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A Propensão Humana à Reclamação: Uma Perspectiva Judaica e Psicológica

A natureza humana frequentemente se inclina mais para a reclamação do que para o agradecimento. Esta tendência é observável tanto na vida cotidiana quanto em textos religiosos e filosóficos. No contexto judaico, a Torá e outros escritos sagrados oferecem insights valiosos sobre essa propensão humana, ao mesmo tempo em que a psicologia moderna proporciona uma compreensão científica dessa inclinação.

 

 Reclamação na Tradição Judaica

 

No Tanakh, o livro de Números destaca a constante tendência dos israelitas em reclamar durante sua jornada pelo deserto. Um exemplo claro é a queixa sobre a falta de carne, após terem recebido o maná do céu: "Quem nos dará carne para comer? Lembramo-nos dos peixes que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, dos melões, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos" (Números 11:4-5). Esta passagem sublinha uma característica recorrente do ser humano: a insatisfação e a ingratidão, mesmo diante de milagres e provisões divinas.

 

Rabino Jonathan Sacks comenta sobre essa passagem, argumentando que a ingratidão dos israelitas representa uma falha em reconhecer as bênçãos presentes e um apego ao passado, muitas vezes idealizado. Sacks sugere que a gratidão é um estado de consciência que requer esforço e prática contínua para se desenvolver .

 

Aspectos Psicológicos da Reclamação

 

A psicologia moderna oferece explicações para essa inclinação. Segundo a teoria da evolução, os seres humanos são predispostos a focar em ameaças e problemas como uma estratégia de sobrevivência. Rick Hanson, psicólogo e autor de "O Cérebro de Buda", explica que o cérebro humano tem uma "tendência negativa", o que significa que ele é mais sensível a experiências negativas do que positivas. Esta tendência era útil para nossos ancestrais, pois estar atento a ameaças e perigos aumentava as chances de sobrevivência.

 

Além disso, estudos psicológicos mostram que as pessoas tendem a internalizar e ruminar mais sobre experiências negativas do que sobre as positivas. A psicóloga Barbara Fredrickson, conhecida por sua teoria dos "positivos e negativos", argumenta que enquanto experiências negativas podem restringir nosso pensamento e ações, as positivas ampliam nosso escopo de atenção e nos ajudam a construir recursos duradouros .

 

O Valor do Agradecimento

 

Apesar da inclinação natural para a reclamação, tanto a tradição judaica quanto a psicologia moderna enfatizam a importância de cultivar a gratidão. No Judaísmo, a prática de agradecer é central. As bênçãos diárias, conhecidas como Brachot, são recitadas para diversas situações, lembrando constantemente aos fiéis das pequenas e grandes bênçãos da vida. "É uma boa coisa render graças ao Senhor" (Salmos 92:2) encapsula a ideia de que a gratidão é uma prática espiritual essencial que nutre a alma.

 

Martin Seligman, um dos fundadores da psicologia positiva, também destaca os benefícios de cultivar a gratidão. Em seus estudos, Seligman encontrou que práticas de gratidão podem aumentar significativamente o bem-estar e a felicidade das pessoas. Ele sugere que, ao escrever regularmente sobre coisas pelas quais somos gratos, podemos reverter a tendência negativa do cérebro e promover um estado mental mais positivo e resiliente.

 

Quase-Conclusão

 

A inclinação humana para reclamar mais do que agradecer é uma combinação de predisposições evolutivas e hábitos culturais. A tradição judaica, através de suas escrituras e práticas, oferece um antídoto espiritual para essa tendência, enfatizando a importância da gratidão. A psicologia moderna complementa essa perspectiva ao fornecer métodos práticos para cultivar um estado mental mais positivo. Juntas, essas abordagens nos encorajam a reconhecer nossas bênçãos e a transformar nossa visão de mundo, promovendo uma vida mais equilibrada e significativa.

 

Chamo de Quase-Conclusão porque este tema só se conclui quando você, leitor, exercitar ao menos por 50 dias, todos os dias, a escrever, não só pensar ou meditar, mas escrever sobre o que você é grato hoje. Faça disso um journal ou diário, como queira, mas, realize como uma ginástica mental. Ao escrever, visualize o objeto ou a pessoa de seu agradecimento, os porquês, os cheiros, as sensações, emoções, razões e causalidades, as implicações e derivado disso tudo. Não precisa fazer um texto, apenas uma palavra basta. Mas faça. Eu sou grato por você ler até aqui.

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