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O Apito Final - Parashá Devarim e as Lições da Copa do Mundo


 

Shabat Chazon – 5786

 

Shabat Shalom!

 

Quero começar com uma confissão.

 

Durante o último mês, talvez o maior desafio espiritual de muitos judeus não tenha sido guardar o lashon hará nem controlar a ansiedade...

 

Foi resistir à tentação de conferir os resultados da Copa do Mundo.

 

Afinal, para nós brasileiros, futebol nunca foi apenas um esporte.

 

É uma paixão.

 

É assunto de família.

 

É tema de conversa no trabalho, no elevador, na fila da padaria e até... na porta da sinagoga.

 

Mesmo quem diz que "não gosta de futebol" acaba sabendo quem fez o gol, quem perdeu o pênalti e quem foi eliminado.

 

Durante décadas crescemos ouvindo histórias de Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Romário, Ronaldo, Marta, Neymar e tantos outros.

 

Aprendemos a falar do "jogo bonito", da criatividade brasileira, da alegria de jogar.

 

O futebol faz parte da nossa identidade cultural.

 

E justamente por isso, nesta semana, ele nos ajuda a compreender ainda melhor a Torá.

 

Amanhã, Inglaterra e França disputarão o terceiro lugar.

 

No domingo, Argentina e Espanha decidirão quem levantará a taça.

 

Hoje à noite, porém, ninguém sabe o resultado.

 

Há estatísticas.

 

Há especialistas.

 

Há comentaristas que parecem ter certeza absoluta do que acontecerá.

 

Mas somente Deus conhece o placar final.

 

E isso nos leva diretamente à Parashá Devarim.

 

Também ali ninguém conhece o resultado da partida.

 

O povo está diante do Jordão.

 

A Terra Prometida está logo à frente.

 

Moisés sabe que não atravessará o rio.

 

O povo não sabe o que encontrará do outro lado.

 

Não conhece os desafios.

 

Não conhece as vitórias.

 

Nem as derrotas.

 

E então Moisés faz algo extraordinário.

 

Ele reúne todo o povo para um último discurso.

 

Não é um discurso de despedida.

 

É um discurso de vestiário.

 

Imaginem o cenário.

 

Faltam poucos minutos para a equipe entrar em campo.

 

O treinador olha para seus jogadores.

 

Alguns estão confiantes.

 

Outros nervosos.

 

Outros ainda duvidam de si mesmos.

 

E então ele diz:

 

"Antes de vocês entrarem em campo, preciso lhes lembrar quem vocês são."

 

É exatamente isso que Moisés faz.

 

Depois de quarenta anos liderando Israel, ele faz sua última preleção.

 

Talvez possamos chamá-lo de...

 

o maior técnico da história do povo judeu.

 

E, convenhamos, ele treinou uma equipe bastante complicada.

 

Reclamava da comida.

 

Reclamava da água.

 

Reclamava do calor.

 

Reclamava do frio.

 

Queria trocar de treinador a cada crise.

 

Quem já participou da diretoria de uma sinagoga sabe exatamente do que estou falando...

 

A Torá começa dizendo:

 

"Estas são as palavras que Moisés dirigiu a todo Israel."

 

Não diz:

 

"Estas são as ordens."

 

Nem:

 

"Estas são as broncas."

 

São palavras.

 

Porque os grandes líderes sabem que pessoas não mudam apenas obedecendo.

 

Mudam compreendendo.

 

Todo grande treinador faz a mesma coisa depois de um jogo.

 

Reúne a equipe.

 

Revê os lances.

 

Pergunta:

 

"O que fizemos bem?"

 

"Onde erramos?"

 

"O que podemos aprender?"

 

É exatamente isso que Moisés faz.

 

O Midrash Sifrei explica que um líder relembra o passado não para alimentar a culpa, mas para preparar o futuro.

 

Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre o judaísmo e nossa cultura.

 

Vivemos acumulando experiências.

 

Mas refletimos pouco sobre elas.

 

O Talmud diz que quem revisa um ensinamento cento e uma vezes é superior a quem o revisa apenas cem.

 

Porque sabedoria não nasce da experiência.

 

Nasce da reflexão sobre a experiência.

 

A Copa terminará no domingo.

 

Mas a pergunta mais importante não será quem levantará a taça.

 

Será:

 

O que aprendemos durante esse mês?

 

Uma das primeiras lições é que ninguém vence sozinho.

 

Pelé jamais teria conquistado três Copas sem Djalma Santos, Nilton Santos, Zagallo, Gérson, Jairzinho, Rivellino, Carlos Alberto e tantos outros.

 

Até o maior craque depende de alguém que recupere a bola.

 

Que faça a cobertura.

 

Que corra sem aparecer.

 

No futebol existem jogadores que quase nunca aparecem nos melhores momentos da televisão.

 

Mas sem eles não existe vitória.

 

Nas comunidades judaicas acontece exatamente a mesma coisa.

 

Todos conhecem o rabino.

 

Todos conhecem o presidente.

 

Mas quem prepara o café?

 

Quem limpa a cozinha?

 

Quem organiza as cadeiras?

 

Quem visita discretamente um doente?

 

Quem faz uma doação anônima?

 

Quem chega mais cedo para abrir as portas?

 

O Baal Shem Tov ensinava que cada judeu é como uma letra da Torá.

 

Se faltar apenas uma letra, o Sefer Torá deixa de ser válido.

 

Não existem pessoas insignificantes.

 

Cada um de nós é indispensável.

 

Outra lição vem do famoso VAR.

 

Existe alguém aqui que nunca reclamou do VAR?

 

Acho difícil.

 

Não importa a decisão.

 

Metade do estádio acha que foi um absurdo.

 

Mas sabem de uma coisa?

 

Os rabinos provavelmente adorariam o VAR.

 

A Mishná ensina:

 

"Sejam cuidadosos ao julgar."

 

O Talmud inteiro parece uma cabine de revisão.

 

"O que realmente aconteceu?"

 

"Será que entendemos corretamente?"

 

"Existe outra interpretação?"

 

O judaísmo ensina que a verdade merece paciência.

 

Nos dias de hoje, em que todos querem respostas imediatas e opiniões definitivas, talvez precisemos de um pouco mais de espírito talmúdico.

 

Outro detalhe interessante.

 

No futebol existe o cartão amarelo.

 

Ele é um aviso.

 

Uma oportunidade para mudar antes da expulsão.

 

No judaísmo também.

 

Chamamos isso de teshuvá.

 

Deus nunca desiste de nós na primeira falta.

 

Nem na segunda.

 

Nem, muitas vezes, na décima.

 

O tratado Yoma ensina que um arrependimento sincero pode transformar até os erros em oportunidades de crescimento.

 

Que maravilhoso seria se também aprendêssemos a oferecer uns aos outros a mesma segunda chance.

 

Toda Copa revela heróis inesperados.

 

Um reserva entra nos minutos finais e muda completamente a história.

 

A Bíblia está cheia desses personagens.

 

David era apenas o caçula.

 

Rute era estrangeira.

 

Ester escondia sua identidade.

 

Moisés passou oitenta anos como um simples pastor antes de descobrir sua verdadeira missão.

 

Nunca desprezem quem ainda está no banco de reservas.

 

Talvez Deus esteja apenas esperando o momento certo para colocá-lo em campo.

 

E então chegamos ao maior ensinamento de todos.

 

Se jornalistas esportivos escrevessem a história de Moisés, talvez a manchete fosse:

 

"Treinador fracassa e não entra na Terra Prometida."

 

Mas o judaísmo mede sucesso de outra forma.

 

Quem lembramos três mil anos depois?

 

Moisés.

 

Não o Faraó.

 

Não os imperadores.

 

Não os reis mais poderosos.

 

Porque a verdadeira grandeza nunca foi medida pelo placar.

 

Foi medida pelas vidas transformadas.

 

Moisés não deixou um estádio.

 

Deixou um povo.

 

Não levantou uma taça.

 

Levantou uma nação.

 

Não conquistou um campeonato.

 

Construiu uma civilização baseada na justiça, na responsabilidade e na esperança.

 

Neste domingo alguém levantará a Copa do Mundo.

 

As câmeras registrarão aquele instante.

 

Haverá lágrimas.

 

Fogos de artifício.

 

Milhões de crianças sonharão em viver aquele momento.

 

Que sonhem.

 

O esporte inspira.

 

Ensina disciplina.

 

Coragem.

 

Trabalho em equipe.

 

Mas Moisés nos apresenta um troféu ainda maior.

 

Um troféu que não é de ouro.

 

Não fica numa vitrine.

 

Não pode ser roubado.

 

É uma vida de honestidade.

 

De compaixão.

 

De generosidade.

 

De justiça.

 

O profeta Miqueias resume esse campeonato em uma única frase:

 

"Foi-te revelado, ó ser humano, o que é bom e o que o Eterno pede de ti: que pratiques a justiça, ames a bondade e caminhes humildemente com o teu Deus."

 

Não existem medalhas para a humildade.

 

Nem troféus para a bondade.

 

Nem contratos milionários para a honestidade.

 

Mas essas são as vitórias que permanecem para sempre.

 

Na segunda-feira todos saberemos quem ganhou a Copa.

 

Daqui a alguns anos outra Copa ocupará seu lugar.

 

Mas, três mil anos depois, continuamos lendo as palavras de Moisés.

 

Não porque ele venceu todas as batalhas.

 

Mas porque ensinou um povo inteiro a viver.

 

Meus amigos,

 

Quando o árbitro apitar o fim da final no domingo, terminará apenas um campeonato.

 

Na segunda-feira começará outro.

 

O campeonato de sermos melhores pais.

 

Melhores filhos.

 

Melhores amigos.

 

Melhores vizinhos.

 

Melhores cidadãos.

 

Melhores judeus.

 

Porque, quando soar o apito final das nossas vidas, Deus não perguntará quantos gols nosso time marcou.

 

Perguntará se fomos capazes de amar.

 

De perdoar.

 

De ensinar.

 

De consolar.

 

De repartir.

 

De levantar quem havia caído.

 

Esse é o verdadeiro campeonato da vida.

 

Esse é o campeonato de Devarim.

 

E a boa notícia é que, diferentemente da Copa do Mundo, nele todos podem ser campeões.

 

Shabat Shalom!

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