os judeus não são mais uma nação, "mas uma comunidade religiosa" e renunciou formalmente ao desejo de um retorno a Israel e às doutrinas da ressurreição física, do céu e inferno.

 

De antissionista a sionista

 

O antagonismo do reformismo ao sionismo, o movimento que criou o estado judaico, já era evidente muito antes do surgimento do sionismo como um movimento político moderno nos anos que se seguiram imediatamente à Plataforma de Pittsburgh. As orações pela restauração da soberania judaica na Palestina foram eliminadas pelas congregações reformistas já em 1845 e a conferência do movimento em 1869, na Filadélfia, declarou que o objetivo do judaísmo não é "a restauração do antigo estado judeu sob um descendente de Davi, envolvendo uma segunda separação das nações da terra, mas a união de todos os filhos de D'us na confissão da unidade de D'us". Wise e outros entre os primeiros líderes do movimento se opuseram ao sionismo, em parte, porque consideravam-no contrário aos seus esforços para moldar um judaísmo que fosse totalmente compatível com a sua identidade europeia. Em uma resolução de 1897, patrocinada por Wise, o CCAR declarou: "Nós desaprovamos totalmente qualquer tentativa de estabelecimento de um estado judeu".

 

Esta oposição não sobreviveria à ascensão de Hitler ao poder na Alemanha na década de 1930 e às ameaças crescentes à vida judaica europeia. A Plataforma de Columbus, de 1937, um esforço para atualizar a declaração anterior da ideologia reformista, endossou a busca para construir um estado judeu na Palestina, embora tenha sido aprovada pela diferença de um voto. No despertar do Holocausto, o apoio do movimento reformista a Israel acelerou, empurrado por dois proeminentes rabinos da reformistas sionistas: Stephen Wise e Abba Hillel Silver.

 

Hoje, o apoio a Israel é considerado um princípio relativamente incontroverso no judaísmo reformista, embora o movimento tem sido por vezes severamente crítico à política israelense em relação aos palestinos e a falta de tratamento igualitário concedido pelo governo ao movimento reformista e a outras denominações religiosas não ortodoxas.

 

Inovações e tradição

 

Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento reformista continuou a crescer à medida que os judeus norte-americanos se assimilavam cada vez mais à cultura americana e deixavam as densas cidades do interior para as cidades grandes. No entanto, o reformismo acompanhou o movimento conservador em tamanho até a década de 1980. Em 1961, o movimento estabeleceu o Centro de Ação Religiosa, um braço para defesa dos interesses do movimento liberal em Washington, DC. Em 1963, seu seminário, o Hebrew Union College, abriu seu quarto campus em Jerusalém para complementar seus três locais nos EUA - em Cincinnati, Nova York e Los Angeles.

 

O movimento também continuou seu legado de inovação, mesmo que continuasse a reconsiderar as práticas tradicionais que uma vez rejeitou como inconsistentes com seu etos racionalista moderno. Em 1972, o reformismo foi o primeiro movimento americano a ordenar uma rabina, Sally Priesand. Na década de 1980, o seminário começou a admitir alunos gays e lésbicas para o rabinato e, em 2003, admitiu seu primeiro aluno transgênero. Em 1983, o movimento aceitou oficialmente a linhagem patrilinear - reconhecendo como judeu o filho de pai judeu, desde que a criança seja criada como judia; a lei judaica tradicional reconhece a linhagem judaica somente através da mãe. O movimento passou a receber casais mistos em suas sinagogas. De acordo com uma pesquisa, metade dos judeus reformistas se casaram ​​com não judeus, e muitos rabinos reformistas oficiam em casamentos mistos.

 

Ao mesmo tempo que tem inovado, o movimento deixou de se opor a itens tradicionais, como a kipá e o talit, que outrora rejeitara. O hebraico é comumente encontrado em serviços religiosos que uma vez foram conduzidos inteiramente no vernáculo; muitos serviços são conduzidos com uma mistura de hebraico e inglês. O Mishkan T'filah, o mais novo livro de oração do movimento, publicado em 2007, oferece múltiplas opções litúrgicas para refletir o leque de crenças e práticas dentro do movimento. Também reintroduziu a bênção para a ressurreição dos mortos - um conceito explicitamente rejeitado como não judaico na Plataforma de Pittsburgh. E o rabino Eric Yoffie, que liderou a Union for Reform Judaism - organização que substituiu a UAHC - até 2012, encorajou o estudo da Torá entre os judeus reformistas e convocou um retorno à observância do shabat - embora não "o shabat da Europa do século XVIII", mas um que reflita "a criatividade que sempre distinguiu o judaísmo reformista". A declaração de princípios do movimento em 1999 afirmou a importância do hebraico, convidou à observância das mitzvot "que nos aborda como indivíduos e como comunidade, e encorajou “alguma forma” de observância do shabat.

 

Tradução: José C. de O. Sampaio

[1] Artigo originalmente publicado em www.myjewishlearning.com/article/reform-judaism/

 

 

 

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