Do Luto à Esperança: Shabat Nachamu – Parashá Vaet’chanan
- Rabino Jacques Cukierkorn

- 24 de jul.
- 4 min de leitura

Há momentos no calendário judaico que nos convidam a parar e olhar profundamente para nossa história.
Nesta semana lembramos Tishá BeAv, o dia em que o povo judeu recorda a destruição do Primeiro e do Segundo Templo de Jerusalém e as muitas tragédias que marcaram nossa trajetória ao longo dos séculos.
Cada comunidade judaica vive Tishá BeAv de uma maneira diferente.
Algumas comunidades seguem as práticas tradicionais. Outras, como muitas comunidades Reformistas, vivem esse momento através do estudo, da reflexão, da memória e da busca por significado.
Mas a mensagem profunda de Tishá BeAv é universal:
O judaísmo nunca nos pede para ignorar a dor.
Mas também nunca permite que permaneçamos presos a ela.
Por isso, poucos dias depois de Tishá BeAv, chegamos a um dos Shabatot mais bonitos do calendário judaico:
Shabat Nachamu — o Shabat da Consolação.
O profeta Isaías nos transmite uma das frases mais poderosas da nossa tradição:
"Nachamu, nachamu ami" — "Consolem, consolem o Meu povo."
Depois da destruição vem uma pergunta essencial:
Como reconstruímos depois da dor?
Esta pergunta ganha um significado especial nesta semana, depois do ataque ocorrido em Nova York, no qual duas pessoas foram esfaqueadas, incluindo um homem judeu que estava a caminho da sinagoga.
Quando uma pessoa é atacada por ser judia, toda a comunidade judaica sente essa ferida.
O antissemitismo não é uma ideia abstrata.
Ele tem consequências reais na vida das pessoas.
Devemos proteger nossas comunidades.
Devemos fortalecer a segurança das nossas sinagogas.
Devemos denunciar o ódio contra os judeus sempre que ele aparecer.
Mas Shabat Nachamu também nos ensina algo fundamental:
Não permitiremos que aqueles que espalham ódio definam quem somos.
Nossa identidade não nasceu do medo.
Nossa identidade nasceu da fé, do estudo, da comunidade e da esperança.
Nossa parashá desta semana, Vaet’chanan, apresenta Moisés no final de sua vida.
Durante quarenta anos ele guiou o povo de Israel pelo deserto.
Ele enfrentou reclamações, dúvidas, conflitos e momentos de grande dificuldade.
Agora ele está diante da Terra Prometida.
Ele consegue enxergá-la.
Mas sabe que não entrará nela.
Moisés poderia terminar sua vida sentindo-se derrotado.
Poderia perguntar:
"Depois de tudo o que fiz, por que não recebi essa recompensa?"
Mas ele escolhe outro caminho.
Ele transforma sua dor em ensinamento.
Ele não deixa ao povo uma lista de inimigos.
Ele deixa uma missão.
Ele entrega os Dez Mandamentos.
Ele reafirma a aliança.
E ele pronuncia as palavras que atravessaram gerações:
"Shemá Israel, Adonai Eloheinu, Adonai Echad."
"Escuta, Israel: o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um."
O Shemá não é apenas uma declaração sobre Deus.
É também uma declaração sobre a humanidade.
Se Deus é Um, então toda vida humana possui valor infinito.
Por isso nossa tradição ensina:
"B'tzelem Elohim" — cada ser humano é criado à imagem de Deus.
Essa é a razão pela qual rejeitamos o antissemitismo, o racismo, a xenofobia e toda forma de ódio.
Não porque somos fracos.
Mas porque nossos valores são maiores do que o ódio.
Quando alguém usa o nome de Deus para justificar violência, essa pessoa não está honrando Deus.
Está profanando o nome de Deus.
Os rabinos ensinaram que o Segundo Templo foi destruído por causa de sinat chinam — ódio gratuito.
Eles não estavam dizendo que os invasores de Jerusalém não eram responsáveis.
A violência romana foi real.
A destruição foi real.
O sofrimento foi real.
Mas os sábios também nos ensinaram uma lição para todas as gerações:
Uma comunidade pode enfrentar ameaças externas e, ao mesmo tempo, precisa cuidar daquilo que acontece dentro dela.
Precisamos perguntar:
Estamos construindo comunidades de respeito?
Estamos criando espaços onde cada pessoa se sente vista e valorizada?
Estamos sendo uma fonte de luz em um mundo que muitas vezes parece dividido?
A história judaica é uma história de reconstrução.
Depois da destruição de Jerusalém, nossos sábios reconstruíram o judaísmo através da oração, do estudo e das ações de bondade.
Depois da Shoá, muitos acreditaram que o judaísmo europeu jamais se recuperaria.
Mas o povo judeu respondeu construindo novas famílias, novas comunidades e novas gerações.
A história tentou escrever o nosso final.
Mas o povo judeu respondeu escrevendo um novo capítulo.
Por isso Isaías não diz simplesmente:
"Sejam consolados."
Ele diz:
"Consolem, consolem o Meu povo."
A consolação é uma responsabilidade.
Cada vez que ajudamos alguém que sofre, trazemos consolo.
Cada vez que acolhemos alguém novo em nossa comunidade, trazemos consolo.
Cada vez que ensinamos nossa tradição aos nossos filhos e netos, trazemos consolo.
Cada vez que fortalecemos nossa vida judaica, trazemos consolo.
Deus não espera que apenas recebamos esperança.
Deus espera que sejamos instrumentos de esperança.
Vivemos em um mundo com muito sofrimento.
Existe antissemitismo.
Existe polarização.
Existem guerras e conflitos.
Mas a resposta judaica sempre foi a mesma:
Mais vida.
Mais comunidade.
Mais justiça.
Mais compaixão.
Mais esperança.
Como a Torá nos ensina:
"Coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolha, pois, a vida."
Nossa missão não é apenas lembrar aquilo que foi destruído.
Nossa missão é construir aquilo que ainda pode existir.
Querida comunidade:
Que este Shabat Nachamu nos ajude a transformar memória em ação.
Que possamos defender nossa identidade judaica sem perder nossa humanidade.
Que possamos enfrentar o antissemitismo com firmeza e responder ao ódio com mais luz.
Que nossas sinagogas sejam lugares de pertencimento, dignidade e esperança.
Que nossas famílias sejam lugares onde a tradição continue viva.
Que nossas comunidades sejam lugares onde Deus possa habitar.
A história tentou escrever o nosso final.
Mas o povo judeu respondeu escrevendo um novo capítulo.
E esse capítulo continua sendo escrito por nós.
Com nossas escolhas.
Com nossas mitzvot.
Com nosso compromisso.
Com nossa esperança.
Que possamos ouvir novamente a promessa de Isaías:
"O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz."
Que essa luz brilhe sobre aqueles que foram feridos.
Que essa luz acompanhe aqueles que sentem medo.
Que essa luz fortaleça todas as comunidades que trabalham pela paz.
E que possamos construir um mundo onde, como sonhou Isaías:
"Uma nação não levantará a espada contra outra nação, e não aprenderão mais a guerra."
Shabat Shalom.




Fé, esperança e reconstrução!