Característica: Alguns são como charosset picante

 

Contra todas as probabilidades - e em grande parte por conta própria - um grupo de guatemaltecos de origem cristã encontrou seu caminho rumo ao judaísmo. Felizmente, para eles, um rabino brasileiro de Kansas City forneceu o apoio e o ensino da Torá que eles procuravam.

 

Clara de Medina estava em casa, na Cidade da Guatemala, quando sua mãe ligou: "Não se esqueça do charosset para a competição de amanhã", lembrou-a sua mãe. "O prêmio vai para a receita que for mais guatemalteca".

 

Charosset, uma mistura de frutas, nozes e vinho que simboliza os tijolos da escravidão dos hebreus no Egito, é uma das principais receitas na Páscoa. Durante o seder, judeus ingerem rabanete, ou maror, para lembrar a amargura da vida no Egito e o doce charosset contrapõe o sabor ruim.

 

"Eu sabia que o rabino Jacques Cukierkorn estava chegando, mas tinha me esquecido completamente da competição", admitiu Medina. "Eu me perguntei o que poderia acrescentar à receita que seria guatemalteco? Coloquei cebola, alho, coentro, vinagre, azeite e depois - porque sou um judia atrevida - acrescentei chiltepe. É a nossa pimenta picante.”

 

No dia seguinte, no verão de 2006, as 25 mulheres, homens e crianças que formavam a recém criada comunidade judaica Casa Hillel na Cidade da Guatemala encontraram-se com Cukierkorn. Hoje, o grupo possui 35 membros ativos, convertidos e dezenas de outros que estão afiliados, apesar de ainda não terem se convertido. Embora o seu púlpito seja o New Reform Temple em Kansas City, Missouri, Cukierkorn pôs sob suas asas esses guatemaltecos de origem cristã que estudaram os textos judaicos e se converteram ao judaísmo. A peculiar competição do charosset em julho foi ideia do rabino - e programada para coincidir com sua visita ao país.

Mas essa competição não foi a única razão pela qual Cukierkorn veio; por três anos, ele esteve ensinando os alunos da Casa Hillel através de videoconferência, indicando-lhes livros sobre o judaísmo, incluindo o de sua autoria, “Judaísmo Acessível: um guia das práticas e valores do judaísmo moderno [2].

 

Um ano antes, em 2005, Cukierkorn tinha viajado à Guatemala para converter sete alunos depois que os homens no grupo foram circuncidados. Em sua segunda visita, Cukierkorn realizou 14 conversões e recasou 4 casais de acordo com as leis de Moisés e Israel.

Um dos novos noivos foi Mario Valdez, um professor de 44 anos que tomou o nome de Yosef. "Ter um casamento judaico foi o auge na minha vida", disse Valdez; ele se casou novamente com sua esposa, Flor, cujo nome em hebraico é Hadassah. "Eu tinha três objetivos: brit milá, conversão e um casamento judaico. Realizei todos os três. Meus ... [próximos] objetivos serão os casamentos judaicos de meus filhos." Valdez é o presidente da sinagoga Casa Hillel.

 

Jeannette "Miriam" Orantes, 51 anos, secretária executiva e agora uma convertida, concordou que os rituais foram "uma experiência maravilhosa para todos nós. Estudamos por seis anos", três por conta própria antes de se conectarem ao rabino Cukierkorn, “e agora alcançamos o que estávamos esperando", disse ela. "Nós nos tornamos especiais para Deus. Temos um desafio a cumprir: ser judeus com amor, cuidado e especiais sentimentos uns pelos outros ".

 

Seu marido, Alvaro "Eliyahu" Orantes, 48 anos, é vendedor e ex-presidente da Casa Hillel, assim chamada pelo nome de Hillel Cukierkorn, o pai do rabino Jacques, em gratidão por tudo que o seu filho tem feito por eles. (Um casal também deu o nome de Hillel a seu filho recém-nascido). Embora não haja estatísticas, Orantes disse que ele e outros como ele fazem parte de um fenômeno na América Latina hoje: católicos de origem que sentem uma atração profunda pelo judaísmo.

 

Mas o caminho para uma vida judaica não tem sido tranquila para os membros da Casa Hillel. "Quando eu era criança e era católico, nunca gostei de ir à igreja", disse Alvaro Orantes. "Quando orava a Deus, eu usava a palavra ‘Pai’, não Jesus. Quando eu tinha 12 anos, visitei o cemitério judaico porque sentia paz lá. Aos 16 anos, pintei estrelas de Davi na parede da casa dos meus pais. Meus pais pensaram que eu estava louco. Eu especulo que minha atração pelo judaísmo era uma lembrança histórica que todos os seres humanos têm em suas almas. A minha é judaica.”

 

"Na virada do milênio em 2000", recordou Orantes, "um judeu messiânico cristão de Cuba chegou à Cidade da Guatemala. Foi como um terremoto na minha cabeça. Ele me disse que Jesus não era seu nome verdadeiro; era ‘Yeshua’ e era um nome judaico. Se críamos em Jesus, ele disse, tínhamos que aprender a Torá".

 

Sobre seus estudos com o messiânico, Orantes disse: "Talvez o que ele ensinou fosse errado ou talvez ele estivesse certo, mas ele nos apresentou à Torá". Posteriormente, Orantes explicou, ele e os outros guatemaltecos em busca da verdade perceberam que o conhecimento que desejavam "só poderia ser obtido do ponto de vista hebraico".

 

Tal qual Orantes, vários outros membros da Casa Hillel dizem que sentem que têm almas judaicas e estão "retornando" ao judaísmo em vez de descobri-lo pela primeira vez, embora não tenham nenhuma prova formal de que seus antepassados ​​eram judeus. Talvez sejam descendentes de cripto-judeus da Espanha, que tiveram que ocultar sua religião durante a Inquisição. Ou poderiam ser, como alguns deles suspeitam, das tribos perdidas do norte de Israel que fugiram após a conquista assíria em 722 a.E.C. Cukierkorn acha que essas conexões são até possíveis, mas não podem ser provadas. "Acho que é mais fácil simplesmente convertê-los e seguir em frente, ao invés de participar dessa coisa dos retornos", disse ele. Cukierkorn é um dos fundadores da Kulanu, uma organização que busca comunidades judaicas perdidas e dispersas.

 

Depois que Orantes se casou, jogou fora a árvore de Natal. Ele informou a sua nova esposa que Jesus era um grande rabino, mas não divino. Depois que os filhos nasceram, o casal começou a observar o shabat; hoje, Juan Pablo (Yochanan) tem 25 anos, Ishmuel (Michael) tem 13 e Rebecca (Rivka),11.

 

Orantes costumava fazer pesquisas em sites judaicos como www.torah.org, estudar com sua família e trocar informações com amigos. Ele tinha as palavras do Shemá no para-brisa traseiro de seu carro, embora não falasse hebraico. Esperava que um judeu na rua lesse e lhe perguntasse por que aquelas palavras estavam lá. Orantes até mesmo programou seu celular para tocar com "Hatikva".

"A maior prova de nossa sinceridade", acrescentou Carlos "Menashe" Hermansen, um soldador de 25 anos, "é que legitimamos as tradições judaicas em nossa vida, como o casamento". Ele se converteu com sua esposa, Karla "Naomi", e a filha, Ester "Hadassah". Ao se referir à sinceridade da comunidade Casa Hillel, Hernández estava aludindo à sua não aceitação pela comunidade judaica estabelecida na Cidade da Guatemala.

 

Quando Cukierkorn chegou à Guatemala em 2005, ele quis ajudar esses judeus novatos a encontrar um lugar na comunidade judaica dominante. "É sempre melhor que haja um rabino local, e não um à longa distância", explicou. Cukierkorn foi com Orantes ao Centro Hebraico/ Shaarei Binyomin, a principal sinagoga da Cidade da Guatemala. Quando Cukierkorn perguntou ao administrador lá se "meu amigo Orantes poderia vir aqui com você para aprender", lembrou Orantes, “a resposta foi: 'Não. Esta é uma sinagoga particular.'"

 

Os membros da Casa Hillel acreditam que são rejeitados devido a sua pretérita formação cristã. "Eles têm as suas razões e nós os respeitamos", disse Orantes sem rancor. "[Mas], como nunca tivemos nenhum contato formal com [a comunidade judaica], eles não podem dizer que os membros da Casa Hillel têm qualquer mancha de cristianismo ou dão outras razões, pois não conhecem nossos corações".

 

O Centro Hebraico é liderado agora pelo rabino chefe ortodoxo Shimon Lubelski. "Eu fui para a Guatemala de férias em setembro de 2005 e a comunidade lá não tinha rabino há nove meses", disse Lubelski. "Eles me perguntaram se eu sabia como rezar no shabat e eu lhes disse que era rabino. Então, pediram-me para ser seu rabino. "

 

Lubelski afirmou - sem explicação - que sua comunidade não faz conversões. "Se as pessoas quiserem se converter, devem ir a Nova York, Miami ou Tel Aviv", disse ele. Oriundo da Argentina, reconheceu que os judeus da comunidade dominante, a maioria dos quais é ortodoxa, não recebem os membros da Casa Hillel e não aceitam as conversões reformistas de Cukierkorn. "Nós os respeitamos, mas não estamos interessados ​​em nenhum contato entre as duas comunidades", disse ele.

 

Fontes que solicitaram que seus nomes fossem ocultados, incluindo um membro da comunidade de Lubelski, indicaram que outro motivo para o distanciamento da Casa Hillel é socioeconômico. Os judeus são donos de muitos dos negócios comerciais na Guatemala, enquanto os membros da Casa Hillel tendem a ser menos prósperos; um trabalha como metalúrgico, outro é gerente de vendas e vários são professores.

 

Quase todos os 1.000 judeus da Guatemala vivem na capital, Cidade da Guatemala, com pequeno número em Quetzaltenango e São Marcos também. Existem cerca de 800 asquenazim e 200 sefaradim, mas a comunidade continua a encolher devido à assimilação e aos casamentos mistos.

 

As principais organizações judaicas são a Comu­nidade Judaica Gua­temal­teca (011-5022-360-1509; www.comunidadjudia.com); a sinagoga asquenazita Centro Hebraico/Shaarei Binyomin (502­2360-7643); e a sefaradita Maguen David (502-2232-0932). Há ainda uma pequena sinagoga Chabad e a comunidade de israelenses que trabalham nas áreas de segurança e de construção, estes se encontram para os serviços de oração em uma casa particular. Arquivos no México indicam que os primeiros judeus chegaram à Gualemala no século XVI, mas a comunidade de hoje tem suas raízes no influxo alemão de meados do século XIX. Em 1965, refugiados judeus chegaram de Cuba.

 

Antes de Cukierkorn aparecer em sua vida - e sem conexão com a comunidade judaica local - Orantes decidiu ser circuncidado. "Foi feito por um médico", disse ele, "porque não tínhamos acesso nenhum a um mohel e não havia rabino para supervisão rabínica. Mas foi feito com as corretas berachot... Foi feito de acordo com a Torá. Quando terminou, senti como se fosse minha conversão.

"E, então, ocorreu um milagre", disse ele. Ele pesquisou no google "conversão ao judaísmo" e encontrou o site de Cukierkorn em língua espanhola. Após vários contatos, a relação entre o rabino e o grupo de Orantes se estabeleceu. "Eu não queria uma ‘conversão pela internet’, e o rabino Cukierkorn nunca sugeriu isso", disse Orantes.

 

Orantes fez contato com Hernandez e Valdez, que estiveram igualmente estudando com um judeu messiânico e por conta própria. "Eu não queria envolver muitas pessoas, pela possibilidade de sermos enganados, julgados ou excluídos [como eram pela comunidade local]", disse Orantes. "Escolhi quatro pessoas humildes e sinceras: um soldador, uma professor, um piloto de helicóptero e uma senhora de 81 anos da alta sociedade.

 

"Nós havíamos lido que o próprio Deus mesmo mostrará misericórdia aos de fora como nós que guardam o dia de descanso e observam as leis. O estudo [da Torá] me ajudou; deu-me uma forma de me comportar, regras de conduta a seguir e foi bom para a minha família. Outras pessoas começaram a expressar seu interesse."

 

Orantes e seus companheiros de estudo estavam entre os primeiros convertidos; eles mergulharam nas fontes naturais de Antígua, uma área a cerca de 40 km de distância.

 

"Enquanto estávamos fazendo a nossa tevilá", lembrou Cukierkorn, "havia centenas de pessoas sendo batizadas em piscinas próximas".

 

Cukierkorn continua a dar suas aulas semanais sobre a Torá através da internet, que os membros também usam para estudar Midrash, Pirkê Avot, Mishnê Torá e Shulchan Aruch. O estudo tornou-se mais fácil, pois Michael e Karen Herman, membros da Congregação de Cukierkorn na Cidade do Kansas, patrocinaram a compra de 200 livros judaicos - incluindo livros infantis - em espanhol. A biblioteca da Casa Hillel, supervisionada por Clara de Medina, e um rolo da Torá doado por outro dos congregados de Cukierkorn, Robert Uhlmann, estão na sinagoga Casa Hillel, no centro da cidade da Guatemala, para a qual a congregação de Cu­kierkorn contribui com a metade do aluguel.

 

Para ajudar as pessoas a adquirirem objetos rituais judaicos, o departamento de ação social do New Reform Temple (rabbi94@hotmail.com) iniciou um programa de intercâmbio judaico que envia itens novos e usados ​​aos convertidos. Na lista de tarefas de Cukierkorn para a próxima visita em julho está ensinar aos convertidos a ler a Torá com a cantilação.

 

Enquanto isso, os membros da Casa Hillel abstêm-se de trabalhar no shabat e passam o dia em seu prédio de dois andares (12 Avenida 17-21, Zona 11, Colonia Mariscal), onde eles rezam, almoçam, estudam a Torá e encerram o shabat juntos. Visitantes judeus são bem-vindos. Há também os círculos de rosh chodesh e de estudos da cabala.

 

Quando Cukierkorn visita - ele agora vem várias vezes por ano – um grupo de jovens celebra com uma exuberante dança de estilo hassídico, que eles aprenderam com um vídeo, e as meninas, usando roupas em azul, branco e cor dourada, dançam e cantam música hebraica. Na ausência de uma escola hebraica organizada, as crianças estudam Torá com seus pais.

 

Cukierkorn conseguiu um advogado para registrar a Casa Hillel como pessoa jurídica. Seu nome formal é Comunidad Hebrea/ Beit Ha-madrij Hillel (www.casahillel.com, site em espanhol). Está registrada como uma associação civil que é, nas palavras de Orantes, "formada para fortalecer os laços entre o Estado de Israel, os judeus israelenses e os judeus da Guatemala. Somos abertos a todos os judeus", acrescentou, "e todos os guatemaltecos interessados ​​no processo de conversão genuína e no estudo da Torá e da cultura judaica".

 

Quando Cukierkorn visitou em 2006, trouxe consigo dois membros de sua comunidade no Kansas City, Karen Lichterman e Mark Edelman, para serem testemunhas das conversões e casamentos; eles também se reuniram para o "beit din" do charosset. Assim que o rabino provou o preparado por Clara de Medina, ele sorriu largamente, o chili fez dela, claramente, a vencedora. Cukierkorn premiou Medina - cujo nome hebraico é Chochmá, que significa sabedoria - com um maguen David do tamanho de um pequeno pneu de carro, adornado com luzes brilhantes. Um membro da sua congregação na Cidade do Kansas tinha criado o objeto para competir com as decorações de Natal durante a temporada de férias.

 

O charosset guatemalteco de Clara de Medina é talvez o paradigma perfeito da essência da Casa Hillel, pois incorpora a tradição judaica com um sabor próprio.

 

 

 

[1] Artigo publicado originalmente na Revista Hadassah em abril de 2008, http://www.hadassahmagazine.org/2008/04/02/feature-like-haroset-hot/

 

[2] Publicado em 2015 no Brasil pela Brit Brachá. Em espanhol se chama Hamadrij: Guia dos Valores e Práticas do Judaísmo Moderno (pela Associação Europeia de Estudos Judaicos).

 

Por: Judith Fein

 

Tradução: José C. de Oliveira Sampaio

 

 

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