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Milhares de homens e mulheres que reivindicam ser descendentes de conversos forçados partiram para uma odisseia emocional a fim de recuperar a fé original de suas famílias: o judaísmo.

 

Criado em uma família católica na década de 1950, na antiga cidade das baleias, New Bedford, Massachusetts, a vida de Linda da Costa no início se assemelhava à de seus vizinhos. Quando se reuniam, recordavam seus ancestrais portugueses com orgulho. A sua própria família havia vindo dos Açores, um arquipélago no meio do Oceano Atlântico. Mas havia diferenças.

 

"Em casa, fomos ensinados a verificar se havia manchas de sangue em ovo cru e lavar carne em água com sal, lembra da Costa. "Na primavera, minha mãe insistia em retirar de casa qualquer migalha que lá fosse encontrada. A limpeza da casa era feita às sextas-feiras, havia pouco entusiasmo para ir à igreja.

 

Só depois de visitar Israel em 1995 - uma das várias visitas a Israel que ela se sentiu compelida a fazer sem saber o porquê - ela entendeu melhor que sua família estava preservando certos ritos judaicos. Antes disso, "eu não tinha uma única pista de que meus antepassados ​​poderiam ter sido judeus", diz ela.

 

Linda - agora conhecida como Yaffah Batya - retornou formalmente ao judaísmo através de um estudo intensivo e purificação ritual. Ela vive hoje em um bairro de Jerusalém e lidera um ativo grupo de pessoas que, assim como ocorrera com ela, estão buscando um retorno à fé de seus antepassados.

 

Preferindo os termos hebraicos b’nei anussim (filhos de conversos forçados) em lugar de criptos-judeus ou, simplesmente, conversos, muitos desses homens e mulheres rastreiam sua descendência da massa dos convertidos à força na Península Ibérica no século XV. Seus ancestrais mais tarde se espalhariam pelo norte da Europa, o Novo Mundo, a Ásia e a África para escapar da Inquisição.

 

Nem todos os que retornam ao judaísmo são de origem espanhola e portuguesa. Por exemplo, a Itália, um país que historicamente tinha tanto sefaraditas quanto asquenazitas, bem como judeus que haviam estado lá desde a época romana. Ao longo dos séculos, gerações de judeus italianos também foram coagidas à conversão ao catolicismo, cada cidade tendo sua “casa dos catecúmenos”, um santuário para judeus que concordavam em aceitar a Cristo. Essas práticas geraram centenas de italianos, especialmente no sul da Itália, na Sicília e na Sardenha, que hoje compartilham da mesma distante memória de um passado judaico.

 

"Temos uma nova congregação em Trani composta inteiramente por anussim retornados", relata Massimo Mandolini, professor de língua e civilização italiana no Saddleback College em Mission Viejo, Califórnia. Mandolini nasceu na cidade portuária adriática de Ancona. Depois de pesquisar suas raízes judaicas em uma odisseia emocional que o empurrou de volta aos antigos usos e costumes culturais e ao dialeto dos judeus italianos, ele agora está passando por um retorno formal ao judaísmo.

 

"Mesmo em Varsóvia, pessoas estão chegando ao rabino, dizendo que pensam que são judeus e pedindo ajuda", diz o rabino Jules Harlow, de Nova York, editor e tradutor de livros de oração para a Assembleia Rabínica, a associação internacional dos rabinos conservadores.

 

Mas, por que agora? Os estudiosos dizem que a internet provê milhares de ferramentas genealógicas para ajudar a afirmar a suspeita de um passado judaico discutido anteriormente apenas com sussurros. Isso ainda ganha mais força porque "o estigma de ser judeu não é mais o que era", observa Harry Ezratty, historiador da vida judaica caribenha.

 

Os especialistas usam palavras como "milhões" em relação aos potenciais retornados, mesmo que apenas uma pequena fração dê o passo adiante. Considere-se o Brasil: entre os quase 200 milhões de brasileiros hoje, pelo menos 40%, ou 80 milhões, são considerados de origem portuguesa. Destes, pelo menos um 1/4, ou 20 milhões, têm sangue judeu, diz Jacques Cukierkorn, rabino brasileiro no New Reform Temple da Cidade do Kansas. Ele pesquisou os números em 1994 enquanto terminava uma dissertação de mestrado sobre os judeus escondidos do Brasil. Se 10 por cento ou menos procurassem o retorno, isto ainda somaria quase dois milhões.

 

Cidades com comunidades já ativas de b’nei anussim incluem Ruidoso, Carlsbad e Socorro, no Novo México; Denver e Pueblo, no Colorado; Mexicali, Tijuana, Veracruz e Cidade do México, no México; Cidade da Guatemala, na Guatemala; Las Tunas, em Cuba; e Bogotá e Cartagena, na Colômbia.

 

Embora não existam estatísticas firmes, Seth Ward, ex-diretor do Instituto para Estudos Islâmicos-Judaicos da Universidade de Denver, e especialista da vida cripto-judaica, estima que cerca de 10 mil já retornaram a alguma forma de observância judaica aberta na última década ou antes. É uma jornada altamente pesada. "[O judaísmo] preencheu um vazio que sempre senti na minha alma", explica Sonya Loya, de Ruidoso. Loya, que é uma artista de vidro, foi criada como católica, formalmente reivindicando seu judaísmo somente no ano passado.

 

Nos Estados Unidos (como no Brasil), "isso poderia mudar o tom da vida judaica de uma base fortemente asquenazita para uma mais hispânica", prevê Stanley Hordes, professor adjunto de pesquisa no Instituto Latino-Americano e Ibérico da Universidade do Novo México e fundador da Sociedade de Estudos Cripto-Judaicos. Mas, "há um ‘se’ muito grande", acrescenta.

 

Este "se" localiza-se, por um lado, na resposta do mundo judaico dominante e, por outro, no sentimento dos b’nei anussim. Pois ainda não há muito acalento entre os dois campos. Líderes de vários movimentos ainda não tomaram nenhuma iniciativa formal, deixando para os rabinos locais a decisão sobre como lidar com cada situação.

 

Sem um plano geral sobre a questão, argumenta o rabino Ron Cohen, diretor da Comunidade Israelita de Mexicali, congregação formada há apenas um ano e composta quase inteiramente por b’nei anussim, estes homens e mulheres são deixados em estado de confusão, recebendo “diferentes informações a cada vez”. Depende muito se um rabino em particular vai oferecer um programa de retorno ou conversão, ambos podem ser sancionados pelo beit din local.

 

Embora as diferenças entre eles possam parecer pequenas, são significativas para o que está em retorno. Por exemplo, da Costa descobriu que os rabinos ortodoxos podem dizer a alguém em processo de conversão que ele ou ela pode violar as leis do shabat (cozinhar, dirigir um carro) até passar pelo mikvê, porque ainda não é um pecado, haja vista que essa pessoa ainda não é judia. Mas para quem está em processo de retorno não é assim.

 

O rabino conservador David Kunin, de Edmonton, Alberta, também marca as diferenças no material em que ele ensina. Sua abordagem para o que está em retorno "difere porque vou me concentrar mais na experiência cripto-judaica como uma maneira de ajudá-los a valorizar seus ancestrais", explica. Quando se trata da redação do certificado, Kunin deixa de lado qualquer menção de que o retornado está entrando de fora no judaísmo, o que é comum na conversão.

 

No entanto, até mesmo uma pequena menção a conversão desencoraja a pessoa de seguir adiante. É uma pena porque "isso nos dá uma oportunidade única", insiste Cohen. Judeu, nascido em Chicago, ele tem liderado uma rede informal que auxilia comunidades emergentes no México, Cuba, Guatemala, Brasil e Colômbia com livros, kipot e outras necessidades. Além disso, há o abismo cultural. Mandolini, que está estudando com rabinos do movimento chabad, tipicamente acha difícil se sentir “um com a comunidade", ele diz, explicando: "é tudo tão do leste europeu".

 

Outros não se sentem bem quistos. Da Costa pensa que isso frequentemente vem do fato de serem hispânicos, o que evoca a imagem de alguém pobre e sem formação. "Mas temos engenheiros de software", diz ela, "médicos e profissionais do mercado financeiro, como eu".

 

Mesmo os rituais desafiam uma integração fácil, diz Caitlin O'Sullivan Bromberg, cantor da congregação conservadora B'nai Israel, em Albuquerque. "O judaísmo americano ou é muito iídiche ou muito casual para alguém com uma formação católica na América Latina", diz ela. "Um judaísmo com tendência mais liberal, como eles o veem, não oferece o mistério e a espiritualidade que estão buscando".

 

O mundo sefaradita organizado também oferece pouca ajuda. "Nós tentamos ajudar", diz Esmé Berg, ex-diretor da Federação Americana Sefaradita, "mas é de forma ad hoc", como o arrecadação de fundos que eles realizaram para a Da Costa há um ano.

 

O que está acontecendo é em grande medida uma repetição dos séculos anteriores. Durante outros períodos de retorno em massa - como a chegada de anussim espanhóis e portugueses a Amsterdã ou ao Império Otomano nos séculos XVI e XVII - a resposta judaica foi igualmente mista.

 

Para muitos, os requisitos rigorosos da lei judaica para a conversão tornam-se um obstáculo - instruções detalhadas, purificação ritual e circuncisão obrigatória. Essa complexidade foi destacada em uma conferência chamada "Conversão e Reversão ao Judaísmo" realizada no Centro de História Judaica, em Nova York, em março passado, onde nos painéis discutiram o quão difícil tem sido ao longo dos séculos para os rabinos responderem à sensibilidade dos retornados ao mesmo tempo em que cumprem sua obrigação de preservar plenamente a lei judaica.

 

Quando tudo isso se mistura ao sentimento de não ser bem vindo, não é de se admirar que muitos b’nei anussim permaneçam às margens ou se organizem por conta própria. Considere o Centro de Aprendizado Hebraico Bat-Tziyon, fundado por Loya em Ruidoso, no ano de 2004, como uma iniciativa educacional e de divulgação. Ou Ezra L'Anussim, que organizou um grupo de dezenas de pessoas oriundas dos Estados Unidos, Espanha, Brasil, Colômbia e Portugal a fim de visitar Israel para a páscoa neste ano. Alguns, como Da Costa e o Professor Avi Gross da Universidade Ben-Gurion do Negev, estão pressionando por um uso mais amplo de um programa de retorno ao invés de conversão. Já está sob consideração pelo Rabinato Chefe em Israel, diz Shulamit Halevy, doutoranda na Universidade Hebraica de Jerusalém e defensora há longo tempo dos b’nei anussim. Além disso, há uma quantidade crescente de recursos on-line.

 

Alguns b’nei anussim estão assumindo um papel de liderança ao entrar no rabinato. Entre eles está o espanhol Jordi Gendra, que se formou em junho no Colégio Rabínico Reconstrucionista na Filadélfia; Juan Mejia, de Bogotá, em curso no Seminário Teológico Judaico Conservador em Nova York; e Rigoberto Emmanual Viñas de Cuba, rabino desde 1998, agora em uma congregação ortodoxa em Yonkers, Nova York. (Enquanto esses estudantes de teologia e rabinos foram todos submetidos à conversão, outros b’nei anussim mencionados estudaram ou estão estudando com um rabino como retornados).

 

E o mundo judaico está lentamente despertando. Israel agora oferece em espanhol dois ulpanim religiosos - cursos intensivos de língua hebraica destinados aos recém-chegados ao país. Além disso, no verão passado, pela primeira vez, três b’nei anussim de Recife, no Brasil, foram convidados por um grupo de judeus brasileiros a uma visita de 10 dias a Israel, cortesia da Shavei Israel, um grupo que ajuda os retornados e o Taglit-Birthright, uma entidade filantrópica parceira que trabalha para fortalecer a identidade judaica.

 

O Conselho Mundial de Sinagogas Conservadoras / Massorti enviou recentemente a Harlow e sua esposa, Navah, a Lisboa para ajudar 18 portugueses a completar seus requisitos para conversão. O grupo já havia estabelecido sua própria congregação, Kehilat Beit Yisrael.

 

A cantora Bromberg, em Albuquerque, separa um serviço de sexta à noite por mês para orações cantadas parcialmente em espanhol. Ela também inclui mais melodias em ladino.

 

 

Há quatro anos, Cukierkorn publicou uma introdução ao judaísmo em língua espanhola. Intitulado HaMadrij [2]: Um Guia dos Valores e Práticas do Judaísmo Moderno (European Association of Jewish Studies [Associação Europeia de Estudos Judaicos]), seu guia tem sido indicado aos rabinos que pedem ajuda ao escritório central da Union for Reform Judaism (União para o Judaísmo Reformista), diz Kathy Kahn, sua diretora de divulgação e comunidade da sinagoga. Mas Kahn reconhece que "precisamos aprender" como lidar melhor com o fenômeno.

 

 

A integração completa pode demorar várias gerações. "Os que estão chegando agora podem nunca se sentir totalmente confortáveis", diz Bromberg, mas, idealmente, "seus filhos se sentirão".

 

 

Traduzido por José C. de Oliveira Sampaio

[1] Publicado originalmente na Revista Hadassah: www.hadassahmagazine.org/2006/12/12/e-mail-past-return-receipt-requested/

[2] A versão em português, publicada em 2015 pela Brit Bracha Brasil, é intitulada: Judaísmo acessível, um guia dos valores e práticas do judaísmo moderno.

 

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