Maimônides (Rambam) e seus textos

 Um dos maiores eruditos judeus de todos os tempos, era ele tanto tradicionalista quanto inovador.

Por Danny Moss

Tradução por José C. de O. Sampaio.

 

Moisés Maimônides, também conhecido como Rambam, foi um dos maiores eruditos judeus de todos os tempos. Ele deixou contribuições enquanto filósofo, codificador da lei judaica, médico, conselheiro político e autoridade legal local. Ao longo de sua vida, Maimônides habilmente navegou por mundos paralelos, mas díspares, servindo à comunidade judaicas e à comunidade mais ampla.

 

Maimônides era tanto um tradicionalista quanto um inovador. Embora tenha posto a sua parcela nas controvérsias, no entanto, ele passou a ocupar uma posição de reverência singular e inquestionável nos anais da história judaica.

 

Um cidadão do mundo

 

Moshê ben Maimon nasceu em 1138 ou antes em 1137. “Maimônides” é a tradução grega de “Moisés, filho de Maimon,” enquanto o acrônimo RamBaM (ם״בּמר) é seu equivalente hebraico. Ele cresceu em Córdoba, no que é agora o sul da Espanha. Criado em uma família próspera e culta, o jovem Maimônides estudou os textos judaicos tradicionais - Mishnah, Talmud e Midrash - sob a tutela de seu pai, Maimon. (Um grande erudito em seu próprio direito, Maimon era o descendente intelectual do lendário Isaac Alfasi, especialista na lei judaica, halachá.).

 

Maimônides também estudou disciplinas seculares como astronomia, medicina, matemática e filosofia - um currículo medieval de "artes liberais", por assim dizer. Ele foi particularmente cativado pelos filósofos gregos Aristóteles e Plotino; suas idéias o convenceram de que a indagação racional não era apenas conciliável com o judaísmo, mas, de fato, sua disciplina central. Abençoado com uma memória prodigiosa e curiosidade intelectual voraz, Maimônides adotou uma visão expansiva da sabedoria. Ele tinha pouca paciência com aqueles que se preocupavam mais com o prestígio dos estudiosos do que com os méritos de suas afirmações e admoestou seus alunos: "Vocês devem ouvir a verdade, não importa quem a tenha dito" (Comentário sobre a Mishná, Tratado Nezikin).

 

Maimônides viveu sob o domínio islâmico durante toda a vida, e ele tanto se beneficiou quanto sofreu muito por causa disso. Maimônides passou seus primeiros anos em uma sociedade em que a liderança muçulmana tolerante catalisou o intercâmbio cultural vibrante com as minorias judaicas e cristãs. A erudição islâmica em particular o influenciou, especialmente mais tarde em sua vida. Infelizmente, quando Maimonides tinha 10 anos, uma tribo fundamentalista berbere chamada Almóadas entrou em Córdoba e apresentou aos judeus três opções: conversão, exílio ou morte. A família de Maimônides escolheu o exílio, deixando Córdoba e, eventualmente, emigrando para o Marrocos por volta de 1160, quando Maimônides estava com 20 anos ou pouco mais. Muitos estudiosos acreditam que Maimônides pode ter de aparência praticado o islã durante esse período, não por crença, mas para se proteger, e que continuou a praticar o judaísmo secretamente. Em 1165, sua família partiu para a Palestina. Depois de uma breve, porém formativa, visita à terra de Israel, à época sob o domínio dos cruzados, eles finalmente se estabeleceram no Egito em 1166 - primeiro em Alexandria e depois em Fustat (parte do atual Cairo). Maimonides viveu lá até a sua morte em 1204.

 

Mishnê Torá e o Guia dos Perplexos

 

Apesar de sua exigente dedicação como médico, em tempo integral, Maimonides escreveu proliferamente, compondo trabalhos filosóficos, cartas de resposta éticas e legais, tratados médicos e, com 20 e poucos anos, um comentário sobre toda a Mishná. Suas obras-primas mais duradouras são a Mishneh Torah e o Guia dos Perplexos. Embora ele os tenha escrito em momentos diferentes e para diferentes públicos, os estudiosos modernos entendem a Mishnê Torá e o Guia como sendo altamente interdependentes. Eles projetam uma visão unificada e racional do propósito da vida judaica.

 

Mishnê Torá (escrito 1168-1178)

 

Maimônides compôs a Mishnê Torá (literalmente, uma “repetição” ou “segunda” Torá) durante um período de 10 anos, continuando a editá-la até sua morte. Compreendendo 14 livros e quase 1.000 capítulos, foi o primeiro código abrangente da halachá (lei judaica). Ao escrever o MT, Maimônides baseou-se em fontes anteriores, como a Mishná, Tosefta, Midrash e Talmud, com uma memória enciclopédica e atenção considerável tanto à intertextualidade quanto à estética literária. Não obstante a sua admiração por essas obras, ele projetou a MT para ser tão exaustiva e precisa que tornaria tudo, exceto a própria Torá, obsoleto. Em sua introdução, ele instrui: “Deve-se ler a Torá escrita e depois ler [a MT]. Assim, vai se conhecer a Torá oral na íntegra, sem precisar ler nenhum outro texto além”.

 

Para tornar a Mishnê Torá acessível a todo o mundo judaico, Maimônides organizou-a em tópicos e a compôs em hebraico claro e conciso. Em um afastamento radical da tradição, Maimônides omitiu na MT tanto os nomes dos estudiosos do passado quanto a maioria de suas opiniões, preservando apenas as decisões que considerou corretas. Os críticos o atacaram por esta decisão, gerando uma literatura ainda maior que cresce até hoje. Entre os seus mais ferozes críticos estava Abraham Ben David, o Ravad, (1125-1198 E.C.), um grande talmudista provençal que criticou Maimonides por omitir suas fontes, entre outras coisas. No entanto, a Mishnê Torá inspirou importantes estudiosos, como o rabino Jacob Ben Asher (1269-1343 E.C.) e o rabino Yosef Caro (1488-1575 E.C.), dois dos mais importantes codificadores posteriores, mudando a paisagem do pensamento judaico para sempre.

 

Guia dos perplexos (escrito entre 1185 e 1190 E.C.)

 

Enquanto ele imaginava uma ampla audiência para a Mishnê Torá, Maimônides pretendia que o Guia dos Perplexos se destinasse principalmente aos estudantes que tivessem terminado estudos e filosofia judaicos. Considerando que as fantásticas histórias da Torá e as representações antropomórficas de Deus pudessem levar esses estudantes a duvidar da compatibilidade das escrituras e da razão (daí a sua perplexidade), Maimônides procurou demonstrar que as duas coisas poderiam, de fato, coexistir.

 

Diferente da MT, que está escrita em um hebraico claro e acessível, o Guia está escrito em um menos conhecido e mais difícil árabe-judaico, o idioma dos judeus que viviam em terras muçulmanas na época. Em contraste com a Mishnê Torá, que é altamente organizada, o Guia, pela própria admissão de Maimônides, não possui nenhuma ordem convincente. Tópicos "... estão espalhados e misturados com outros assuntos ... pois o meu propósito é que as verdades sejam vislumbradas e, novamente, sejam ocultadas, de modo a não se opor a esse propósito divino ... que dissimulou entre as pessoas comuns as verdades especialmente necessárias para [a compreensão de Deus] "(Da introdução ao Guia, como aparece na tradução em inglês de 1963 por Shlomo Pines). Maimônides também semeou o Guia com inconsistências, às vezes afirmando uma coisa, mas pretendendo outra. Ele acreditava que estudantes realmente capazes discerniriam a "verdade" no final. As circunlocuções de sua autoria foram destinadas a proteger o conhecimento particularmente poderoso e perigoso sobre Deus, a criação e a vida pós-morte.

 

Segredos e controvérsias teológicas

 

Embora ele negasse que houvesse algo incompatível entre a filosofia grega e os ensinamentos judaicos, Maimônides pôde, no entanto, ter crido secretamente em coisas que eram anátemas para o judaísmo normativo. Os estudiosos debatem ferozmente os detalhes; mas, provavelmente nunca saberemos com certeza todos os seus pontos de vista. Todavia, conhecemos os pontos centrais.

 

Em seu comentário sobre a Mishná, Maimônides elencou os 13 princípios da fé judaica, em si mesmo um controverso empreendimento no judaísmo que, predominantemente, não utilizava credos. Muitos judeus cantam uma adaptação poética desses 13 princípios, chamada Yigdal no final dos serviços de Shabat a cada semana. O terceiro princípio de Maimônides é que Deus não tem corpo. Embora isso seja uma premissa universal hoje, no judaísmo do século XII não era necessariamente assim. Na verdade, alguns místicos medievais até escreveram tratados detalhando as medidas do corpo de Deus.

 

Maimônides ensinava que as descrições bíblicas de Deus são alegóricas, destinadas a ajudar os seres humanos a compreenderem melhor questões elevadas. Por exemplo, a Torá descreve o dedo de Deus (Êxodo 31.18), mão (Êxodo 9.3) e pés (Êxodo 24.10). Conforme Maimônides, essas descrições são "adaptadas à capacidade mental da maioria dos humanos, que reconhecem apenas os corpos físicos. A Torá fala em linguagem humana. Todas essas frases são alegóricas" (Mishnê Torá, leis fundamentais da Torá, 1.9). Maimônides reconhecia que a linguagem é inadequada para descrever um Deus que está além da cognição humana comum. Portanto, ele se propôs, no Guia dos Perplexos, a descrever Deus por negação: “Deus não é um corpo físico”; “Deus não é composto de partes distintas”, e similares.

 

Outro ponto principal de controvérsia é o relato da criação por Maimônides. O judaísmo normativo entende a história da criação no primeiro capítulo de Gênesis como criação ex nihilo (criação do nada). A filosofia aristotélica, no entanto, postula que o universo é eterno e, portanto, nunca foi "criado" como tal. Maimônides afirmou seguir a tradição rabínica sobre este assunto, mas os especialistas não estão de acordo sobre o que ele realmente acreditava.

 

Finalmente, as opiniões de Maimônides sobre a vida após a morte (Ver Mishnê Torá, Leis sobre Teshuvá, cap. 8) atraíram tanto admiração quanto desprezo. Ele ensinava que no olam habá (literalmente, “o mundo vindouro”), as almas dos justos se unem em perfeita contemplação de Deus. Alguns críticos o acusaram de rejeitar a eventual salvação individual do justo, conhecida como t'chiat ha-metim (ressurreição dos mortos). Um dos mais declarados detratores de Maimônides durante sua vida foi Samuel Ben Eli, o chefe da academia gaônica em Bagdá. Tão problemática foi a controvérsia sobre o pós-morte para Maimônides que ele eventualmente (em 1190 E.C) veio a escrever o Tratado sobre a Ressurreição, para indicar que, de fato, acreditava na ressurreição dos mortos. Maimônides morreu em 1204 e foi enterrado em Tiberias, no norte de Israel, conforme era desejo seu. Um epitáfio em sua lápide, que muitas pessoas continuam a visitar, compara-o favoravelmente ao seu homônimo bíblico: “De Moisés a Moisés nunca surgiu outro como Moisés”.

 

Leituras sugeridas sobre Maimônides (todas em inglês)

 

Halbertal, Moshe, trans. Joel A. Linsider. Maimonides: Life and Thought. Princeton, NJ: Princeton UP, 2014.

Kraemer, Joel L. Maimonides: The Life and World of One of Civilization’s Greatest Minds. New York: Doubleday, 2008.

Maimonides, Moses ( Isadore Twersky, ed.) A Maimonides Reader. New York: Behrman House, 1972.

Stroumsa, Sarah. Maimonides in His World: Portrait of a Mediterranean Thinker. Princeton, NJ: Princeton UP, 2009.

 

 

 

 

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