Rastreando Antigas Pegadas

 

“Algo despertou em mim. Não consigo explicar, mas sei sem sombra de dúvida que sou judia. Não há judeus onde moro [no Novo México]. Eu fui criada como católica, mas na escola católica eles diziam que eu não parecia ser católica. Meus pais puseram uma enorme estrela de Davi com nossas luzes de Natal. Preciso de provas. Preciso da sua ajuda. Estou implorando. Por favor, indique-me o caminho correto.”

 

Por Rahel Musleah [1]

 

Genie Milgrom recebe centenas de e-mails como este todos os anos. Eles brotam do Brasil à Bolívia, do Peru a Portugal. Milgrom, presidente da Sociedade de Estudos Cripto-Judaicos e da Sociedade Judaica de Genealogia da Grande Miami, responde a cada mensagem. Ela rastreou sua própria linhagem materna ininterrupta de volta a uma família judaica em Fermoselle, na Espanha, que foi forçada a se converter sob o punho de ferro da Inquisição, mas manteve secretamente as práticas judaicas. (Os judeus que se converteram sob ameaça são anussim, seus descendentes são b'nei anussim, eles também são chamados de cripto-judeus ou conversos.) Nascida em Havana, Cuba, e criada como católica romana em Miami, Milgrom, 59, rastreou as raízes de sua família até 1480 através de registros da Inquisição e passou a documentar suas descobertas em dois livros [2]: My 15 Grandmothers e How I Found My 15 Grandmothers: A Step by Step Guide (Minhas 15 Avós e Como Encontrei As Minhas 15 Avós: Um Guia Passo a Passo). Judia ortodoxa que se converteu quando tinha 35 anos, tornou sua missão ajudar a levar outros “para fora das cinzas" da história, disse ela.

 

Descendentes de anussim estão emergindo em maior número do que nunca antes. Com sede de descobrir sobre sua herança perdida, para se reconectar a uma religião em que se sentem misteriosamente em casa ou para reverter de todo o coração à identidade e prática judaica, eles estão alcançando guias como Milgrom e vários rabinos nos Estados Unidos e no exterior. Milgrom não duvida da veracidade de suas histórias. "Eu não sei por que alguém iria fingir isso", diz ela. "É difícil ser judeu".

 

Doreen Carvajal, 58, é uma repórter do New York Times em Paris, seu  livro [3] documenta sua jornada da Costa Rica, onde ela nasceu, a Segóvia, Espanha. No Arquivo Histórico Nacional de Madri, Carvajal encontrou transcrições dos diálogos do julgamento no século XV entre um membro converso da família - que bispo - e Tomas de Torquemada, o primeiro grande inquisidor espanhol. Dezenas de testemunhas e vizinhos testemunharam contra a família por ações tão banais como comer adafina, um tipo de guisado comum entre os judeus de Portugal e Espanha.

 

“Agora que eu entendo o que aconteceu, valorizo a perseverança dos meus antepassados para preservar suas crenças”, diz Carvajal. "Quando vejo as minhas próprias lutas, penso no que eles alcançaram." Ela agora está buscando uma conversão formal.

 

"B’nei anussim... É um fenômeno vivo e inspirador... Homens e mulheres... ansiosos para criar novas conexões com o povo judeu", diz Michael Freund, fundador e presidente da Shavei Israel, um grupo com sede em Jerusalém que auxilia "judeus perdidos" a retornar ao povo judeu. "Depois de tantos séculos, temos a oportunidade e a responsabilidade moral, religiosa e histórica de abrir a porta para eles". A Shavei Israel tem emissários na Espanha e em Portugal, e recentemente expandiu seu alcance para o sul da Itália e da Sicília, bem como para El Salvador, Chile e Colômbia. Seu centro Machon Miriam em Jerusalém prepara centenas de b’nei anussim para conversão a cada ano.

 

O potencial para a comunidade judaica é imenso. Não existem dados demográficos exatos, mas os especialistas estimam que os judeus perdidos para o judaísmo durante as inquisições espanhola e portuguesa, principalmente através de conversões forçadas, variam entre 200.000 a 800.000; o número de descendentes é de milhões, diz o rabino Stephen A. Leon, da congregação conservadora B'nai Zion em El Paso, Texas, que se tornou um ímã para os b’nei anussim em todo o sudoeste dos Estados Unidos.

 

"A história dos cripto-judeus ainda é o maior segredo da comunidade judaica e geral", diz Leon. Mas está começando a entrar no mainstream. Leon, cujos avós eram Ashkenazitas, mas cuja ascendência é Sefardita, liderou a abertura do Sephardic Anousim Cultural Resource Center em El Paso no verão passado. Organizações como Bechol Lashon e Kulanu, que defendem a diversidade judaica, assumiram a causa. Nascido na colombiana Juan Mejía, um rabino conservador na cidade de Oklahoma, e Jacques Cukierkorn [4], um rabino reformista no Overland Park, Kansas, que estabeleceu a primeira sinagoga virtual espanhola, também estão ajudando o retorno de b'nei anousim, especialmente através da divulgação pela Internet.

 

Children of the Inquisition (Filhos da inquisição), um projeto multimídia e documentário em produção, segue um grupo de b’nei anussim em sua busca e explora como as conversões forçadas moldaram a história e distorceram identidades. "Este é um ‘novo olhar’ sobre a história que só pode acontecer hoje", diz o diretor de Children of the Inquisition, Joseph Lovett, um ex-diretor e produtor da ABC 20/20.

 

O documentário inclui entrevistas com Carlos de Medeiros, 50, um artista brasileiro que mora em Nova Jersey. Os ganchos em Hanging Man, uma cruz que ele criou com dois cabides de cabeça para baixo, simbolizam pontos de interrogação e, explica Medeiros, o seu "distanciamento" do cristianismo. Sua família, diz ele, era "muito cristã, mas tinha uma tradição kosher" que excluía os frutos do mar. Ele até tentou dirimir as suas dúvidas sobre a fé ao ingressar num seminários para padres (ele foi reprovado após nove meses). Quando sua mãe se reconectou com parentes que tinham documentos que comprovavam que sua 14ª avó era uma conversa (convertida do judaísmo ao cristianismo) que fugiu de Portugal para o Brasil, ele encontrou uma espécie de ponto final. "Completei um círculo até chegar a algo a que pertenço", diz ele. "É um trabalho em andamento. Nunca deixe a chama se apagar."

 

Há três anos atrás, o rabino Shalom Morris, diretor educacional da Congregação Shearith Israel, a sinagoga espanhola e portuguesa com 350 anos em Nova York, abriu uma página no Facebook, coincidentemente chamada Children of the Inquisition, para que as pessoas compartilhem suas experiências, explorem suas identidades e façam perguntas sobre o judaísmo. "Nossos 23 membros fundadores foram conversos ou descendentes de conversos", explica Morris, que é asquenazita. Seu bisavô (Rabi Eliezer Silver) foi ativo nos esforços de socorro durante a Segunda Guerra Mundial. "Temos um imperativo histórico para ajudar os b'nei anussim. Nós os recebemos no santuário e lhes dizemos: "Pessoas que foram conversos e retornaram ao judaísmo construíram isso. Esse também é o seu potencial. Vocês têm a capacidade de contribuir para a comunidade judaica de uma maneira incrivelmente importante ".

 

No nível prático, Morris diz, a conversão é necessária porque a ascendência é "obscura". O beit din ortodoxo da América, através do qual ele faz as conversões, tornou-se familiarizado com os b'nei anussim. Em Israel, diz Freund, os tribunais rabínicos tem mostrado "uma grande simpatia e abertura aos b'nei anussim. Eles os veem como pessoas que estão procurando se juntar à herança de seus antepassados​​".

 

A conversão pode ser um processo delicado e emocionalmente pesado. Os b'nei anussim podem sentir raiva porque a Igreja lhes roubou um tesouro. Eles também podem entrar em conflito sobre sua judaicidade. "Quando entrei no mikve, senti-me amedrontado para enfrentar uma nova realidade, que ao me converter eu estava reconhecendo o fato de que eu não era judeu antes", escreve o colombiano Luis Lozano Paredes, 26, que compartilhou sua história no site de Lovett. Luis converteu-se pelo Seminário Rabínico Latino-Americano em Buenos Aires e, depois, escavou profundamente a ascendência de sua família. "Por algum motivo tolo, eu queria provar a minha judaicidade além do processo religioso. Eu queria ser judeu de sangue. Não tinha lógica nisso aqui." Ele conseguiu estabelecer a sua conexão judaica genética, mas depois percebeu que isso não importava. "Não é graças a essa ‘linhagem de sangue’ que sou judeu. Sou judeu porque o quis ser... É algo que eu sentia lá dentro, no meu coração, na minha cabeça e no meu corpo."

 

Em El Paso, Leon converteu cerca de 60 famílias. Vinte por cento de sua congregação de 350 é descendente de conversos; eles são membros ativos e muitos querem fazer aliya. Leon estima que 15 por cento da população latina na área de Juarez-El Paso, com quase três milhões de pessoas, tem raízes judaicas. Através de iniciativa sua, a United Synagogue of Conservative Judaism - USCJ [5], aprovou uma resolução em 2009 para que o Tisha B'Av - a exata data hebraica da expulsão espanhola em 1492 - seja um dia de comemoração.

Tanto Leon quanto Milgrom acreditam que o retorno de b'nei anussim representa uma reunião dos exilados que é um precursor dos tempos messiânicos. "Eu sei que isso parece loucura", diz Leon. "Desde o tempo de Abraão até hoje, Deus teve uma missão para o nosso povo. A única que ainda não foi cumprida é que seríamos tão numerosos como a areia do mar e as estrelas no céu. Nós somos poucos como nunca antes. A resposta está nos b'nei anussim."

 

Milgrom é uma das poucas pessoas que já receberam um certificado de retorno (concedido aos judeus por nascimento) do rabinato israelense depois que sua pesquisa foi verificada por estudiosos da Inquisição. Ela estava determinada a provar que já era judia. "Eles me disseram que eu me tornei judia por conversão e que não poderiam me fazer mais judia do que eu era", diz ela.

 

Os filhos de Milgrom de seu primeiro casamento não se converteram com ela. Sua mãe entendeu sua conversão como uma decisão individual; a sua jornada genealógica criou um conflito porque envolveu a identidade da família toda. "Você vem a este lugar sozinho", diz Milgrom, "sem a sua família".

 

O isolamento multiplica-se grandemente quando os b’nei anussim vivem sem acesso a uma comunidade judaica organizada. Os rabinos próximos podem não os aceitar. Alguns estudam com rabinos na internet ou até mesmo se envolvem com Jews for Jesus (judeus para Jesus).

 

Gustavo Ramirez Calderón, 46, engenheiro mecânico, da pequena cidade de San Antonio de Desamparados na Costa Rica, traça sua família de volta a Portugal e Espanha em 1480. Ele diz que os membros da comunidade judaica na capital San José são encorajadores, mas os rabinos locais de todas as denominações repetidamente rejeitaram suas inúmeras tentativas de solicitar estudo e conversão ao longo de 35 anos. "Eu não os culpo ou tenho raiva", ele escreve em um e-mail. "Eu entendo que eles podem estar reticentes porque retornamos após 500 anos de ausência".

 

Quando ele adotou um estilo de vida judaico, seus vizinhos católicos quebraram suas janelas e mancharam suas paredes com suásticas. Mas Ramirez Calderón se recusou a abandonar a cidade que um de seus ancestrais fundou em 1595. Ele estuda à distância com o rabino Benjamin Viñas, fundador do Centro de Estudos e Espiritualidade Judaica Torat Emet, no centro judaico em Lincoln Park, Yonkers, Nova York.

 

"Quero andar de cabeça bem erguida como um judeu livre", diz ele. E quanto à próxima geração? Carvajal diz que sua filha, de 17 anos, está "interessada e cautelosa. Devido à nossa história, nunca a forçarei a escolher uma religião. O nome dela é Claire, a versão francesa de Clara, uma das minhas antepassadas ​​que foi investigada por heresia em Segóvia (Espanha). Esse nome significa clara e brilhante. E um dia sei que ela encontrará o seu caminho.”

 

 

 

[1] Originalmente publicado em www.hadassahmagazine.org/2015/02/17/retracing-old-footsteps/. Traduzido e adaptado por José C. de Oliveira Sampaio.

 

[2] Ainda não possuem tradução em português, apenas edições em espanhol: Mis Quince Abuelas e Como Encontré a Mis Quince Abuelas.

 

[3] The Forgetting River: A Modern Tale of Survival, Identity and the Inquisition da editora Riverhead, obra sem tradução em português.

 

[4] Rabino Jacques Cukierkorn - fundador da Brit Braja Worldwide Jewish Outreach, a maior organização de educação judaica a distância com sede nos EUa e duas filiais: México e Brasil, ajuda aos B'nei Anussim a mais de 20 anos, através de processos de retorno ou conversão.  Possui um livro altamente recomendado traduzido para o português, "Judaísmo Acessível" que ajuda as pessoas que desejam se aproximar ao Judaísmo. Para contato com o Rabino Jacques Cukierkorn escreva para rabbi94@hotmail.com

 

[5] A USCJ é a federação americana das sinagogas do movimento conservador.

 

 

 

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