Chesed - Altruísmo

 

Quais são as duas grandes mitzvah? A primeira grande mitzvah se refere ao Criador e diz: "Amarás ao Eterno, teu Elohim, com todo teu coração, com toda tua nefesh, e com todo teu coração". A segunda grande mitzvah é relacionada ao ser humano: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo".
O ato de serem as duas mais importantes, significa que nelas estão a chave da Torah e dos Neviim (Profetas). Por quê? Porque o egoísmo e o egocentrismo são o mal que destroem a humanidade. Quando o ser humano deixa de lado o "Eu" e põe sobre ele o Todo Poderoso e a seu próximo como a ele mesmo, então facilmente pode viver a Torah, pois sem dúvida alguma o Egocentrismo e o Egoísmo estariam extirpados.

 

Quando o Criador nos disse: Shamor vezachor et haShabat! (Guarda e recorda o Shabat) o ser humano não pensaria primeiro no "Eu", no que "Eu" quero, senão no que o Eterno é o nº1 e sem dúvida O obedeceria, e quando o Eterno lhe diz 'dê a mão a teu próximo em sua necessidade', seguramente que primeiro não pensará em "Suas" possibilidades, nem em "Sua" situação econômica, nem no que pensa ou crê, senão no que ele e seu próximo são um.

 

A chave para obedecer a Torah é o altruísmo, dizer não ao Egoísmo e ao Egocentrismo. Recorde que tudo o que o ser humano tem é porque lhe foi dado, por exemplo a criação, a alma, a vida, o ar, os filhos, os pais, a Torah, etc..., de tal maneira que podemos dizer que o que o ser humano recebeu foi graças a outro, ou seja, o Criador, ou por meio de um ser humano; em outra palavras o ser humano necessita de outro, e quem criou ao outro ser humano senão o Eterno?

 

O Eterno foi o primeiro a fazer Chesed, o ato da criação e tudo o que contem é um ato de chesed, como está escrito em Tehilim (Sl) 89:3: "Olam chesed iebane" (O mundo está construído por chesed).
Isto quer dizer que o Criador fez o mundo somente por amor, Ele não criou para logo amar, senão que criou porque amou, ou seja Ele deu sem receber, o qual significa que o ser humano como parte da criação foi desenhado para Receber e Dar, para atuar com Chesed, e cada vez que o fazemos edificamos o mundo, por cada vez que não o fazemos nos destruímos.

 

Um mundo onde não se tem Chesed não sobrevive, porque o ser humano necessita um do outro, tanto como necessita do Criador, por isto diz: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo", ou seja, que deve existir um próximo a quem devas dar e de igual maneira ele vai te dar, e esse mútuo Chesed faz um sincronismo perfeito porque o Eterno criou o ser humano a Sua Imagem.

 

Todos os chachamim de alguma forma ou de outra fazem referência a Chesed, mas o que acontece que não se coloca por obra/ação? O que sucede é que se faz muito difícil fazer o bem quando o receptor não o é recíproco, é difícil dar quando não te dão ou saudar quando não te saudam; é que precisamente disso que se trata Chesed, mas se não fazes Chesed porque outros não o fazem contigo então te convertes em um igual a eles, e desta maneira se destrói o mundo.

 

A mensagem e que não importa que sejamos uns poucos os que fazem Chesed, não importa que seja só tua comunidade, ou só tua família, não importa que sejas somente tu.

 

O QUE É VERDADEIRAMENTE CHESED?

 

O Talmud Bavli, tratado Bava Metzia 30b, se registrou:


"Rabi Yochanan disse: Jerusalém foi destruída só por uma coisa: seus habitantes julgavam de acordo com o Din Torah (o legal da Torah). Por acaso deviam haver seguido o Din (o legal) de Megizata (a tiranía)? Não, senão que basearam seus juízos unicamente no Fin Torah (o legal da Torah) e não atuaram Lifnim Mishurat HaDin (dentro da linha traçada pelo legal)".


Para entender as palavras de Yochanan tem que se ter presente que o conceito de Chesed chamado 'Lifnim Mishurat HaDin' provém do pasuk de Shemot (Ex 18:20) que diz: "e ensina-lhes os Chukin e as Torot, e mostra-lhes o caminho no que devem andar e a obra que devem fazer.", a explicação que dá o Talmud é que 'a obra' é o Din (o legal) e 'o que devem fazer' é 'Lifnim Mishurat HaDin' (proceder dentro da linha do legal), quer dizer, o que Rabi Yochanan levanta é que a Torah demanda atuar dentro do marco do legal.

 

Os comentaristas como Rashi (um de nossos grandes sábios que viveu na França) também citam referente ao conceito 'Lifnim Mishurat HaDin', o Pasuk de Devarim (Dt 12:28) que diz: "e farás o que é reto e bom aos olhos de Elohim.", querendo dizer que cumprir só a sentença da Torah não é realmente 'cumprir a Torah', senão que os limites marcado pelo legal marcam pauta para fazer não só "o que é reto", senão o que é "bom aos olhos de Elohim".

 

Deixo claro que fazer Chesed ou atuar 'Lifnim Mishurat HaDin' não é ir além da Torah, senão que exatamente o contrário, fazer precisamente o que realmente instrui a Torah, porque a Torah requer que se faça com Chesed (Altruísmo), Emet (Verdade), e Emuna (Fidelidade - abordarei este terceiro aspecto posteriormente em outro post). Se fazer Chesed ou atuar 'Lifnim Mishurat HaDin' fosse ir além da Torah, então alguém poderia dizer como já ouvi de um pastor cristão: 'A Torah instrui a guardar o sétimo dia da semana como Shabat, mas eu vou além e guardo os sete dias da semana como shabat'; esse não é o significado do conceito 'Lifnim Mishurat HaDin', senão atuar com Chesed dentro da linha traçada pelo que é instruído na Torah.

 

Na Mishnah só falamos no tratado tardio (Post-Mishnah) dedicado a ética, chamado 'Pirkei Avot' (por falar nele, o Rabino Jacques Cukierkorn ministrou um curso completo dele que vc pode faze-lo se filiando a brit Bracha Brasil, ou adquirindo-o comercialmente); pelo demais a Mishnah a Gemarah se voltam apenas em explicar assuntos legais e nunca oferecem uma definição ou uma explicação do conceito 'Lifnim Mishurat HaDin'; foram os Chachamim posteriores da idade média os que se encarregaram de dar-lhe uma forma ou de definir o que é 'Lifnim Mishurat HaDin', e de editar livros a respeito, como é o caso dos livros Orchot Chaim, Orchot Tzadikim e o Sefer Chasidim entre outros.
Vejamos alguns casos documentados no Talmud onde o uso do conceito LIFNIM MISHURAT HADIN, para que assim possamos compreender o que entendiam os Chachamim do Talmud. No total Rashi identifica seis casos de Lifnim Mishurat HaDin no Talmud: Brachot 45b, Ketuvot 97ª, Bava Metzia 24b, 30b e 83a e Bava Kama 99b, todos são similares por isso só detalharemos os dois últimos:

 

Bava Kama 99b diz: “Havia uma mulher que mostrou um denário a R’ Chiya, e ele lhe disse a ela que o denário era bom. Mais tarde ela voltou a ele e lhe disse: Eu o mostrei [a outros] e eles me disseram que era um denário mau e que não podia usá-lo. E tão ele disse a Rav: Veja e troque-o por um bom e escreve em meu registro que este foi um mal negócio. Mas por que ele deve ser diferente a Dankcho e Isur [dois cambistas de renome naquela época] os quais estiveram isentos devido a que não necessitavam instruções? De certo R’ Chiya não necessitava instruções. R’ Chiya atuou Lifnim Mishurat haDin (dentro da linha traçada pelo legal).”

 

COMENTÁRIO:

 

Chiya era um Shulchani (cambista) expert, de maneira que seu ditame estabeleceu que o denário podia ser usado (que era bom, tal como o podiam fazer Dankcho e Isur). Isto quer dizer que igualmente ele fica livre de cometer algum erro; mas ainda assim ele decidiu dar-lhe um denário indiscutivelmente bom a mulher e que em sua conta apareceria esta perda como um mal negócio. Chiya pensou que o correto era reembolsar a mulher, independente de que ele tivesse razão em que o denário era bom.

 

Bava Metzia 83a diz: “Alguns zeladores romperam um barril de vinho que pertencia a Raba Bar Bar-Chanan, por esta razão ele tomou suas roupas e eles foram queixar-se com Rav. Rav lhe disse [a Raba Bar Bar-Chanan]: Devolves suas roupas. [Raba Bar Bar-Chanan] lhe perguntou: esse é o Din? [Rav] lhe disse: Ainda assim, “Para que possas caminhar no caminho dos bons” (Pr 2:20). Ele lhes devolveu suas roupas. Eles exclamaram: Nós somos pobres, temos trabalhado todo o dia e estamos necessitados, não receberemos nada? [Rav] disse: Paga-lhes seus salários. [Raba Bar Bar-Chanan] perguntou: Esse é o Din? [Rav] lhe disse: Ainda assim, “e guardareis o caminho dos justos” (Pr 2:20).
Note que Rashi em seu comentário sobre Bava Metzia 83a identifica ‘o caminho dos bons’ com Lifnim Mishurat HaDin.

 

COMENTÁRIO:

 

Neste caso Raba Bar Bar-Chanan não cometeu nenhum erro como o pode haver cometido Chiya no caso anterior, onde deu um denário bom a mulher e assumiu uma perda. Neste caso Raba Bar Bar-Chanan foi obrigado por Rav a atuar de uma forma que ele não queria. Este evento está narrado em Bava Metzia, o qual é um tratado do Seder Nezikin que trata sobre a lei do agravo, segundo o qual claramente os zeladores estavam obrigados a cobrir os danos feitos a Raba Bar Bar-Chanan (Mishne Torah, Hilchot Sechut / Leis com respeito a contratar empregados 3.2), além disso, se os zeladores não pagavam a Raba Bar Bar-Chanan elo dano ocasionado, este estava em seu direito de confiscar suas roupas. O mais interessante é que as bases que apresenta Rav a Raba Bar Bar-Chanan para que atue não somente com Din, não são da Torah, senão de Mishle Shlomo (Provérbios), onde não se define com exatidão a que se refere (“para que possas caminhar no caminho dos bons” e “guarda o caminho dos justos”).

 

 

 

POR QUE DESVIAR-SE DO DIN?

 

Por acaso não é o Din o que estabelece o justo? Que significa desviar-se do Din? No Talmud, tradado Sanedrin 32b se menciona a R’ Ashi usando a expressão Devarim (Dt) 16:20 “Tzedek, Tzedek (o justo, somente o justo) deves seguir”, para explicar que ambos Tzedek mencionados no texto se referem a dois tipos de justiça, uma com o Din (estricta-legal) e a outra como Peshara (equidade). Obviamente é sobre este segundo significado que se baseiam os casos de Lifnim Mishurat HaDin mencionados anteriormente. Tanto Chiya como Raba Bar Bar-Chanan são homens de negócio, e a mulher que foi ver Chiya é viúva, já que não tinha quem atendesse o comércio, no caso de Raba Bar Bar-Chanan os homens claramente se declararam pobres, por tanto, basear a situação só no Din (o estrito) causaria um grave dano aos pobres, já que tanto Chiya como Raba Bar Bar-Chanan facilmente podiam absorver a perda, mas não o poderiam os pobres. Também é importante notar o dito de Hilel no tratado Avot 5:10 [5:13], apresentando uma máxima de Chesed (Altruísmo): “o meu é teu e o teu é teu, [esta é a atitude do] Chasid”, isto é em oposição ao que aparenta ser justo: “o meu é meu e o teu é teu, esta é a atitude de pessoas comuns. Mass quando o contexto não é a propriedade senão a vida, não é igual para os Chachamim do Talmud; no tratado Bava Metzia 62a se coloca o exemplo dos homens viajando por um caminho longe da civilização onde não há água e só um deles tem um cântaro de água; se ambos tomam da água não seria suficiente para sobreviverem, por tanto ambos morreriam, mas se um só a tomar poderá sobreviver até chegar a um lugar onde haja pessoas. O que fazer? Ben Petura disse que é preferível que os dois bebam a água “para que não seja um testemunho da morte de seu companheiro”, no entanto Rabi Akiva, cuja opinião é a preferida, disse que a vida do proprietário da água tem prioridade sobre a de seu próximo, e este ditame o baseou no Pasuk da Torah que diz: “e viverá teu irmão contigo” (Lv 25:36), ou seja que a máxima de “o meu é teu e o teu é teu”, não se aplica em caso de vida ou morte.

 

Porém na nossa opinião estes atos de Chesed mencionados no Talmud não são suficientes para os grandes Chasidim, as bases para o ensinamento de Vaikra (Lv) 19:18 é “VeAhavta Lareacha Kamocha” (Amarás a teu próximo [o que faz a vontade do Criador] como a ti mesmo), e enfatizo que toda a Torah e os Neviim (Profetas) sustentam estas duas Mitzvot: “Amarás o Eterno com todo teu coração, com toda tua Nefesh, e com toda tua força” e “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” – uma não pode existir sem a outra.

 

Qual vida é mais preciosa? A sua ou a do seu próximo? O que acontece quando soldados vão a guerra e morrem para defender sua nação, que é igual a seus próximos, ele dá sua vida em combate em favor de seus familiares, de seus amigos de seus conhecidos de seus compatriotas. E, quando isso acontece, quando um soldado morre de forma heroica, isso gera na população em sentimento intenso de Teshuvah, de comoção e de união, veja o que aconteceu na França recentemente onde a morte de jornalistas comoveu uma nação e duas passeatas ocorreram simultaneamente onde em cada uma deles levou as ruas mais de 3 milhões de pessoas.

 

Claro que estes exemplos podem não ser os mais adequados porém nos servem, mas darei outro, imagine o exemplo de uma pessoa que esta caminhando e vê que um idoso esta atravessando a rua e vem um carro em alta velocidade ele calcula e percebe que haverá uma fatalidade e imediatamente aciona seu senso de urgência e de humanidade e age se jogando sobre o idoso para tirá-lo da trajetória do carro e o consegue, porém o carro o atinge levando-o a óbito, isso não é incomum. Este é um caso que contrasta com o caso narrado em Bava Metzia 62a onde os homens vão viajando por um caminho que não há água; para Ben Petura é preferível que os dois bebam a água “para que não seja um testemunho da morte de seu companheiro” e para Rabi Akiva, cuja opinião é preferida, a vida do que tem a água tem prioridade sobre o outro, isto disse baseando-se em Vaikra 25:36 “e viverá teu irmão contigo”.

 

Devemos nos importar com as pessoas que querem voltar-se ao Eterno e a Sua Torah, e para isso temos que nos relacionarmos com eles para que possamos dar o exemplo, levar luz (ensinamento) a suas vidas. Como disse o Profeta Hoshea (6:6) “Desejo Chesed e não sacrifícios”.

 

Nós através do Rabino Jacques Cukierkorn buscamos restaurar os verdadeiros Chasidim, somos uma organização judaica liberal e as pessoas entendem mal liberal achando que não são cumpridores de Torah, ser liberal é pensar, é estudar, é analisar a Torah e então com estudo, ponderações e questionamentos chegar ao caminho que se deve seguir, buscar a correta interpretação das Escrituras, e assim buscamos ajudar aqueles que possuem uma alma judaica que clama para ser reintegrada ao povo, ao seu povo, mostrando a estes que sim eles podem viver em comunidade.

 

Chesed é maior que as instruções relacionadas com impurezas. Nós nos consideramos Shomer HaMitzvot (guardamos os mandamentos): Não assassinarás, não adulterarás, não roubarás, não levantará falso testemunho contra teu próximo, honrar a teu pai e a tua mãe, e amarás ao próximo como a ti mesmo. Quer dizer, as Mitzvot que estão relacionadas entre o ser humano e seu semelhante são a mostra das Mitzvot relacionadas entre o homem e seu Criador.

 

A Torah é o ensinamento com o qual um pai amoroso instrui a seu filho; o pai não quer que o filho guarde e faça instruções pelo simples feito de seguir suas ordens, senão que por amor ao pai, mas se o filho pensa que o objetivo é as ordens em si mesas e não o amor, então obedecerá ao pai em meia medida, quer dizer, somente a parte legal, mas não cumprirá o propósito das mesmas.
Chesed é o remédio da sociedade, Chesed destrói o ódio e a injustiça, faz dos inimigos amigos, uma ação de Chesed é a que completa espiritualmente não só ao receptor senão ao que entrega, Chesed une o separado, Chesed é a única forma de reparar o quebrado deste mundo.

 

Assim precisamos ensinar as Mitzvot e seu cumprimento com Chesed, fazendo com que as pessoas as cumpram corretamente.

 

E assim concluo este tema. Shalom veShalom!!!

Please reload

 

BRIT BRACHA BRASIL - CNPJ: 19.121.806/0001-66  

  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram ícone social

**** O site da BBB - BRIT BRACHA BRASIL® é autenticado conforme os parâmetros de segurança online internacional de mais alto rigor. Utilizamos de todos os meios para manter a loja de forma estável e segura. Para sua segurança, nunca divulgue sua senha a estranhos. Leia todas as informações concernentes antes de concretizar tua compra. É recomendável usar o navegador Mozilla Firefox ou Google Chrome atualizados, com Flash Player e Java atualizado para navegação livre de erros. Proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste website sem autorização por escrito. Todos os direitos reservados à BBB.