O que aconteceu com os Dez Mandamentos?

 

Por que essa parte central da Torá não está em nossa liturgia diária?

 

A leitura da Torá para Shavuot é a dos Dez Mandamentos. Isso se baseia na opinião de um dos Tannaim (antigos sábios) encontrado em três lugares na literatura rabínica (Tosefta Meguilá 3:5, ed. Lieberman p. 354; Talmud Yerushalmi Meguilá 3:7, fol. 74b e Bavli Meguilá 31a). Isto é, sem dúvida, o resultado da crença rabínica de que a Torá foi dada no Monte Sinai em Shavuot (Shabat 86b).

A Centralidade dos Dez Mandamentos


             Contudo, é muito surpreendente que somente lemos os Dez mandamentos em público durante Shavuot e como parte das porções semanais da Torá de Yitro (Êxodo 20) e Va'ethanan (Deuteronômio 5). Afinal, a própria Bíblia considerou os Dez Mandamentos de importância seminal para a aliança entre Deus e o povo de Israel. Os Dez mandamentos também são citados ou parafraseados nos Salmos (50:7, 18-19; 81:10-11), pelo profeta Oséias (4:1-2) e pelo profeta Jeremias (7:9).


            Além disso, Filo de Alexandria (primeiro século E.C) considerou os Dez Mandamentos a essência de toda a Torá, que elabora em detalhes o que os Dez Mandamentos dizem de forma condensada. Uma idéia semelhante é encontrada no Talmud Yerushalmi (Shekalim 6:1, fol. 49d): “Assim como no mar, há ondas enormes, com uma série de pequenas ondas entre elas, assim há Dez Mandamentos, com uma série de refinamentos e mandamentos particulares da Torá entre eles.”


            Quinhentos anos depois, Rav Saadia Gaon (888-942) escreveu os azharot, ou hinos litúrgicos, para Shavuot, em que todos os 613 mandamentos são distribuídos sob os títulos de cada um dos Dez Mandamentos.


            Uma idéia semelhante é encontrada em Números Rabbá (13:15-16, ed. Mirkin, p.171), editado no século 12. Esse midrash afirma que há 620 letras nos Dez Mandamentos; 613 letras referem-se aos 613 mandamentos e os outros 7 referem-se aos sete dias de criação. "Isto vem ensinar que o mundo inteiro foi criado por causa da Torá."


            Além disso, o rabino Levi afirmou que os Dez Mandamentos estão incluídos em outras passagens bíblicas centrais, como o Shemá (uma oração recitada duas vezes ao dia) e Levítico Capítulo 19, o início da porção da Torá Kedoshim.

 

Costumes antigos

 

Portanto, dada a sua centralidade, por que não se leem os Dez Mandamentos todos os dias, assim como lemos o Shemá (que é composto por Deuteronômio 6 e 11 e Números 15) e a Canção do Mar (Êxodo 15)?

 

             A resposta é que no período do Segundo Templo, os judeus realmente liam os Dez Mandamentos todas as manhãs. Dessa forma, aparece no Papiro de Nash, que foi escrito no Egito cerca de 150 A.E.C. e publicado em 1903. Contém os Dez Mandamentos (Deuteronômio 5), seguidos pelo início do Shemá (Deuteronômio 6), e os estudiosos acreditam que era um texto litúrgico.

 

            Além disso, os Pergaminhos do Mar Morto descobertos em 1947 incluem pelo menos três pequenos pergaminhos que contêm os Dez Mandamentos, o Shemá (Deuteronômio 6 e 11) e outras passagens selecionadas do Deuteronômio e do Êxodo. Esther Eshel, em um estudo exaustivo sobre um desses fragmentos, acredita que foram coleções de orações recitadas em Qumran.

 

            Uma referência mais explícita é encontrada em Tamid 5: 1, que afirma que os sacerdotes no Templo costumavam recitar todas as manhãs "os Dez Mandamentos, o Shemá (Deuteronômio 6), V'haya im shamoa (Deuteronômio 11) ... Emet V'yatziv (a benção após o Shemá) , a benção da Avodá (encontrada hoje na Amidá, oração central recitada em todos os serviços) e a bênção sacerdotal".

 

            Da mesma forma, em Sifrei Devarim, os sábios discutiram a possibilidade de incluir os Dez Mandamentos no tefilin. De fato, sete fragmentos de Tefillin descobertos em Qumran incluem os Dez mandamentos. Além disso, o Pai da Igreja Jerônimo, que morou na Terra de Israel (342-420 E.C) relata que os Dez Mandamentos ainda estavam incluídos no tefillin em seu dias. Em seu comentário a Ezequiel 24:17, ele diz que:

 

"Os hebreus dizem que os sábios da Babilônia observam os preceitos ao redor de suas cabeças até hoje com os Dez mandamentos escritos em pergaminho, e isto é que lhes foi ordenado pendurar diante de seus olhos em suas frontes ..."

 

Por que os Dez mandamentos foram retirados?

 

            No entanto, se os sábios consideravam os Dez Mandamentos tão importantes, por que eles os retiraram das orações diárias? Rav Matana e Rabi Shmuel bar Nahman explicaram no Talmud Yerushalmi Berachot, capítulo 1, fol. 3c: "Seria apropriado ler os Dez mandamentos todos os dias; e por que nós não o fazemos? Por causa dos hereges, para que não venham a dizer: somente estes foram dados a Moisés no Sinai".

            O Talmud Babilônico também explica (Berachot 12a): "Eles já foram abolidos por causa do murmúrio dos hereges". Quais hereges eles tinham em mente? As teorias incluem os primeiros cristãos, filósofos, gnósticos, samaritanos ou um grupo de judeus no terceiro século. Em qualquer caso, a abolição da recitação decorreu do fato de que certos grupos alegavam que somente os Dez Mandamentos foram dados a Moisés no Sinai.

 

            De fato, quando Maimônides intentou evitar o costume de ficar em pé durante a leitura pública dos Dez Mandamentos, ele usou um argumento similar:  “... e eles pensam que a Torá contém diferentes níveis e que algumas partes são melhores do que outras, e isso é muito ruim...” Em outras palavras, ficar em pé durante a leitura dos Dez Mandamentos dá a impressão de que certas partes da Torá são mais sagradas do que outras.

 

Tentativas de restauração

 

Apesar desta oposição, houve algumas tentativas de se manter o costume original ou renová-lo. Alguns amoraim da Babilônia (sábios) tentaram renovar o costume nas cidades de Sura e Nehardea, mas outros amoraim se opuseram (Veja Talmud Babilônico em Berachot). Os membros da sinagoga palestina em Fustat continuaram a recitar os Dez Mandamentos no Shabat e nas festas antes do Shirat Hayam (A Canção do Mar) até o século XIII.

 

            O rabino Shelomo ben Adret - o Rashba (Barcelona 1235-1310) – foi questionado se alguém poderia recitar os Dez Mandamentos no serviço de shacharit (manhã) “porque há pessoas que querem instituir isto em público”. Ele respondeu que a despeito desta prática ser apoiada pela Mishná Tamid (citada acima), esta já foi abolida “por causa do murmúrio dos hereges” (Berachot 12a citado acima) e, portanto, está proibida.

 

            Uma geração depois, o rabino Jacob ben Asher (Espanha, morreu por volta de 1340) reintroduziu os Dez Mandamentos “pela porta de trás”. Ele diz no primeiro parágrafo do Tur Orah Hayyim que “é bom recitar a Akedah (Gênesis 21), o relato sobre o maná (Êxodo 16) e os Dez mandamentos...” antes do serviço de shacharit.

 

            Esta passagem foi citada pelo rabino Yosef Caro (1488-1575) em seu Shulchan Aruch (Orach Hayim 1:5). O rabino Isserles (Cracóvia, 1525-1572) rapidamente adiciona ao seus comentários asquenazitas que apenas um indivíduo pode fazê-lo, mas que é proibido recitá-los em público, como o Rashba determinou.

 

            Rabi Shlomo Luria (Cracóvia 1510-1574), relata em sua responsa (decisão rabínica) que, de acordo com o Tur, ele recita os Dez Mandamentos todas as manhãs antes de Baruch Sheamar, uma das orações da manhã.

 

            Com efeito, alguns livros de oração modernos incluem os Dez Mandamentos.
Baer imprimiu-os em seu clássico Avodat Yisrael (Rodelheim, 1868) no final do Shacharit após o salmo diário, como fez o sidur (livro de oração) da ArtScroll em nossos dias. No sidur  Reform Gates of Prayer (Nova Iorque, 1975), os Dez Mandamentos aparecem na seção de temas especiais, na parte final.

 

            É difícil escolher lados neste debate. Por um lado, os Dez Mandamentos são muito importantes para o judaísmo e é bom para os judeus recitá-los diariamente e conhecê-los de cor. Por outro lado, existe o perigo de que as pessoas pensem que "existem diferentes níveis na Torá"; eles ignorarão todo o sistema da halachá [lei judaica] e observarão apenas os Dez Mandamentos.

 

            Portanto, é bom que nossos ancestrais só exijam a leitura dos Dez Mandamentos em público três vezes ao ano, mas encorajaram sua recitação em privado durante todo o ano. Desta forma, enfatizamos sua importância sem transformá-los nas únicas mitzvot (mandamentos) importantes.

 

 

Artigo publicado originalmente no My Jewish Learning, www.myjewishlearning.com/article/whatever-ever-happened-to-the-ten-commandments/

Por: Rabino David Golinkin

Tradução: José C. de Oliveira Sampaio

 

 

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